Michael Ciaglo / Houston Chronicle / AP
Michael Ciaglo / Houston Chronicle / AP

Eles se mudaram para Houston depois do Katrina; agora, sofrem com o Harvey

A história das família que deixaram a Louisiana em 2005, fugindo de um dos maiores desastres naturais dos EUA, e agora se veem às voltas com uma nova tempestade que causa mortes e destruição no Texas

Tracy Jan e Brittney Martin, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2017 | 03h36
Atualizado 30 Agosto 2017 | 10h41

Jude McFarland e Candace Victor subiram ao sótão da casa deles em Nova Orleans para escapar da inundação causada pelo furacão Katrina em agosto de 2005. 

McFarland carregou sua mulher por horas, com água pela altura do pescoço, até que ele encontrou um veículo do Exército para levá-los a um hospital do outro lado do rio Mississippi. Um médico, vestindo jeans rasgados e chinelos, disse ao pai que se preparasse para segurar o bebê que estava para nascer.

O casal a chamou de Miracle (“Milagre”, em tradução livre). Doze anos após o nascimento de Miracle, os McFarlands tiveram que escapar novamente de alagamentos. Agora, o casal tem três filhos, os mais novos com 8 e 9 anos.

A família se mudou para um abrigo de emergência na cidade de San Antonio, no Texas, na semana passada quando eles abandonaram a casa que moravam em Corpus Christi antes da chegada do furacão Harvey.    

McFarland passou a segunda-feira com outros desabrigados, tentando ver relances de suas casas abandonadas no noticiário, enquanto as crianças se divertiam com um show de mágica. Ele não sabe dizer o quão danificado ficou seu apartamento, que fica no primeiro andar, mas sabe que não há eletricidade e está tudo alagado. 

“Estou apenas tentando ser forte por minha família”, disse McFarland, de 41 anos. Mas ele espera pelo pior. “Achei que estávamos bem e agora teremos que recomeçar tudo de novo.”.

Na terça-feira, ele lembrou dos 12 anos do furacão Katrina. Ao menos 250 mil pessoas de New Orleans foram levadas para Houston após o desastre, e entre 25 mil e 40 mil pessoas decidiram recomeçar a vida ali, de acordo com a New Orleans Association of Houston, uma ONG criada para dar suporte aos ex-moradores da Louisiana que refizeram a vida na área após os furacões Katrina e Rita. 

Assim que a tempestade Harvey começou a se mover em direção ao sudeste da Louisiana nesta semana, moradores de Lake Charles e outras cidades do Estado, começaram a deixar suas casas.

A maioria dos desabrigados pelo Katrina em 2005 era de descendência afro-americana, e muitos eram pobres. Famílias se mudaram para Houston porque sentiam que a sua nova cidade oferecia trabalhos com melhores salários, melhores escolas, e um ambiente seguro para crianças, junto com residências a preços acessíveis, algo escasso em New Orleans, onde as moradia populares destruídas pelo Katrina nunca foram refeitas, diz Mtangulizi Sanika, diretor da New Orleans Association of Houston.

Mtangulizi, um professor aposentado de políticas públicas e estudos africanos de New Orleans, migrou para Houston após o Katrina pois sua mulher, uma pastora, encontrou um emprego melhor como educadora espiritual, treinando clérigos que atuavam em hospitais. Eles vivem em uma nova região de Houston que não foi alagada, mas ele afirma que “estão em prisão domiciliar”, já que as principais ruas ao redor do bairro estão debaixo d’água.

Brian Greene, que já comandou o banco de alimentos de New Orleans, também se mudou depois do Katrina, e hoje presidente o banco de alimentos de Houston. Na segunda-feira, junto com seu cachorro e seu gato, ele estava preso no segundo andar de sua casa, que estava alagada com quase um metro de água. "Em certo momento, a cama e outros móveis estavam flutuando pela casa", disse.

Greene recebeu meia dúzia de seus vizinhos, que vivem em casas térreas, até que voluntários chegassem em um barco no domingo à noite, os retirasse por uma janela no segundo andar, e os levassem até abrigos de emergência. 

Ele mandou sua mulher e seus dois filhos para San Antonio, para que se livrassem dos riscos do furacão. Greene ficou para garantir que a comida fosse distribuída para os abrigos de emergência, mas na segunda-feira o banco de alimentos estava cercado pela água.

“Não entendíamos que podíamos ficar isolados por tanto tempo”, afirmou Green. “Normalmente, depois deste período a tempestade já teria passado e seríamos capazes de fazer nosso trabalho de enviar suprimentos. Estamos nesse atraso porque o alagamento não cede.”

Para muitas famílias, o impacto do Harvey a longo prazo será devastador, diz Greene. No seu caso, especificamente, o seguro contra inundações deve cobrir a maioria dos reparos em casa. E ele já encontrou outra residência, para onde deve se mudar em setembro. Já outros ex-moradores de New Orleans se preparam para o pior.

Destiny Wilson tinha apenas nove anos quando o Katrina varreu New Orleans, derrubando árvores e a linhas de transmissão de energia no condomínio de apartamentos que ela morava com a mãe. Sem eletricidade e com o estacionamento alagado, Destiny e sua família - junto com outros parentes, que vieram para a casa de sua mãe para fugir do fenômeno - ficaram isolados por três dias. 

“Chegamos a ficar sem comida e suprimentos e percebemos que não receberíamos nenhuma ajuda”, ela diz. “Tivemos que sair na primeira chance que tivemos.”

Agora com 21 anos, Destiny vive com sua mãe, uma motorista de ônibus escolar que conseguiu dinheiro suficiente para comprar uma casa própria. Já Destiny faz a faculdade de farmácia.

Apesar de a rua delas estar alagada, a água não invadiu sua casa - ainda. Ela e sua mãe estão atentas à várzea nos fundos da casa, cujo nível está subindo. 

“O riacho está cheio. Ver essa água toda ao redor de casa é estranho”, diz Destiny. “É como reviver o Katrina, tudo de novo. Não podemos ir a lugar nenhum, é água para todo lado.”

Ela e sua mãe estão sem eletricidade há quatro dias. Elas recarregam seus celulares no carro, e usam o fogão a gás para cozinhar carne e macarrão antes que os alimentos estraguem. 

“Estamos esperando. Temos água e sanduíches de presunto. Aprendi bem cedo a valorizar a família e não as coisas materiais, porque perdemos tudo no Katrina.” / THE WASHINGTON POST

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