Obama traz um novo paradigma de raça para política dos EUA

Para John Stanfield, da Universidade de Indiana, Obama representa um novo tipo de líder negro

Caio Quero, do estadao.com.br,

06 de junho de 2008 | 18h47

O senador Barack Obama representa um novo tipo de liderança negra nos Estados Unidos. Para John H. Stanfield, professor do Departamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Indiana, nos EUA, o virtual candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos traz uma abordagem diferente daquela que tradicionalmente é explorada por lideranças afro-americanas no país, o que fez com que ele pudesse conquistar o apóio de parte do eleitorado branco.   Para Stanfield a ascensão do primeiro negro com reais chances de alacançar a Casa Branca significa que a crise econômica e política que os Estados Unidos atravessam pode ter causado uma transformação no modo como os americanos enxergam o conceito de raça.   Leia a entrevista que Stanfield concedeu por e-mail ao estadão.com.br   Os Estados Unidos estão preparados para ter um presidente negro? O que a vitória de Obama nas eleições pode significar para os negros nos EUA?   Historicamente, os EUA se desenvolveram sob um conceito de raça muito presente. Por causa disso, ainda há muitas disparidades em relação à qualidade de vida entre brancos e não-brancos, principalmente no que se refere a educação, emprego e saúde.   A ascensão de Obama demonstra que os americanos estão mais preocupados com as habilidades do presidente em liderar um país que está sofrendo uma séria crise econômica e cívica do que com estereótipos e presunções relativos à cor da pele de uma pessoa. Isto não quer dizer que o preconceito racial está morto nos Estados Unidos e que não haja brancos e não-brancos que preguem idéias segregacionistas e racistas.   O racismo é ainda uma questão importante na campanha? Como ele deve aparecer até as eleições de novembro?   Até que nós nos livremos dos efeitos do conceito de raça, o racismo vai continuar sendo um assunto importante em todos os lugares dos EUA. Nós temos vivido enormes mudanças no que se refere ao modo como se pensa e se vive nos Estados Unidos, especialmente entre os americanos que têm menos de 40 anos e que convivem em um mundo em que o poder está passando para as mãos de regiões e líderes não-brancos.   Mas, certamente, há estereótipos raciais que ainda estão muito ativos na cultura americana, incluindo nosso sistema político e o processo eleitoral. Um desses estereótipos é o de que homens negros não são confiáveis. Outro é de que os negros não são patriotas, porque não seriam verdadeiramente americanos aos olhos de alguns brancos racistas e mesmo de alguns não-brancos. Foram estes estereótipos que levaram parte da mídia a tentar transformar o apoio do reverendo Wright a Obama em uma oportunidade para questionar o caráter do candidato. É por isso que a direita continua a levantar questões sobre o patriotismo de Obama e sobre seu sobrenome, que soa muçulmano.   Dentro da comunidade negra, existem críticos que dizem que Obama não pode ser considerado realmente um afro-americano, já que não tem ancestrais escravos. Quais são as origens destas críticas?   Muitos negros com raízes históricas nos Estados Unidos adotam estereótipos sobre a identidade negra que ficaram populares desde o fim da Guerra Civil, em 1865. Estes estereótipos presumem que a identidade do negro nos EUA deriva de fatos como ter crescido em um gueto ou em um ambiente rural negro e são centrados na participação em manifestações culturais raciais, como a igreja negra, a música, ou associações civis de afro-americanos.   Obama teve um pai que era imigrante africano que o deixou no início da infância. Sua mãe, que era branca do Kansas, o criou no Havaí e na Indonésia. Ele freqüentou universidades de elite predominantemente brancas e não universidades com a maioria dos alunos negros. Por estes motivos e outros, para alguns na mídia - tanto brancos como negros - ele não se encaixa no perfil tradicional do negro americano.   Este pensamento, no entanto, é muito ingênuo e racista, pois insiste que todos os negros devem ter a mesma origem. Obama simboliza uma diversidade na identidade negra que está se tornando cada vez mais comum nos EUA por diversos motivos.   Primeiro, desde 1970 a imigração africana tem contribuído muito para a variação étnica entre os negros dos EUA. Esta variação está causando também um aumento das tensões entre as lideranças negras históricas e novos líderes que estão emergindo na educação, mídia e política.   Depois, desde 1970, como conseqüência do movimento pelos direitos civis e de políticas para se acabar com a segregação, há um crescente número de negros que não cresceram em vizinhanças negras e que freqüentaram escolas com predominância de brancos, como é o caso de Obama.   Como uma eventual eleição de Obama pode frustrar o movimento negro tradicional?   Desde a época da colônia, a visão política dos negros em relação a assuntos como a presidência dos EUA tem sido muito complexa e até paradoxal. Assim, as expectativas do movimento negro em relação à eleição de Obama dependem do lugar no espectro político que se encontram estes diversos movimentos.   Eu tenho certeza de que aqueles que estiverem no lado esquerdo desse espectro vão comemorar o fato de os Estados Unidos finalmente terem um presidente que compreende as preocupantes condições de vida dos pobres americanos.   Aqueles que estão à direita vão perceber que mesmo sendo humanitário na política interna e externa, ele é um político que defende valores ligados à família e que acredita em uma presença militar forte no exterior.   