Mundo se interessa pela eleição nos EUA, e espera mudança

Nunca antes uma disputa americana foi seguida tão de perto por estrangeiros; culpa é da imagem de Bush

The New York Times,

26 de janeiro de 2008 | 14h18

A julgar pela cobertura da imprensa internacional, parece até que os estrangeiros têm direito a voto na escolha dos candidatos à eleição presidencial americana - ou, pelo menos, mereciam ter, tão grande é a influência dos EUA sobre suas vidas. De Berlim a Londres e Jacarta, os destinos dos contendores democratas e republicanos em Iowa ou New Hampshire, Nevada ou Carolina do Sul, se tornou notícia de uma maneira que a maioria dos comentaristas políticos jamais viu ou se lembra. É como se os estrangeiros estivessem pressionando por mudanças nos EUA tanto quanto alguns dos candidatos prometem fazer. As personalidades da disputa democrata em particular - a potencial novidade do primeiro presidente negro ou mulher - têm fascinado os estrangeiros tanto quanto, se não mais, as propostas dos candidatos para o Iraque, sobre imigração ou a respeito das finanças globais. E há um senso palpável de que, enquanto o sistema democrático parece confuso e amorfo para eleitores em muitos lugares do mundo ocidental, os EUA oferecem um modelo potencial de revigoramento. "É, de vários modos, excitante ver a grande democracia funcionando no seu nível mais básico, disse Lorde McNally, líder dos liberal-democratas na Câmara dos Lordes britânica. "Mesmo com todo o dinheiro, a publicidade, o poder da TV, a pessoa que quiser se transformar no homem ou mulher mais poderoso do mundo ainda tem de ir às cidades pequenas e falar com pessoas nas ruas." Talvez tenha sido o primeiro resultado negativo em Iowa, com o triunfo de Barak Obama, que eletrizou o interesse, seguido de perto pela vitória de Hillary Clinton em New Hampshire. Em Berlim, os colunistas dos jornais começaram a chamar Obama de "o novo John F. Kennedy" - um elogio nada pequeno numa cidade que reserva um espaço especial para o líder americano que, no pico da Guerra Fria, disse a uma população dividida que ele mesmo era um berlinense também. "O negro americano se tornou um novo Kennedy", proclamou o tablóide Bild. A exuberância é tanta que Karsten D. Voigt, coordenador do escritório de cooperação germano-americana do Ministério das Relações Exteriores alemão, pediu que seus compatriotas diminuíssem a ansiedade. "Nenhum presidente americano consegue alcançar tamanha expectativa em termos de política externa", declarou. Em Paris, o fascínio pelo duelo Clinton-Obama parece eclipsar a disputa republicana. "Os candidatos republicanos são muito menos conhecidos na França", disse Alain Frachon, editor-chefe do jornal "Le Monde". "Pode ser auto-engano, mas os franceses acham que a era republicana acabou." Não apenas os franceses. A maior parte da exposição das primárias eleitorais americanas, acessíveis como nunca pelos canais de notícias 24 horas, parece inspirada pela esperança de que o processo eleitoral americano encerrará uma era de política externa dominada pelos neoconservadores. "Há um senso desesperado que de é preciso fazer algo melhor do que Bush fez", afirmou Dean Godson, chefe do grupo de pesquisa conservador Policy Exchange, de Londres. Ou, como Thomas Valasek, um porta-voz do Centro pela Reforma Européia, também de Londres, disse: "O mundo tem uma grande expectativa no desenrolar das eleições. Nunca um presidente americano teve uma reputação tão terrível, uma imagem tão terrível". Talvez seja cedo demais para adivinhar quais mudanças específicas os europeus e outros não-americanos esperam da nova administração dos EUA. Muitos parceiros comerciais dos EUA na Ásia se preocupam com o que eles entendem ser a inclinação democrata na direção do protecionismo econômico e da redução da emissão de gases. Mas há preocupações mais amplas. Como Ramesh Thakur, professor de ciência política da Índia, escreveu: "Nós estrangeiros nada podemos fazer a não ser rezar para que o novo presidente, seja ele quer for, reponha os valores americanos, sua força e sua tradição de exportador de esperança e otimismo. E assim ajudar a recuperar os EUA perante o mundo, e não fazer com que desça mais". No Japão, também, há esperança de renovação americana. "A idéia segundo a qual só um homem branco pode ser tornar presidente já foi rompida", comentou o jornal Mainichi Shimbun no último dia 15. "Estamos testemunhando a história, o processo em que as raízes americanas se tornam sua força." Os isralenses, por sua vez, parecem olhar para as eleições por meio de um prisma mais estreito, relativo à sua própria segurança, e muitos parecem ter concluído que Hillary Clinton seria o melhor presidente americano para Israel, um cálculo estimulado pela familiaridade com o marido dela. Em contraste, disse Oz Katz, 29, um estudante israelense de política pública, Obama "não nos conhece de fato". Perto dos EUA, no México por exemplo, a atenção é mais focada nas atitudes dos candidatos a respeito dos controles de imigração. "Há uma nação inteira de mexicanos vivendo nos EUA, disse Fausto Zapata, ex-diplomata na Cidade do México. "E as conexões com parentes, amigos e parceiros no México são imensas, quase gigantescas. Cada movimento na economia americana afeta o México, de modo positivo ou negativo." Alguns estrangeiros sustentam que, para um mundo que busca um sinal de mudança de direção em Washington, "a vitória emblemática de Obama mudaria imediatamente a imagem dos EUA no mundo, particularmente nos países em desenvolvimento", argumentou Jorge Castaneda, o escritos e ex-chanceler do México. "Podemos ganhar?", perguntou um taxista afro-cubano a um turista americano em Havana. "Quero dizer, ele pode ganhar?", questionou, imaginando se um homem negro poderia ser eleito na terra em que os cubanos pensam ser tomada pelo racismo.

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