Em marcha, jovens pedem revolução pelo voto contra armas nos EUA

Em marcha, jovens pedem revolução pelo voto contra armas nos EUA

Atos organizados por estudantes após massacre em escola da Flórida reúnem milhares em centenas de cidades americanas na maior mobilização contra a violência armada do país

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 13h59
Atualizado 24 Março 2018 | 21h13

WASHINGTON - Na maior manifestação contra a violência armada dos EUA, estudantes conclamaram centenas de milhares de pessoas em Washington e outras cidades americanas neste sábado, 24, a fazer uma revolução pelo voto e tirar do poder quem se opõe a leis mais rigorosas para o comércio e porte de armas. “Lute por nós ou tenha cuidado. Os eleitores estão vindo”, disse Cameron Kasky, sobrevivente do ataque na escola da Flórida que idealizou o ato.

“Bem-vindos à revolução”, declarou o estudante de 17 anos diante da multidão reunida na Avenida Pensilvânia, que liga o Congresso à Casa Branca. David Hogg, da mesma idade, afirmou que os jovens transformarão o controle de armas no principal tópico nas urnas. A palavra de ordem mais repetida foi “tirem eles pelo voto!”. 

A Marcha por Nossas Vidas foi além dos estudantes e atraiu adultos, sobreviventes de outros massacres, negros que protestam contra a violência policial, professores e veteranos das grandes manifestações dos anos 1960. Caçador e dono de um rifle, Connor Roberts, de 23 anos, defendeu a proibição de fuzis semiautomáticos e cartuchos de munição com mais de dez balas, duas das principais propostas dos estudantes.

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No discurso mais comovente deste sábado, Emma González, de 18 anos, recitou os nomes dos 17 alunos e professores mortos no ataque do dia 14 de fevereiro em sua escola de Parkland, na Flórida. Então ficou em silêncio, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela ficou no palco por seis minutos e 20 segundos, o mesmo tempo em que Nikolas Cruz disparou com um AR-15 contra seus colegas. 

Em um eco do movimento pelos direitos civis, a neta de 9 anos de Martin Luther King Jr., Yolanda Renee King, lembrou que o avô tinha o sonho de que as pessoas não seriam julgadas pela cor de sua pele, e sim por seu caráter. Em seguida, ela fez a multidão repetir as palavras: “Espalhem a notícia! Vocês ouviram? Ao redor da nação, vamos ser uma grande geração!”

O presidente Donald Trump viajou na véspera da marcha para seu resort em Mar-a-Lago, na Flórida, e não fez nenhum comentário público sobre o protesto até esta noite. Seu antecessor, Barack Obama, apoiou a marcha pelo Twitter. “Vocês estão nos levando adiante. Nada pode ficar no caminho de milhões de vozes que pedem mudança.”

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Sophie Lawson, de 16 anos, foi à marcha com a mãe, Kim, e o avô, Tim Semple, de 70 anos, que participou dos protestos contra a Guerra do Vietnã. “Estamos de volta, baby”, afirmou ele. Sophie mora em Maryland e tem amigos que estudam na escola secundária Great Mills, alvo de um ataque a tiros na terça-feira que levou à morte de uma aluna da sua idade. 

Além de Washington, atos ocorreram em centenas de cidades dos EUA e de outros países, entre as quais Nova York, Los Angeles, Chicago, Boston, Paris e Genebra. A polícia não tem estimativas oficiais de público na capital americana, mas organizadores esperavam 500 mil participantes, número semelhante ao registrado na Marcha das Mulheres em 2017. Jenna Orebaugh, de 16 anos, lembrou o temor que sente a cada dois meses, quando sua escola realiza simulações de ataques. “Nunca sei se é real ou só um exercício.”

“Vou me filiar a qualquer partido político que essas crianças da Flórida acabaram de criar”, dizia o cartaz carregado por Maura Hennessey, de 49 anos, que dirigiu seis horas de Connecticut a Washington para a manifestação. Sua cunhada, Chrissy Hennessey, de 46 anos, saiu das Bahamas. “Tenho dois filhos de 8 e 10 anos que vão estudar nos EUA. Não quero ter medo cada dia que eles saírem de casa para ir à escola.”

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