McCain pressiona Obama em debate decisivo nos EUA

Na última chance de reverter desvantagem nas pesquisas, republicano reforça distanciamento do presidente

Agências internacionais,

15 de outubro de 2008 | 23h50

  NOVA YORK - O senador John McCain tentou repetidamente colocar o rival Barack Obama na defensiva nesta quarta-feira, 15, no debate final da corrida presidencial, acusando-o de tentar aumentar os impostos, associando o rival a um ex-terrorista e criticando a campanha negativa promovida pelos democratas. Em queda nas pesquisas, McCain ainda atacou o governo Bush e tentou se distanciar da atual administração.  Ele reagiu irritado às tentativas de Obama em ligá-lo ao governo atual. "Senador Obama, eu não sou o presidente George W. Bush. Se você queria concorrer com o presidente Bush, deveria ter feito isso há quatro anos", afirmou McCain.   Veja também: Veja as imagens do debate presidencial  Confira os números das pesquisas nos Estados  Veja a cobertura online no blog Obama x McCain  Entenda o processo eleitoral   Cobertura completa das eleições nos EUA   O debate, mediado pelo jornalista Bob Shieffer, da CBS, na Universidade Hofstra, em Long Island (Nova York), começou com os dois candidatos apresentando seus planos econômicos para a classe média americana, atingida pela crise econômica. McCain defendeu seu plano de US$ 300 bilhões, que se eleito pretende usar para comprar hipotecas vencidas e evitar que milhões de americanos percam suas casas. Obama concordou que os mutuários falidos precisam de ajuda mas discordou do plano de McCain, ao dizer que o projeto na realidade dará dinheiro aos bancos.   "Nós não queremos desperdiçar o dinheiro que você pagou em impostos", disse Obama aos telespectadores. Ele disse que o pacote de US$ 700 bilhões, aprovado pelo Congresso dos EUA há dez dias, foi um "primeiro passo importante" para combater a crise e notou que ambos os candidatos apoiaram o plano, que não foi recebido com entusiasmo pelo eleitorado.   O republicano aproveitou para criticar a administração do impopular presidente George W. Bush, e criticou o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, por ter socorrido Wall Street e não a classe média. "Estou decepcionado que o secretário Paulson não tenha feito do socorro às hipotecas uma das suas prioridades", disse McCain, no final da primeira resposta, quando explicou seu plano econômico. "Estou convencido que enquanto não contermos essa crise no mercado imobiliário, a situação não irá melhorar", disse o republicano. "É preciso que as pessoas fiquem com suas casas", afirmou.   Obama defendeu seu projeto de pacote para a classe média. Ele também destacou que dará incentivos para as empresas que contratarem funcionários nos Estados Unidos, ao invés de subsidiárias no exterior. McCain acusou Obama de querer aumentar impostos para as pequenas empresas e "prejudicar" o sonho americano. Obama também disse que, se eleito, cortará impostos para famílias que ganham menos de US$ 250 mil por ano.   O democrata acusou ainda McCain de querer cortar mais US$ 2 bilhões em impostos para as corporações, inclusive petrolíferas. "Já eu cortarei impostos para 95% dos americanos", disse o democrata. Mais tarde, McCain acusou Obama de ser contrário a acordos de livre-comércio. Os candidatos respondiam a uma pergunta sobre em quanto cada um reduziria a dependência ao petróleo estrangeiro. McCain disse que será possível eliminar a dependência entre sete e oito anos, a partir do momento que os EUA ampliarem a exploração em alto mar de petróleo no litoral americano e as importações de petróleo do Canadá. Com isso, reduziriam as importações da Venezuela e Oriente Médio.   Biocombustíveis   Obama propôs investir em biocombustível e energias renováveis, ao mesmo tempo fazer uma exploração em alto mar mais controlada. Segundo ele, se os EUA fizerem isso eliminarão a dependência em 10 anos. "O senador Obama quer revisar o Nafta. Ele disse isso aos canadenses, que falaram: 'bom, vamos vender nosso petróleo à China'". Obama reagiu: "Eu gosto do livre-comércio. Mas nem todo tratado comercial é bom". O candidato democrata criticou o recente tratado comercial dos EUA com a Coréia do Sul.     McCain disse na quarta-feira que se eleito eliminará a tarifa de importação do etanol feito a partir da cana-de-açúcar e que cortará uma série de subsídios ao etanol norte-americano, feito a partir do milho. "Eu eliminaria a tarifa de importação de etanol feito de cana-de-açúcar do Brasil", disse McCain no debate contra o rival Barack Obama.  McCain afirmou ainda que, diferentemente de Obama, ele se opõe aos subsídios ao etanol produzido no país porque eles provocam distorções no mercado e podem levar à inflação. O presidente George W. Bush também se opõe à tarifa de 54 centavos por galão de etanol importado que o Congresso estendeu até 2010. A tarifa limitou as importações norte-americanas do etanol originário de países com amplos programas de biocombustíveis, como o Brasil, que produz 27,5 bilhões de litros anuais de etanol.    