Obama deve lustrar diplomacia sem descuidar da defesa

Criador do 'poder inteligente', citado por Hillary, diz que população espera que Obama não deixe terror de lado

Priscila Arone, Agência Estado

20 de janeiro de 2009 | 07h10

Os norte-americanos estão preocupados com a imagem externa dos EUA que o governo Bush deixou e esperam que a administração Barack Obama ajude a mudar este quadro, diz Joseph Nye, da Universidade Harvard, influente teórico de relações internacionais. Ele cunhou o termo "smart power" (poder inteligente), citado pela futura secretária de Estado, Hillary Clinton, como diretriz de sua política externa. Apesar da mudança de foco, o presidente que assume nesta terça-feira, 20, não pode deixar de lado o combate ao terrorismo. "A ameaça continua", disse Nye em entrevista, lembrando que a Al-Qaeda declarou guerra aos EUA e atacou o país.  Veja também:Contas no vermelho são parte da herança maldita de BushEUA foram os que mais perderam com Bush, diz analista Dez lições de Bush para Obama Veja o programa da posse de Barack ObamaGaleria de fotos do show  Cronologia de Barack Obama  Imagens da família Obama    O poder inteligente, explica Nye, é a correta proporção entre o poder brando - ou "soft power", que representa ênfase maior na diplomacia - e o poder duro - ou "hard power", termo que descreve a coerção militar ou econômica. Segundo Nye, a eleição de Obama ajuda a restaurar a confiança no "sonho americano". Marcos Vinícius De Freitas, professor de Direito e Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), também acha que os norte-americanos estão preocupados com sua imagem no exterior e que as declarações da próxima secretária de Estado mostram essa percepção por parte do novo governo.  "Ninguém se engane em pensar que isso, de alguma forma, vá retirar do país a sólida percepção de que os EUA continuam a ser a superpotência e que a resolução dos seus problemas domésticos é a sua maior prioridade", afirmou Freitas. Segundo ele, dizer que a maior potência do mundo perdeu influência seria ingênuo, já que a maior parte da agenda internacional passa necessariamente por uma avaliação dos EUA.  As questões envolvendo Índia e Paquistão e, atualmente, Israel e os territórios palestinos, mostram a necessidade do engajamento contínuo do governo norte-americano. "Logo, o que foi diminuído com a administração Bush foi a simpatia em relação aos EUA, e não sua influência", afirmou Freitas. Mas superpotências tendem a ter um certo descaso pela diplomacia, na opinião de Freitas. E esse descaso acaba tendo um custo insuportável. "A postura do 'eu posso tudo' rapidamente desgasta o país, que não consegue encontrar, na agenda internacional, maior eco para suas proposições". Para ele, esse descaso tende a diminuir, já que o mundo está cada vez mais interdependente em áreas como comércio, tecnologia e ciências. "Logo, essa rede de interações forçará a nova administração a restabelecer um maior papel na arte da diplomacia", disse Freitas. "À medida que o 11 de Setembro vai ficando mais distante na mente das pessoas, a tendência da guerra ao terrorismo também diminuirá", disse Freitas. "Mas Barack Obama terá de manter-se alerta, pois qualquer ataque da Al-Qaeda denotará uma fraqueza de sua administração". Para ele, a grande questão das relações exteriores dos EUA é o Iraque.  Para Nye, atitudes como o fechamento da prisão da base na baía de Guantánamo, em Cuba, a adesão às Convenções de Genebra e novas iniciativas sobre temas globais, como a questão do aquecimento, poderiam ajudar a melhorar a imagem dos EUA no exterior. Freitas também cita a busca de uma solução internacionalizada e compartilhada para a questão do Iraque nesta lista. Para ele isso não significa que os EUA deixarão de ter uma presença militar em território iraquiano, mas que deveriam diminuir esta presença. "Isso contribuirá, de alguma forma, no processo de revitalização democrática daquele país e, quem sabe, terá algum impacto regionalmente." Nye afirma que os problemas mais urgentes do novo governo continuarão concentrados no Oriente Médio e no Sul da África, mas lembrou que Obama já disse que seria um erro ignorar as questões envolvendo a América Latina e a Ásia. Para Freitas, na América Latina, quatro países devem se manter no radar da política externa norte-americana. A Colômbia, por causa da questão do tráfico de drogas, e o México em razão da imigração.  A Venezuela também continua a ter importância por ser um grande fornecedor de petróleo para os EUA e por ter Hugo Chávez na presidência - os dois países têm relação bilateral tumultuada. "E o Brasil em razão do acesso à riqueza petrolífera encontrada na camada pré-sal", afirma Freitas. Para Nye, há muitos interesses comuns entre EUA e Brasil que se tornarão mais claros sob a administração Obama.

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