Hillary Clinton, uma grande atriz

Senadora democrata não perdeu a disputa à presidência dos EUA por ser mulher

Maureen Dowd, The New York Times

07 de junho de 2008 | 18h47

A ajuda de Hillary Cliton à campanha de Barack Obama dependerá de seu desempenho de atriz. E eu acho que ela é mesmo uma ótima atriz. Não porque, quando era primeira-dama, ela atuava em papéis tão diferentes quanto alguém interessado na China e alguém interessado em porcelana chinesa. Não apenas, quando era candidata à presidência, ela deixou de ser uma Rainha Elizabeth I para se tornar uma Norma Rae, como a Newsweek escreveu. Leia também:Hillary Clinton agradece aos eleitores e pede apoio para Obama Mas porque, através da dor e da humilhação, ela conseguiu provar-se uma hábil sobrevivente. E ela diz abraçar o velho ditado "finja até conseguir". Após a tumultuada administração de Bill Clinton, uma triste e inquieta Hillary procurava respostas com gurus da auto-ajuda como Jean Houston.  "Houston sentiu em algum ponto como se o papel de Hillary fosse como o de Mozart com as mãos cortadas, sem conseguir tocar", escreveu Bob Woodward. "Ela sentiu como se a primeira-dama estivesse passando por uma crucifixação feminina." Em passagens críticas de sua vida, Hillary cometeu o mesmo erro. Ela vem com força, mostrando um lado arrogante e tenso, é repelida de volta e depois se reinventa de uma forma mais atrativa. Aconteceu quando ela era a primeira-dama do Arkansas; quando ela fez campanha com Bill em 92; quando ela começou a agir como "duas primeiras-damas pelo preço de uma"; quando ela se dedicou aos planos de saúde e quando ela começou sua campanha presidencial vestindo um repugnante robe de pele de arrogância e presunção. E aconteceu quando ela perdeu a chance de ser indicada, recusou-se a admitir e, em vez de parabenizar Obama, mirou sua base feminina de fãs como um bastão sobre ele para que ela mais uma vez pudesse concorrer à presidência. Agora, enquanto ela se transforma em uma companheira de time, ela mais uma vez deve fingir até conseguir. Ela ainda não acredita que Obama possa ganhar, mas ela sabe que pode seguir em frente apenas encantando, em vez de atrapalhando. Enquanto isso, ela quer outro acordo de partilha de poder. Ela ajudará coroar Obama como o rei se ele a deixar ser a rainha das mulheres. Como Jodi Cantor do New York Times escreveu no sábado, os eleitores, "de luto", de Hillary, "disseram que ela continuará sendo sua líder, que ela criou um duradouro eleitorado composto por mulheres, um movimento eleitoral feminino sem precedentes". Então você pensa: a saída histórica de Hillary será boa ou má para as mulheres? O Wall Street Journal contou em março que algumas mulheres se preocupavam com o fato que "a resistência à senadora Clinton poderia fazer com que os homens se sentissem mais fortes em relação à resistência aos esforços das mulheres em dividir o poder com eles nos negócios, na política e outros lugares". É um temor compreensível. Todo ruidoso triunfo do feminismo que eu cobri - a seleção de Geraldine Ferraro, as audições de Anita Hill, a co-presidência de Hillary - terminaram disparando terríveis retaliações. No final, o feminismo implodiu enquanto força. Hillary trouxe de volta a velha religião feminista, pelo menos por enquanto. Ela não deveria ter colocado as mulheres contra os homens. Ela o fez em detrimento de sua própria campanha, onde Pattis Solis Doyle, a principal gerente de sua candidatura e auto-proclamada "abelha-rainha" da Hillarylândia, brigava com os "garotos brancos" de Bill, como eles eram conhecidos, e quase sempre deixava Bill sentido-se desrespeitado. E Hillary fez o mesmo com Obama em detrimento de sua própria base de fãs mulheres, causando tanta raiva que ainda há algumas mulheres jurando votar em John McCain, mesmo que isso signifique votar contra seus próprios interesses. Ela não deveria ter repetido o erro depois que seu projeto para a saúde faliu. Em vez de simplesmente admitir seus próprios erros em juízo, ela fez papel de vítima e culpou o sexismo. É claro, mulheres poderosas evocam sexismo e os ataques soam mais pessoais enquanto os insultos mais destrutivos. Mas é contraproducente tentar brigar contra isso, ampliar e explorar durante uma campanha - especialmente quando você busca pelo amor do eleitor médio, que fica em casa bebendo cerveja. Eu não acredito que a campanha de Hillary irá causar reações negativas. Desde que seu Exército da Libertação de Denver não provoque a derrota de Obama, ela pode muito bem ser boa para as mulheres. Quando entrevistei várias mulheres depois que Ronald Reagan ganhou o voto feminino em 1984, fiquei impressionada com o que ouvi. Muitas mulheres da classe operária disseram que elas não haviam votado em Ferraro porque elas mesmas não se sentiam capazes de governar o país - então como ela poderia? Talvez as mulheres viram erros masculinos o suficiente nos últimos oito anos para lhes dar mais confiança. Ou talvez a persistência de Hillary permitiu que elas se visualizassem facilmente algemando generais e ditadores. Enquanto estudos continuam a dizer que ser mais alto e ter uma voz mais profunda pode fazer de você um líder com mais crédito, Hillary foi colcoada a prova de forma emocionante e mostrou-se a melhor debatedora e mais dura entre os candidatos mesmo sendo mais baixa e tendo voz fina. Ela não perdeu por ser mulher. Ela não perdeu porque os Estados Unidos não estão prontos para ter uma mulher na presidência. Ela perdeu devido aos seus próprios - - e os de seu marido e os de Mark Penn - tropeços fatais.

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