EUA condenam prisões de ativistas e jornalistas em Cuba

Episódio representa o primeiro atrito entre os dois países após o anúncio da retomada de relações diplomáticas

O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2014 | 12h00

Os Estados Unidos condenaram as prisões de ativistas e de jornalistas ocorridas na terça-feira, 30, em Cuba. Washington classificou as detenções de “práticas de repressão”. O caso é o primeiro atrito entre os dois países após o anúncio da nova política do presidente americano, Barack Obama, de aproximação com o regime da ilha. 

Na terça-feira, autoridades cubanas prenderam a artista Tania Bruguera e vários outros dissidentes, entre eles o jornalista Reinaldo Escobar, marido da blogueira Yoani Sánchez, o estudante Eliecer Ávila e o ativista Antonio Rodiles, que comanda uma organização de defesa dos direitos humanos. Eles supostamente participariam de uma manifestação na Praça da Revolução, em Havana.

O protesto, organizado por um novo movimento que se intitula #YoTambienExijo (EuTambémExijo, em português) pretendia desafiar o governo com uma performance pública que Bruguera faria na Praça da Revolução. Ela queria instalar microfones no local e convocar as pessoas para que falassem brevemente sobre o que pensam do futuro de Cuba. 

"Bruguera encontra-se presa na unidade policial de Acosta, no município de Diez de Octubre, em Havana", indicou o site, dirigido pela famosa blogueira opositora Yoani Sánchez, que esteve sob prisão domiciliar na terça-feira, mas que já foi libertada. O marido de Sánchez e editor geral do 14ymedio, Reinaldo Escobar, que esteve detido por várias horas e que foi libertado na noite de terça-feira, afirma ter visto Tania vestindo "um uniforme cinza de presidiária" neste mesmo centro policial, indicou o site.

Assim como Bruguera, outros ativistas seguem detidos desde terça-feira, na primeira onda repressiva após o acordo entre Cuba e Estados Unidos para restabelecer relações diplomáticas, anunciado em 17 de dezembro simultaneamente pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro. Nos últimos anos, era comum que os dissidentes presos fossem libertados horas depois sem acusações.

Os meios de comunicação oficiais cubanos, que descreveram a performance artística que Bruguera pretendia fazer como uma provocação política, não informaram sobre estas prisões, que levaram os Estados Unidos a declararem estar preocupados.

"Estamos profundamente preocupados com as últimas informações de detenções por parte das autoridades cubanas de membros pacíficos da sociedade civil e de ativistas", disse o departamento de Estado americano em um comunicado. "Condenamos fortemente a perseguição contínua do governo cubano e a utilização reiterada da detenção arbitrária, às vezes com violência, para silenciar os críticos, perturbar as reuniões pacíficas e a liberdade (de) expressão, e intimidar cidadãos", acrescentou.

O dissidente Elizardo Sánchez havia denunciado na terça-feira à AFP que uma dezena de opositores haviam sido presos para impedir a performance na emblemática Praça, coração político de Cuba, onde Bruguera colocaria um palco e um microfone para que qualquer cubano dissesse o que quisesse durante um minuto.

Vinte opositores e muitos correspondentes estrangeiros se dirigiram à praça na terça-feira no horário indicado, às 15h (18h de Brasília), mas a artista não estava no local e não conseguia ser contactada, já que seu telefone celular estava fora de serviço e seu apartamento tomado por policiais à paisana que impediam o acesso, constataram jornalistas da AFP.

Bruguera - que se divide entre Cuba, Estados Unidos e França - havia promovido sua atividade através das redes sociais, à margem dos meios de comunicação da ilha, que estão sob controle estatal. 

Segundo o 14ymedio, seguem detidos seu repórter Víctor Ariel González, os dissidentes Antonio Rodiles e Eliécer Ávila, o fotógrafo Claudio Fuentes e sua acompanhante, Eva Baquero. Este site é o único meio de comunicação independente de Cuba, mas quase não é lido na ilha devido à pequena cobertura de internet e porque às vezes é bloqueado.

A artista havia convocado os cubanos a expressarem livremente suas ideias sobre o futuro da ilha, mas era pouco provável que esta atividade fosse tolerada pelo governo comunista. A Praça é palco de grandes manifestações do governo e à frente dela encontram-se a casa de governo, o Comitê Central do Partido Comunista (único) e o poderoso Ministério das Forças Armadas Revolucionárias.

A performance havia sido rejeitada de antemão pela governista União de Escritores e Artistas de Cuba, que a classificou de provocação política, e pelo Conselho Nacional de Artes Plásticas, dependente do Ministério da Cultura, que afirmou que se tratava de um reality show, e não de uma obra de arte. /AFP

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