Hillary dissipa dúvidas sobre coesão democrata, diz analista

Clima na convenção do partido mudou depois do discurso de união da senadora, afirma professor americano

Gabriel Bueno, da Agência Estado,

28 de agosto de 2008 | 16h01

O clima na convenção do Partido Democrata mudou nas últimas 36 horas. A partir do discurso da senadora Hillary Clinton, a sigla dissipou de vez as dúvidas sobre a unidade partidária na corrida pela Casa Branca. A análise é do professor de ciência política da Universidade de Maryland Tom Schaller, que falou nesta quinta-feira, 28, em videoconferência a jornalistas brasileiros. Veja também:Hillary pede união do partido por ObamaBill Clinton promete lutar para eleger ObamaGaleria de fotos da Convenção Obama x McCainEntenda o processo eleitoral  Cobertura completa das eleições nos EUA  Outro trunfo do encontro político, na avaliação do analista, foi a participação do ex-presidente Bill Clinton, o "melhor orador do partido, até que Obama prove o contrário". Falando de Denver, palco da convenção democrata, Schaller avalia que a suposta desunião partidária era também um tema um pouco inflado pela mídia. Obama precisará sem dúvida do apoio dos partidários de Hillary, em sua tentativa de se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Uma pesquisa Gallup divulgada na quarta-feira mostra que 28% dos eleitores da ex-primeira-dama preferem o republicano John McCain a Barack Obama. Reverter isso é crucial para as aspirações do senador por Illinois. A participação na quarta-feira do companheiro de chapa de Obama, o senador Joe Biden, foi avaliada como razoável pelo especialista. O candidato à vice-presidência não se mostrou tão seguro, teve alguns problemas com o teleprompter e tropeçou em frases importantes do discurso. Apesar disso, Schaller sustenta que Biden será um trunfo da campanha, por sua popularidade na classe trabalhadora branca - setor em que Obama tem menos influência - e por sua experiência em política externa. Nesta quinta-feira, Obama aceitará a indicação democrata. Para o analista, a expectativa é por um discurso "poderoso", já que o senador demonstrou ser um ótimo orador. Após a convenção, Schaller acredita que os democratas aprofundarão as críticas aos republicanos, centrando fogo em temas como a economia do país, em meio a temores de uma crise séria. "A convenção (democrata) não foi suficientemente crítica aos republicanos." Do lado adversário, Schaller afirma que McCain tentará enfocar temas de política externa. Para exemplificar cita a recente crise na Geórgia que, segundo o analista, foi tratada até com certa insistência pelo republicano. Ironia Para o professor, a atual eleição traz uma ironia para o jogo político norte-americano. O evento é, pela primeira vez, um referendo não sobre o candidato da situação, mas sobre o oposicionista, no final do segundo mandato do republicano George W. Bush. A decisão dos norte-americanos estaria não tanto em escolher entre os dois adversários, mas sim em aceitar ou não Obama na presidência.  Para ilustrar seu argumento, aponta que, nas pesquisas, Obama oscila - nas últimas semanas para baixo -, mas McCain permanece praticamente estável. O cientista político avalia que os republicanos podem enfatizar a partir de agora na campanha o passado militar de McCain, veterano da guerra do Vietnã. Schaller nota uma presença maior dos democratas no trabalho de convencimento dos eleitores. Porém para ele esse trabalho de campo pode ser insuficiente. "Eles têm que ganhar alguns debates, não apenas confiar no pessoal em campo." Segundo o analista, um ponto decisivo para essa eleição será o comportamento de Obama em situações mais intimistas, com poucos candidatos. O senador por Illinois, que já mostrou talento para cativar grandes públicos, tem que agora se sair bem também nas conversas mais próximas com os eleitores - quesito em que Hillary se destacou nas primárias. Além disso, o democrata precisa ser mais específico em suas falas, para evitar as críticas de que seria vago, com propostas genéricas como "mudança." A videoconferência com o especialista foi organizada pelo Consulado dos Estados Unidos, com participantes em São Paulo, Recife, Rio de Janeiro e Brasília.

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