Ted Shaffrey/AP
Ted Shaffrey/AP

Mais de 700 corpos de vítimas da covid-19 estão em caminhões refrigerados há mais de um ano em NY

Restos mortais de cerca de 750 pessoas ainda estão sendo armazenados dentro dos necrotérios improvisados após perda de contato entre autoridades e famílias

Brittany Shammas, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 16h00

Enquanto Nova York emergia como o epicentro da pandemia de coronavírus no ano passado, a cidade começava a armazenar os corpos das vítimas em caminhões refrigerados ao longo da orla do Brooklyn. Mais de um ano depois, centenas permanecem nos necrotérios improvisados na 39th Street em Sunset Park.

Em um relatório enviado a um comitê de saúde do conselho municipal na semana passada, funcionários do Gabinete do Médico Legista-Chefe de Nova York (OCME, na sigla em inglês) reconheceram que os restos mortais de cerca de 750 vítimas da covid-19 ainda estão sendo armazenados dentro dos caminhões. Oficiais disseram durante uma reunião do comitê na quarta-feira que tentarão diminuir o número em breve.

Dina Maniotis, comissária executiva do OCME, disse que a maioria dos corpos pode ir para a Hart Island, perto do Bronx, onde a cidade enterrou por mais de um século pessoas pobres que não foram reconhecidas. “Continuaremos a trabalhar com as famílias”, disse Maniotis ao comitê de saúde. “Assim que a família nos disser que gostaria que seu ente querido fosse transferido para a Ilha Hart, faremos isso muito rapidamente."

Com mais de um milhão de pessoas enterradas lá, a massa de terra com quilômetros de extensão no estreito de Long Island é o lar da maior "vala comum" dos Estados Unidos. 

Até um décimo das vítimas de coronavírus da cidade podem ser enterradas na ilha, de acordo com uma análise realizada por meio de uma colaboração entre a cidade e a faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia. A análise revelou que pelo menos 2.334 adultos foram enterrados na ilha em 2020 - mais do que o dobro do número em 2019.

Em março e abril do ano passado, a cidade de Nova York estava entre as áreas mais atingidas no mundo. O OCME, equipado para lidar com 20 mortes diárias, recebeu até 200 por dia, de acordo com o Wall Street Journal. 

“O armazenamento de longo prazo foi criado no auge da pandemia para garantir que as famílias pudessem colocar seus entes queridos para descansar como desejassem”, disse Mark Desire, porta-voz do OCME à Associated Press na semana passada. "Com sensibilidade e compaixão, continuamos a trabalhar com famílias individualmente, caso a caso, durante o período de luto.”

Entre 500 e 800 corpos foram armazenados nos caminhões desde abril de 2020, segundo estimativas coletadas pela prefeitura e pela Universidade de Columbia.

A maioria das famílias das vítimas que permanecem nos caminhões disseram que querem a opção de sepultamento em Ilha Hart, disse Maniotis à comissão de saúde. Em alguns casos, disse ela, a cidade perdeu o contato com as famílias.

Os caminhões refrigerados, entre eles 85 enviados à cidade pela Agência Federal de Gerenciamento de Emergências, ficaram estacionados em frente aos hospitais durante os piores dias da pandemia para a cidade, tornando-se um dos sinais mais visíveis de sua mortalidade.

As notícias sobre os corpos chegam no momento em que a cidade de Nova York se prepara para remover a maioria de suas restrições remanescentes ao coronavírus. Um movimento em direção a um tipo de normalidade não visto desde o início de 2020.

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