Excesso de confiança prejudicou Hillary, apostam analistas

Campanha da pré-candidata não teria correspondido aos apelos de mudança aclamados por Barack Obama

Reuters,

29 de fevereiro de 2008 | 11h33

Como a democrata Hillary Clinton deixou de ser o nome favorito para conquistar a vaga do partido nas eleições presidenciais dos EUA para transformar-se em uma pré-candidata que hoje luta por sua sobrevivência política? Estrategistas da legenda e analistas de política afirmam a campanha da pré-candidata deixou-se tomar pelo excesso de confiança, não respondeu aos contagiantes apelos por mudança do adversário Barack Obama e não conseguiu controlar o ex-presidente Bill Clinton, entre outras falhas.   Veja também: Obama lidera no Texas e empata com Hillary em Ohio Confira a disputa em cada Estado Conheça a trajetória dos candidatos Cobertura completa das eleições nos EUA    Quando lançou sua pré-candidatura, 13 meses atrás, Hillary o fez com uma declaração autoconfiante: "Estou na disputa, e estou na disputa para vencer." Em agosto, a ex-primeira-dama dos EUA liderava com folga as pesquisas, aparecendo 18 pontos percentuais à frente de Obama, o segundo colocado.   Ao lado de um marido politicamente brilhante, Hillary, atual senadora pelo Estado de Nova York, era vista pelos republicanos como o candidato a ser vencido nas eleições presidenciais de novembro. Ela e seus assessores projetavam um ar de inevitabilidade, e a pré-candidata tentou colocar-se acima do bafafá criado por seus rivais imediatos dentro do Partido Democrata.   Muitas autoridades de Washington concluíram que a senadora derrotaria o candidato republicano na corrida pelo mais alto cargo do país, já que muitos norte-americanos mostram-se dispostos a mudar de rumo após os oito anos do governo de George W. Bush, um republicano. Naquele momento, porém, os eleitores começaram a confundir os donos do poder e os especialistas em pesquisa.   Hillary perdeu as prévias de Iowa para Obama, venceu em New Hampshire, dividiu com o pré-candidato os Estados da Superterça e depois perdeu 11 disputas consecutivas para o senador de Illinois.   Um dia de profundas reflexões se aproxima, a próxima terça-feira, quando acontecerão prévias democratas no Texas e em Ohio. Qualquer resultado diferente de vitórias convincentes nos dois Estados poderá significar o fim da campanha de Hillary. Stephen Hess, professor da Universidade George Washington, disse que a equipe da pré-candidata "aceitou como fato consumado os indícios do triunfo dela." "Havia um sentimento de que aquilo era o direito deles", afirmou.   Vontade do povo?   Jim Duffy, um estrategista do Partido Democrata, disse que a campanha de Hillary "basicamente interpretou mal" a população norte-americana, acreditando que os eleitores prefeririam a experiência dela aos apelos de Obama por uma mudança radical na forma como Washington conduz seus negócios.   "Quando Obama pegou fogo, eles não dispunham de nada com o que responder porque a campanha toda deles baseava-se na premissa de que conhecem Washington e de que sabem como agir ali de forma a obter resultados", afirmou. "Obama é o homem que acalenta esperanças e defende mudanças. Quem desejaria ficar contra ele?"   Segundo Liz Chadderdon, estrategista também dos democratas, Hillary nunca teve uma mensagem própria e nunca criou um vínculo emocional com o eleitorado semelhante ao de Obama. "Regra Número 1: Insista em sua mensagem. Neste momento, alguém consegue dizer qual a mensagem da campanha dela?", afirmou Chadderdon. "Ela interpretou mal o que significa uma mudança. Mudar não significa mudar as políticas de governo. Mudar significar realizar uma mudança fundamental na forma como funciona o jogo político neste país."   Os especialistas também afirmaram que o marido dela acabou por prejudicá-la. Durante semanas, o ex-presidente falou tanto a respeito dele próprio quanto dela, lembrando os norte-americanos dos bons tempos de seu governo, mas também dos problemas enfrentados pelo país então. Na Carolina do Sul, Bill Clinton deixou indignados os eleitores negros ao dizer que a força de Obama ali equivalia a de outro candidato afro-americano, Jesse Jackson, que venceu no Estado em 1984 e 1988, mas que perdeu a vaga do Partido Democrata.   Segundo um outro estrategista democrata que não quis ter sua identidade revelada: "Acho que, basicamente, ela perdeu sua chance. Acho que o momento dela passou. No dia em que Barack Obama ingressou na corrida, selou-se, de alguma forma, o destino de Edwards (John Edwards, ex-pré-candidato democrata) e de Clinton."

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