'Não vejo sinais de queda da polarização após derrota de Trump', diz cientista político

'Não vejo sinais de queda da polarização após derrota de Trump', diz cientista político

Para Christopher Garman, o fator mais importante para a derrota do presidente foi a má gestão da crise causada pela covid-19

Entrevista com

Christopher Garman, cientista político

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 17h19

A vitória de Joe Biden sobre Donald Trump não significa que a divisão da sociedade vai americana vai acabar e nem que o populismo vai perder terreno nos EUA. É esta a avaliação do cientista político Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia para as Américas. Ele diz que o fator mais importante para a derrota do presidente foi a má gestão da crise causada pela covid-19. 

Garman sugere observar as causas do desencanto dos americanos com as instituições e a desigualdade de renda para compreender a força de Trump, que teve 70,6 milhões de votos - Biden teve 74,8 milhões. "Eu não vejo isso diminuindo, vejo isso aumentando. Na eleição dos EUA, não vejo sinais da queda da polarização".  

O senhor acredita que a vitória de Joe Biden pode significar um ponto de referência em um mundo político polarizado?

Não vejo a vitória de Joe Biden como um sinal de mudança contra um mundo polarizado. Se olharmos o que leva à polarização política atual, nos EUA, em partes da Europa, na América Latina, ela deriva de um desencanto profundo de parte da população para com instituições do chamado establishment como o Judiciário, os partidos políticos, a imprensa. As raízes desse desencanto podem ser um pouco diferentes nas regiões. 

Nos EUA e na Europa, está ligado ao aumento da desigualdade de renda, a nova e a velha economia, centros cosmopolitas e centros manufatureiros no interior dessas regiões. Na América Latina, é fruto de uma classe média frustrada por serviços públicos, revoltados com a corrupção. E eu não vejo isso diminuindo, vejo isso aumentando. Na eleição dos EUA, não vejo sinais da queda da polarização.  

Qual sua a avaliação do cenário que fez Donald Trump ser eleito?

Enxergo um presidente que manejou muito mal a crise de covid-19. Ele perdeu por causa da covid, mas foi por um triz, a despeito do manejo mal e de qualquer métrica ruim da maior crise sanitária da nossa história recente, ele quase ganhou a reeleição. Isso significa que o papel dele é muito grande e ele teria facilmente ganhado se não fosse a covid. Não foi uma rejeição ao seu estilo divisivo de polarização. Acredito que essa é uma leitura errada. É claro que o Trump perdeu parte do eleitorado branco, nos subúrbios, que rejeitou seu estilo. Mas esse não é o movimento dominante da eleição. No fundo, o que aconteceu foi que 2% ou 3% dos eleitores em Estados-chaves teriam votado no Trump e voltaram no Biden por causa da covid-19. 

Que país sai dessa eleição? 

Os EUA saem dessa eleição com uma base republicana mais recrudescida, acreditando que foi injusta. E olho nos democratas e vejo uma base migrando mais para a esquerda. A identificação ideológica democrata, nos últimos dez anos, claramente é a de uma composição mais à esquerda. Vejo os polos se separando. E as raízes da revolta contra o sistema só podem aumentar com uma recuperação desigual da economia, enquanto setores de mais baixa renda tende a sofrer mais, e setores de mais alta escolaridade, menos. Não enxergo o populismo diminuindo com essa eleição. O ponto é: não se pode focar em quem ganhou, e sim nas raízes do desencanto que gera o fenômeno. E elas não estão diminuindo. 

Olhando agora pelo lado das forças de oposição, foi um centrista moderado que venceu. Se tivéssemos o Bernie Sanders como candidato, provavelmente esse não seria o resultado final. Acredita que essa escolha, de um centrista, pode servir de modelo para outras oposições? 

Esse é um contraponto interessante. É difícil dizer, mas de fato, se fosse o Bernie Sanders, o resultado poderia ser outro. Mas essa questão depende muito do sistema partidário. Uma candidatura centrista tem que ter um certo apelo a essa revolta da população. O Biden conseguiu porque é um sistema bipartidário, todos os eleitores do Bernie Sanders migraram ao Biden e ele deu um forte apoio. Então, o centrista tende a prevalecer. Mas em um sistema multipartidário, como o do Brasil, o desafio é chegar ao segundo turno.

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