Campanha pesada   Os candidatos se acusaram mutuamente de promover campanhas negativas contra o rival. McCain lamentou os "aspectos negativos" da corrida eleitoral, alguns dos quais classificou como inaceitáveis. Especificamente, o republicano se referiu aos ataques contra sua companheira de chapa e governadora do Alasca, Sarah Palin. McCain disse que, durante a campanha, sempre tratou de temas relevantes para a população americana, como a economia e a criação de empregos. Além disso, destacou que sempre criticou aqueles que passaram dos limites, seja dentro do seu partido ou não.   Contudo, o republicano voltou a insistir na relação de Obama com William Ayers, que já esteve ligado a organizações terroristas e que, segundo Palin sugeriu há cerca de uma semana, foi uma pessoa próxima ao candidato democrata. Obama rejeitou todas as acusações e contra-atacou, afirmando que "quase todos estão convencidos de que é o senador McCain quem trava uma campanha muito negativa".   "Não só foi a campanha de McCain que foi negativa, mas também as organizações que a apóiam", acrescentou o senador por Illinois, que insistiu: "100% de suas propagandas foram negativas, John". "Isso não é verdade", respondeu o republicano. "Sim, é verdade", replicou Obama, num dos momentos mais duros do debate, realizado em uma universidade do estado de Nova York.   "Quando insinuam que eu ando com terroristas, as pessoas fogem do assunto", diz Obama, referindo-se aos exaltados apoiadores do republicano, que freqüentemente gritam ofensas contra o democrata nos comícios de McCain. "Sempre dissemos que esse comportamento é inadequado", responde rapidamente o candidato republicano. "As pessoas que participam do meus comícios são pessoas dedicadas, patriotas, cidadãos fantásticos", defende. "Repudio quando alguém diz algo que não está na linha da minha campanha, e muitas coisas em seus comícios também são ofensivas contra mim, Obama", completa McCain.   Candidatos a vice   Os candidatos a vice-presidente, o democrata Joe Biden e a republicana Sarah Palin, também foram motivo de divergências. Enquanto o senador por Illinois elogiou a candidata a vice na chapa de McCain, qualificando-a de uma "política capaz", o adversário republicano criticou Biden, afirmando que o braço direito de Obama tinha cometido "erros na política de segurança nacional".   O candidato democrata defendeu Biden, dizendo que era uma pessoa "que nunca esqueceu de onde veio". Segundo Obama, ambos compartilham a mesma idéia sobre os valores e a direção na qual os Estados Unidos devem seguir em questões como o aumento de impostos às grandes corporações, a independência energética do país e educação. "Após oito anos de políticas fracassadas, os dois coincidimos em que temos que voltar a investir na classe trabalhadora", disse o candidato democrata.   Na vez do republicano, McCain afirmou que Palin deveria ser "um modelo para as mulheres", e citou realizações da governadora do Alasca em questões como independência energética e combate à corrupção. "Ela entende como ninguém de necessidades especiais (em referência ao filho caçula de Pali, Trig, de cinco meses, que sofre de síndrome de Down)", disse McCain, para complementar: "Tenho muito orgulho dela e de sua família".   Obama afirmou que é realmente importante o que Palin tem feito pelas famílias com necessidades especiais, mas que é preciso investimentos em pesquisas para ajudá-las e que, com a política de congelamento de gastos de McCain, isso seria inviabilizado. Questionado sobre se Palin está qualificada para ser presidente, Obama reconheceu que ela empolgou a base republicana, mas que essa é uma decisão para o povo americano.   Pedido por mudanças   Em seus comentários finais, o democrata Barack Obama e o republicano John McCain ressaltaram a necessidade de mudanças urgentes nos EUA. Ambos admitiram que o país passa por um período muito difícil e que a insatisfação é generalizada. "São tempos de desafios muito difíceis para a América. Não estamos satisfeitos com os últimos oito anos. Eu tenho um histórico de lutas e reformas e passei minha vida inteira ao serviço deste país", disse McCain, que falou primeiro.   Obama começou os comentários finais pela mesma linha, dizendo que os tempos são difíceis, mas apelou diretamente aos eleitores a que votem nele. "A América vive tempos duros agora. É a pior crise desde a Grande Depressão. Precisamos de mudanças fundamentais neste país e é isso que eu trarei. Cortes de impostos para a classe média e universidade para os jovens. Não será fácil, mas é o que faremos Eu peço seu voto. Quero a honra de ser presidente dos EUA. Trabalharei incansavelmente todos os dias", disse Obama.   (Com Talita Eredia e Gabriel Pinheiro, do estadao.com.br, André Lachini, da Agência Estado)

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