Em debate morno, vices tentam ganhar a classe média nos EUA

Disputa de Biden e Palin é menos agressiva do que esperado; diferenças sobre Iraque e economia são evidentes

Agências internacionais,

02 de outubro de 2008 | 23h33

Foto: Reuters  SAINT LOUIS - O único debate entre os candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos foi marcado pela disputa pelo eleitorado da classe média americana, aterrorizada com a perspectiva de que a crise financeira se transforme eme uma recessão. O candidato democrata, Joe Biden, começou o encontro na Universidade Washington em Saint Louis, Missouri, atacando o candidato republicano, John McCain, pela desregulamentação do sistema financeiro e também por estar fora de contato com a crise. Sua rival, a candidata republicana, Sarah Palin, aparentou segurança e tentou mostrar que está mais próxima da classe média. A governadora chegou até a afirmar que ela e seu marido, Todd, fazem parte do grupo e que seus filhos estudam em escolas públicas. Veja também:Veja a cobertura do debate no blog Galeria de fotosJohn McCain desiste de campanha no Michigan Pesquisa do NYT dá a Obama 9 pontos de vantagem Obama x McCain Entenda o processo eleitoral  Cobertura completa das eleições nos EUA Biden afirmou que o plano de socorro financeiro aprovado pelo Senado é a maior evidência de que os americanos são vítimas "da pior política econômica que o país já teve", em referência ao governo republicano. "Apenas duas semanas atrás, o senador McCain disse que os fundamentos da economia americana eram sólidos. Ele está fora de contato com a realidade", disse Biden, respondendo à pergunta "Como reduzir a polarização em Washington?". Palin respondeu que McCain, quando disse que a economia era sólida, se referia à força de trabalho dos EUA, ou seja, aos trabalhadores. Em outra pergunta, sobre quais eram os culpados pela situação que levou à crise, Biden acusou o senador McCain de ter apoiado as políticas de desregulamentação do mercado. "John McCain desregulamentou, essa foi sua resposta. A classe média precisa de menos impostos", disse Biden. Palin reagiu e disse que "Biden e Obama votaram pelos maiores aumentos de impostos na história dos EUA". Em seguida, ela lembrou sua experiência de prefeita em Wasilla, no Alasca, e afirmou que reduziu impostos todos os anos. A governadora assinalou ainda que um meio de medir como a situação do país está mal é assistir a uma partida de futebol infantil e escutar o que dizem os pais. "Aposto que vocês escutarão algo sobre medo". Biden ressaltou que ele e seu companheiro de chapa, Barack Obama, cortarão os impostos que contarem com receita inferior a US$ 250 mil anuais, "o que representa as taxas de 95% da população", mas aumentarão os dos mais ricos e das grandes empresas. Segundo o senador por Delaware, isso fará "justiça para o motor da economia nos Estados Unidos: a classe média". "Quando a classe média prospera, os Estados Unidos prosperam", afirmou o democrata. Palin respondeu que esse plano "esquece milhões de pequenas empresas" que veriam seus impostos aumentar e sua produtividade cair. Palin se apresentou, no começo do debate, como uma 'maverick', o que significa um rebelde político no jargão político americano. Ela também disse que McCain é 'maverick' e que ambos reformarão o sistema que permitiu o crescimento da crise financeira. Biden rebateu, afirmando que enquanto o candidato republicano foi um 'maverick' em alguns temas, foi totalmente ausente em questões importantes na vida das pessoas. Durante todo o debate, Palin reforçou a mensagem de mudança, slogan da campanha de Barack Obama. Em determinado momento da discussão, Biden chegou a brincar e afirmar que a verdadeira mudança que os EUA precisam será promovida pelo candidato democrata. Diferenças claras Os candidatos discordaram ainda sobre as causas das mudanças climáticas. Palin afirmou que ninguém pode atribuir que cada atividade do homem contribui com a mudança no clima, citando as "alterações cíclicas de temperatura do planeta". O democrata rechaçou a afirmação da rival, afirmando que os danos ao meio ambiente são claramente provocados pelo homem. "Se você não entende as causas, não poderá encontrar uma solução", afirmou. Em relação aos direitos dos homossexuais, Biden disse que se a chapa democrata for eleita, os casais gays nos EUA terão os direitos civis iguais aos dos heterossexuais. Sua rival concordou em apoiar os direitos civis dos gays, mas foi clara quando disse que não apóia o casamento homossexual. "Eu não apóio o casamento gay", disse no final da sua resposta, logo após o senador Biden ter sugerido que ambos tinham opiniões iguais sobre a questão. Logo após a resposta da governadora do Alasca, conhecida como uma conservadora religiosa, a apresentadora Gwen Ifill, da televisão estatal PBS, arrancou uma gargalhada da platéia, ao dizer: "Bem, vamos logo para a política externa". Política externa As diferenças em política externa entre os candidatos ficaram bastante claras no debate. Enquanto Biden foi taxativo em dizer que se a chapa democrata for eleita a guerra do Iraque acabará, Palin defendeu a estratégia adotada por Bush e defendida por McCain. A pergunta da mediadora do debate, Gwen Ifill, foi: "Qual sua estratégia para sair do Iraque?". Os dois candidatos, que possuem filhos em missão no Iraque, evitaram usar suas histórias pessoais como argumento relacionado ao conflito. Tentando mostrar divergências entre Obama e seu vice, Palin lembra que Biden votou a favor da guerra do Iraque, enquanto seu colega de chapa se opôs ao confronto desde o início. Palin ressaltou que o plano de retirada dos democratas é uma "bandeira branca de rendição" e que seria uma vergonha sair do Iraque, já que o plano contra a insurgência deu certo. Biden se defendeu enfatizando que a diferença entre os democratas e o republicanos é que seu partido irá terminar a guerra. Com McCain, "não há final", atacou o vice democrata, lembrando ainda que o próprio candidato republicano votou contra o financiamento das tropas. Já Palin defendeu a permanência no Iraque até a vitória. "O reforço de guerra funcionou", disse, referindo-se ao reforço de 30 mil soldados ordenado pelo presidente Bush no ano passado. Em seguida, dirigindo-se a Biden, ela atacou Obama: "Você disse que Obama não está preparado para ser comandante em chefe", afirmou. Biden disse que, ao contrário do que acreditam os republicanos, o centro da "guerra ao terror" não é o Iraque, mas sim a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Ele foi cauteloso, no entanto, ao se referir ao Paquistão, um aliado dos EUA. Palin insistiu que o foco da "guerra ao terror" está no Iraque. Em outra pergunta, sobre quem é mais perigoso, um Irã com armas nucleares ou um Paquistão descontrolado, ela disse que Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, é "um ditador perigoso, assim como Kim Jong-il (presidente da Coréia do Norte) e os 'irmãos Castro'", em referência ao líder cubano Fidel Castro e seu irmão, o presidente cubano Raúl Castro. Os republicanos esperam que um bom desempenho de Palin possa frear o bom momento vivido pela campanha de Obama. Ele solidificou sua liderança nas pesquisas de opinião nacional e obteve vantagem em Estados cruciais, como a Flórida e Ohio. A surpreendente escolha da relativamente desconhecida vice de McCain em agosto transformou a governadora do Alasca - conhecida por caçar alces - em uma celebridade política. Mas sua pouca experiência nacional e a performance hesitante nas poucas entrevistas que concedeu à mídia levantaram dúvidas sobre se ela está preparada para o cargo e geraram críticas até mesmo por parte de notórios conservadores. (Com Talita Eredia e Gabriel Pinheiro, do estadao.com.br, e André Lachini, da Agência Estado)

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