(Photo by SAUL LOEB / AFP)
(Photo by SAUL LOEB / AFP)

Funeral de McCain aproxima rivais e tem críticas veladas a Trump

Adversários e aliados enaltecem capacidade unificadora e espírito bipartidário de senador, e contrapõem seu ideário às políticas do presidente americano, que não foi convidado para a cerimônia

O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2018 | 11h34

WASHINGTON - Adversários e aliados políticos de John McCain se reuniram neste sábado, 1, para homenagear o senador republicano em seu funeral com honras de Estado, em Washington, capital dos Estados Unidos. George W. Bush e Barack Obama, os dois presidentes que antecederam Donald Trump na Casa Branca, louvaram o poder unificador e o espírito bipartidário de McCain em discurso na Catedral Nacional, palco das homenagens finais a McCain. Ele pediu que Trump não participasse de seu funeral.

O ex-presidente republicano George W. Bush não mencionou Trump, mas seu tributo fez menção ao contraste entre o ideário de McCain e as políticas do atual governo. “McCain respeitava a dignidade de cada ser humano, uma dignidade que não para nas fronteiras e não pode ser apagada pelos ditadores”, disse Bush. “Ele era honrado, e sempre reconheceu que seus adversários, independente de partidos, eram patriotas e seres humanos”.

O democrata Barack Obama também homenageou McCain, seu adversário nas eleições presidenciais de 2008, contrapondo seu legado às políticas de Trump. “Muito da nossa política hoje é pequena e mesquinha. Baseada em insultos e ofensas, falsas controvérsias e ultraje fabricado. É uma política que finge ser corajosa e valente, mas é nascida do medo”, disse Obama. “John nos chamou para sermos maiores do que isso, para sermos melhores que isso. Hoje é apenas um dia entre todos os dias que serão, mas o que acontecerá em todos os outros dias dependerá do que você faz hoje. Que melhor maneira de homenagear John McCain do que seguir seu exemplo?”

O ex-senador democrata, Joe Lieberman, também elogiou a capacidade de McCain de trabalhar em conjunto com seus adversários. “A primeira coisa que ele me disse quando conversamos pela primeira vez foi: ‘você é um democrata, eu sou um republicano, juntos podemos dar ao nosso país a liderança bipartidária que ele precisa”, disse Lieberman. “McCain era assim, pensava na política acima de interesses pessoais”.

Além de Bush e Obama, prestaram reverência a McCain o ex-presidente Bill Clinton, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, e o senador republicano Lindsey Graham. 

Meghan McCain, filha de John, fez um discurso emotivo e criticou Trump. “Meu pai foi um grande homem. Uma grandeza real, não uma retórica barata de homens que nunca vão se aproximar do sacrifício dele”, disse Meghan. “A América de John McCain não precisa se tornar grande novamente, porque a América de John McCain sempre foi grande”, disse, em referência ao slogan da campanha de Trump. 

Além da mulher e dos filhos de McCain, a mãe do senador, Roberta McCain, de 106 anos, também compareceu ao funeral. Em uma cadeira de rodas, Roberta estava visivelmente abatida. 

A cerimônica fúnebre com honra de Estado ocorreu neste sábado, 1, depois de uma semana de honrarias a McCain, primeiro no Arizona, onde morava e por onde sempre se elegeu, e depois em Washington, onde trabalhou por 40 anos. O enterro de McCain acontece neste domingo, 2, na Academia Naval de Annapolis. A cerimônia será apenas para amigos e parentes.

O Anti-Trump

Filho e neto de almirantes de quatro estrelas da Marinha americana, McCain lutou na Guerra do Vietnã. Em 1967, o avião em que ele estava foi abatido em uma missão de bombardeio sobre Hanói. Foi prisioneiro de guerra por cinco anos e meio. Libertado em 1973, recebeu a Estrela de Prata, a terceira medalha de honra mais importante das Forças Armadas americanas. 

Se lançou na política na década seguinte, após anos de tratamento apra se recuperar dísica e psicologicamente da tortura sofrida em cativeiro. Foi eleito para a Câmara dos Deputados em 1982 e para o Senado em 1986. O senador tentou a candidatura para a presidência da república por duas vezes e foi escolhido como o candidato republicano em 2008. Após perder para Barack Obama nas eleições, McCain retornou ao Senado.

Ao longo dos anos, McCain se tornou um símbolo do pensamento independente, não fazendo questão de se alinhar aos Republicanos em questões que considerava vitais para a política americana, e trabalhando em conjunto com políticos democratas e republicanos mais moderados.

Nos seus últimos meses, McCain criticou duramente a política de Trump, repreendeu o presidente por alienar aliados dos EUA em uma cúpula internacional, rotulou a política de imigração de tolerância zero do governo como “uma afronta à decência do povo americano” e denunciou a cúpula de Trump e Vladimir Putin em Helsinque como um “erro trágico”, em que o presidente colocou “uma das mais vergonhosas performances de um presidente americano na memória”.

Um dos episódios mais tensos entre ambos aconteceu com a tentativa de derrubar a reforma da saúde impulsionada por Obama, quando McCain votou contra os esforços republicanos, promovidos por Trump, para acabar com ela sem apresentar nenhum projeto para substituí-la/W.POST e NYT

 

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