Joshua Lott/The Washington Post
Joshua Lott/The Washington Post

Ela foi para os EUA há 44 anos e agora votou pela primeira vez

Rutilia Ornelas decidiu aplicar à cidadania este ano com um propósito: votar pelo candidato democrata em nome da comunidade imigrante

Michelle Ye Hee Lee, The Washington Post

03 de novembro de 2020 | 20h08

Quarenta e quatro anos depois de emigrar do México para um trabalho rural, Rutilia Ornelas decidiu aplicar à cidadania americana este ano com um propósito: votar pelo candidato democrata em nome da comunidade imigrante.

Ela não teve resposta sobre a aplicação por meses. Como muitos outros envolvidos em um acúmulo de processos de naturalização no país todo, ela temeu que seu voto escaparia.

Mas na segunda-feira, 2, ela se libertou do limbo burocrático. Depois de 20 anos como residente permanente, ela fez seu juramento como cidadã americana no escritório do U.S. Citizenship and Immigration Services, em Milwaukee, Wisconsin.

E na manhã de terça, 3, ela votou em Joe Biden.

“Eu atingi meu objetivo, estou muito feliz”, disse Ornelas, de 65 anos. “Sinto orgulho que o meu voto conta. Estou segura de que ele vai levar a algo melhor, e vai nos beneficiar.”

As aplicações de naturalização cresceram após a eleição de Donald Trump em 2016. Mas centenas de milhares de processos permanecem pendentes no USCIS, com alguns pedidos esperando dois ou mais anos por um processo que a agência mira completar em cinco meses.

Ornelas pensou em pedir a naturalização no passado, mas se sentia insegura sobre o processo. Ela acredita que a discriminação contra comunidades imigrantes e minorias piorou durante a presidência de Trump, o que a deu coragem para finalmente aplicar. Viver em um estado pêndulo foi outro incentivo.

Em agosto, quando Ornelas participou de uma matéria no Washington Post, ela ainda esperava o agendamento de sua entrevista — pela qual ela teria de passar para chegar à cerimônia de juramento, o passo final no processo de naturalização. Depois que a matéria foi publicada, ela foi contatada por outros imigrantes também nas fases finais do processo. Na terça-feira, ela disse estar esperançosa por aqueles que falaram com ela.

“Desejo e espero que eles já tenham alcançado (a cidadania) e possam votar”, disse.

Ao longo do processo, ela foi acompanhada por sua filha, Paola Espinoza, coordenadora do grupo de direitos dos imigrantes Voces de la Frontera, baseado em Milwaukee. A organização disse ter visto mais interesse dos imigrantes em procurar a naturalização para votar contra Trump.

“A tendência é super perceptível. Existe um sentimento de empoderamento em se tornar naturalizado, e ser capaz de participar do processo eleitoral”, disse a porta-voz da organização, Jacquelyn Kovarik.

Cidadãos naturalizados são uma proporção crescente do eleitorado, chegando a 23,2 milhões, ou 1 em 10 americanos elegíveis para votação — um recorde, de acordo com o Pew Research Center. Novos cidadãos naturalizados em 10 estados pêndulo excedem a margem de vitória de Trump em 2016 nesses estados, de acordo com uma pesquisa da National Partnership for New Americans, uma rede de organizações pelos direitos de imigrantes e refugiados.

Mas alguns novos cidadãos naturalizados enfrentaram outro problema nos dias recentes: confusão sobre se eles são elegíveis para se registrar e votar.

Em Massachusetts, por exemplo, agentes de imigração federal erroneamente falaram a novos cidadãos naturalizados que eles não eram elegíveis para votar porque haviam perdido o prazo de registro de votantes no Estado, de acordo com a Associated Press.

Preocupações similares sobre confusão de prazos apareceram em outros locais do país nos últimos dias, aumentando o receio de que esses novos cidadãos naturalizados pudessem ser impedidos de votar, mesmo sendo elegíveis, disse uma diretora da National Partnership for New Americans, Nancy Flores.

Em 20 estados e em Washington, D.C., novos cidadãos naturalizados podem se registrar para votar no dia da eleição mesmo se o prazo tiver acabado, disse Flores. Wisconsin permite o registro no dia independente se é um novo cidadão ou não. Nos últimos dias, organizações de direitos dos imigrantes lançaram campanhas educacionais sobre prazos de registro para novos cidadãos.

“O que está em jogo é muito importante, as pessoas sabem disso, e esse tipo de coisa é preocupante”, disse Flores. “É uma série de obstáculos que novos cidadãos enfrentam no último momento.”

Flores disse que ficou emocionada com a resiliência de imigrantes que buscavam informações sobre como se naturalizar e se registrar para votar, e foram capazes de cruzar a linha de chegada a tempo de votar na terça-feira.

“O que é mais inspirador para mim é que eles estão muito presentes. Estão ansiosos pela cerimônia de juramento para votar. Para alguém como Rutilia, esse certamente foi o caso”, ela disse.

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Ornelas emigrou de Jalisco, México, para Mendota, Califórnia, em 1976 quando seu marido arranjou um emprego numa fazenda por lá. O marido morreu, e ela depois se mudou para Milwaukee, onde trabalhou como faxineira e criou seus filhos.

Quando ela se preparava para a cerimônia de juramento na segunda-feira, Ornelas disse que estava nervosa e emocionada. Ela e sua filha vestiram suas máscaras, e a cerimônia ocorreu rapidamente porque poucas pessoas foram autorizadas a participar por conta das precauções sobre a covid-19.

Ornelas disse que tem testemunhado retórica anti-imigração e ações contra imigrantes, e temia que esses sentimentos piorassem sem um novo presidente. Na entrevista em agosto, quando enfrentava incerteza sobre se poderia votar, ela descreveu por que era tão importante para ela finalmente entregar uma cédula: votar era uma maneira de falar em nome da comunidade latina e imigrante.

“Decidi me tornar cidadã para que minha voz contasse, e para que os latinos e minorias contassem e para ser uma a mais nesse país”, ela disse na época. “São direitos para mim e para a minha comunidade.”

Na terça-feira, ela nem tomou café da manhã para votar o mais cedo possível. Assim que voltou para casa, fez um brunch com a sua família e celebrou. / Tradução Guilherme Sobota

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