Direita cristã se conforma com derrota

John McCain tem apoio de evangélicos, mas não os fez entrar na campanha

Patrícia Campos Mello, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2008 | 16h28

  Depois de oito anos sob a guarda do fervoroso evangélico George W. Bush, a direita cristã prepara-se para um ambiente bem menos amigável nos EUA. Os cristãos conservadores tiveram um grande amigo na Casa Branca nos últimos dois mandatos: Bush nomeou dois juízes para a Suprema Corte que são contra o direito ao aborto, destinou recursos para educação sexual que ensina apenas abstinência e apoiou um veto constitucional ao casamento homossexual.   Veja também:  Voto negro cresce 30% por democrata Latinos decidem em quatro estados Militares admiram o 'herói republicano' Crise dá a Obama o voto de operários brancos   Agora, o grupo se vê diante da possibilidade da eleição do presidente mais liberal da história - Barack Obama é a favor do direito ao aborto, pesquisas com células-tronco e da união civil de homossexuais. Mas, como bons cristãos, eles encaram a possibilidade com resignação.   "Não será muito agradável, mas sabemos que Deus tem o controle de tudo e sabe o que faz", diz Robert Taylor, diretor da Universidade Bob Jones, a mais fundamentalista das universidades cristãs dos EUA. Sentado em seu escritório, cercado de fotos ao lado dos presidentes George W. Bush, George H.W. Bush e Ronald Reagan, Taylor acompanha minuto a minuto as pesquisas. E está conformado. "Não tenho grandes expectativas. Acho que vou parar de receber cartões de Natal da Casa Branca", brinca.   O que Taylor mais teme é a nomeação de juízes liberais para a Suprema Corte - o próximo presidente deve nomear dois - e a vitória de uma maioria democrata no Senado abriria caminho para a aprovação de leis que permitam pesquisas com células-tronco e proíbam o ensino do criacionismo nas escolas.   Na Bob Jones, meninas só podem vestir saia. Tatuagens e piercings são absolutamente vetados. O darwinismo não é visto com bons olhos - os alunos aprendem biologia sob a perspectiva bíblica, ou seja, dinossauros coabitando com Adão e Eva. Mãos dadas ou manifestações públicas de afeto, nem pensar.   "Não permitimos nenhum contato físico entre os alunos. Não somos fanáticos controladores, só prometemos aos pais devolver seus filhos do jeito que eles vieram, e não alcoólatras, drogados e grávidas", diz Brian Scoles, gerente de relações públicas da Bob Jones.   Roupas da Abercrombie & Fitch, marca preferida pela maioria dos adolescentes americanos e conhecida por suas propagandas sensuais, são proibidas no câmpus. "Abercrombie & Fitch mostra um grande antagonismo ao nome de Cristo e grande demonstração de maldade em suas promoções", explica o código de conduta da universidade. Facebook e MySpace são bloqueados. "Tentamos deixar o lixo lá fora", explica Taylor.   A universidade é cercada de controvérsias. A Bob Jones não aceitava alunos negros até 1971 e, até o ano 2000, proibia "namoros inter-raciais". Bush foi duramente criticado durante a campanha de 2000 por ter feito um discurso na universidade, considerada racista. Na mesma campanha, um professor da Bob Jones espalhou e-mails dizendo que McCain tinha uma filha negra fora do casamento - em referência a Bridget, a menina de Bangladesh adotada pelos McCains. Bob Jones III, diretor aposentado da faculdade, mandou uma carta para Bush quando o presidente foi reeleito: "Você não deve nada a esses liberais. Eles o desprezam porque desprezam o nosso Cristo."   Segundo a última pesquisa do instituto Pew, 65% dos evangélicos apóiam McCain e 22% preferem Obama. "Com o candidato mais liberal da história concorrendo e, provavelmente, vencendo a eleição, a direita cristã está muito preocupada com o futuro do país", diz Hollis Felkel, estrategista republicano baseado em Greenville.   No passado, explica Felkel, a ala cristã do Partido Republicano conseguiu emplacar candidatos como Bush ao atrair a ala fiscalmente mais conservadora do partido com plataformas de redução de impostos. Tratava-se de uma coalizão entre os conservadores cristãos e os conservadores fiscais.   No entanto, o partido estragou essa coalizão ao perder o controle dos gastos do governo e deixar que o déficit orçamentário explodisse. "Os cristãos conservadores não estão frustrados apenas com a provável eleição de Obama, mas também porque o número de funcionários em Washington que os representam está diminuindo."   Para a direita cristã, a indicação de John McCain foi o ápice de um "desvirtuamento do partido". McCain criticou a Universidade Bob Jones e chamou fundamentalistas cristãos, como o pastor Jerry Falwell, de "agentes da intolerância".   Mas, segundo Felkel, os cristãos conservadores não ficarão parados. "Já existe um movimento dos cristãos conservadores para retomar o Partido Republicano", diz. "Enquanto Washington segue para a esquerda, os cristãos conservadores estarão ocupados recrutando candidatos para o Congresso, em 2010, e para a presidência, em 2012", diz Felkel.   Sarah Palin animou mais a base do que McCain, por causa de seus "valores de família". "Contudo, o fato é que a base nunca se engajou totalmente por McCain por falta de entusiasmo dos ativistas pela candidatura dele", diz Felkel. "Se alguém como Mike Huckabee tivesse sido o candidato republicano, a direita cristã teria se engajado em massa para elegê-lo, como fez em 2000 e 2004 com Bush. No entanto, isso teria isolado os moderados e independentes, o que poderia proporcionar uma vitória ainda mais folgada para os democratas."

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