Como o caso do pastor Jeremiah Wright atrapalhou Obama na construção da imagem de um novo líder negro?   O caso do pastor Jeremiah Wright representa o que acontece com um político que parece não aplicar o que diz em público na vida privada. Não importam as razões pessoais que levaram Obama, que é um estrategista brilhante, a cometer um equívoco tão grande como o de colocar o pastor em seu comitê de campanha. Mas a partir do momento em que o reverendo Wright deu suas primeiras declarações polêmicas, Obama deveria ter não apenas condenado publicamente a mensagem, mas ter saído imediatamente da igreja de Wright.   O fato de Obama ter condenado a mensagem de Wright mas não ter saído da igreja fez com que se criasse um espaço para seus adversários questionarem seu caráter e, ironicamente, também deu espaço para Wright se promover às suas custas.   Este incidente demonstrou a maior fraqueza pessoal de Obama, que pode ser usada contra ele publicamente: uma necessidade de se mostrar como um negro tradicional, coisa que ele não é.   Desde o começo, ele deveria ter insistido em como ele é um exemplo de diversidade étnica , no lugar de tentar se enquadrar em uma identidade estereotipada do negro norte-americano.   Como foi possível que eu negro como Obama conseguisse tanto apoio entre brancos em um país em que o racismo continua sendo um fator importante?   Com o fim da Primeira Guerra, em 1918, as leis de segregação Jim Crow começaram a erodir. Este declínio foi acelerado pelos movimentos pelos direitos civis e outras políticas durante as décadas de 1940 e - especialmente - 1950 e 1960. O fim da segregação nos últimos 60 anos transformou profundamente os valores culturais e as atitudes dos brancos em relação aos negros por meio de vizinhanças e escolas mistas e com a presença de mais negros na mídia, na política nacional, nas Forças Armadas e na religião. Mas ainda há muitas transformações nas atitudes culturais brancas e valores que precisam ser feitas, especialmente em áreas rurais do país.   Certamente a popularidade de Obama entre os jovens brancos, os brancos com alta-escolaridade, membros de família brancas influentes e homens de negócios demonstra como estas transformações estão ocorrendo. O número histórico de americanos brancos votando em Obama nas primárias indica como nós americanos, independente da origem, estamos em busca de um líder inspirado em uma época de crise e declínio de nosso prestígio global.   Quais seriam as principais diferenças entre Obama e outros candidatos negros, como Jesse Jackson (líder negro e pastor protestante que disputou a indicação do partido Democrata à Presidência em 1984 e 1988)?   Desde a época colonial, os negros americanos estão envolvidos em política, mas sempre como agentes fora das grandes disputas. Eles aparecem como militantes dos movimentos pelos direitos civis, como Frederick Douglass, William E. B. DuBois, Fannie Lou Hammer, Whitney Young, Martin Luther King, Jr., Malcom X e Louis Farrakhan, ou educadores, como Booker T. Washington, John Hope e Mary Bethune.   Em tempos mais recentes - como no caso de Barbara Jordan, na década de 1970 e Jesse Jackson ou Alan Keyes, depois dos anos 1970 - políticos negros foram considerados marginais pelos grandes partidos por sua suposta incapacidade de ganhar eleições nacionais. Obama é o primeiro negro a ter boas chances de ganhar as eleições para a presidência dos EUA.   Há muita especulação sobre os motivos que levam Jesse Jackson estar tão quieto, sem se manifestar muito nestas eleições. Dizem que assim ele não corre o risco e arruinar as chances de Obama. Pode haver alguma verdade nisto, mas o fato é que Obama transformou o paradigma de raça na política de tal forma que eu acho que não importa o que Jesse Jackson ou outro líder nacional diga ou faça, isto não vai comprometê-lo. Este estilo de política baseado na raça se tornou nos últimos 20 anos ineficiente e é encarado de modo não muito sério por grande parte dos negros.   Se Jesse Jackson e outro que se enxergam como lideres raciais tentarem algo negativo, o que eu duvido que aconteça, isso vai ser encarado pelo eleitorado como algo ciumento que não afetará Obama, como aconteceu no caso do pastor Jeremiah Wright.   Quais as diferenças e semelhanças entre Obama e outras lideranças negras atuais, como Colin Powel e Condoleezza Rice?   Como Colin Powel e Condoleezza Rice e, devo adicionar, Devall Patrick, o governador de Massachussetts, Obama é representante de uma nova liderança negra pós-1970. São políticos que fazem parte dos dois maiores partidos dos EUA e não dependem apenas do eleitorado negro para garantir cargos em nível nacional.   Mesmo se Obama não derrotar McCain em novembro, ele certamente foi um pioneiro, um catalisador para que outro não-branco possa se tornar o presidente dos EUA em um futuro não muito distante. Isso se torna ainda mais plausível quando nós consideramos o fato de que, demograficamente, os EUA serão um país majoritariamente não-branco por volta do ano de 2050.   Quem Obama deve tomar como vice?   Obama vai precisar selecionar um companheiro de chapa do Meio-Oeste, que é a região onde as eleições foram ganhas ou perdidas nos anos recentes. E sim, é verdade que ele tem pouca penetração entre os trabalhadores brancos do Meio-Oeste e do Leste. Então, quem quer que ele escolha, terá que ajudá-lo a alcançar esta população. Também será necessário que a senadora Hillary Clinton faça uma campanha agressiva para ele, especialmente para atrair homens e mulheres entre os trabalhadores brancos e os latinos no Texas, Califórnia e Flórida.

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