Ousado nas palavras, McCain tenta ser o mais velho a ser eleito

Veterano da Guerra do Vietnã, candidato republicano à Presidência é praticamente o anti-herói americano

Da redação com agências internacionais, estadao.com.br

22 de agosto de 2008 | 17h24

O republicano John McCain é conhecido não só pela sua trajetória militar, mas também por sua ousadia com as palavras. O homem que carrega as cicatrizes do Guerra do Vietnã, conflito em que os americanos foram derrotados, já questionou como a filha do casal Clinton, Chelsea, é feia, disse que prefere perder uma eleição a uma guerra e chegou a deixar escapar que a economia não é seu forte. O veterano de 71 anos tenta agora, pela primeira vez, chegar à Casa Branca e se tornar o presidente mais velho da história dos Estados Unidos. Nascido na base militar americana que hoje fica no território do Panamá, filho e neto de almirantes, John Sidney McCain Terceiro graduou-se na Academia Naval de Anápolis entre os cinco últimos colocados. O republicano é praticamente o anti-herói americano, já que admitiu ter desonrado sua pátria ao assinar uma falsa confissão contra os EUA durante a guerra e traído a primeira mulher. "Não fui apenas desonesto. Fui um covarde. Os meus heróis, fictícios e reais, sentiriam vergonha de mim", disse em sua autobiografia. Ainda que não transmita a imagem de força e superioridade de outros presidentes, McCain superou o estereótipo de anticandidato, mesmo com a idade avançada, a estatura inferior aos padrões americanos e de andar com dificuldade. Em 1967, McCain sobreviveu a uma explosão no convés do porta-aviões Forrestal, que matou 134 soldados. Alguns meses depois, o republicano não teve tanta sorte e foi abatido enquanto realizava um bombardeio aéreo sobre a capital do Vietnã, Hanói. "Interceptei um míssil com o próprio avião", brinca. Com os dois braços e uma perna quebrados, o piloto foi detido por mais de seis anos no "Hotel Hanói", o presídio militar vietnamita, mas foi poupado por ser filho de militares e considerado uma arma política. Sob tortura - prática que seus carcereiros negam -, assinou uma falsa confissão denunciando as supostas ações americanas e tentou se matar duas vezes, por trair o seu país. Quando foi libertado, aos 36 anos, McCain estava com a carreira militar comprometida pelas seqüelas dos ferimentos sofridos no Vietnã - ele não consegue pentear os cabelos, já que não levanta os braços acima da altura da cabeça. O republicano então iniciou sua carreira política ao assumir a chefia de um dos escritórios da Marinha no Congresso. Eleito deputado em 1982 e senador dois anos mais tarde, McCain exerce agora o seu terceiro mandato pelo Estado do Arizona. O candidato aproveita o Senado para defender uma de suas principais propostas de campanha: a permanência das tropas americanas no Iraque e no Afeganistão, além da legalização de milhões de imigrantes clandestinos, o fim dos subsídios ao etanol de milho e o livre comércio. Além disso, critica o "padrinho" e ex-rival, George W. Bush, para quem perdeu a candidatura em 2000, sobre o uso da tortura contra suspeitos de terrorismo. Na década de 1980, McCain e quatro senadores democratas foram personagens de um escândalo nacional sob a acusação de tentar influenciar as investigações contra o banqueiro Charles Keating, acusado de chantagens e fraude. Membro do chamado "Keating five", em referência aos cinco envolvidos no caso, McCain chegou a receber dinheiro para o seu fundo de campanha e até mesmo usar a casa de Keating para férias com a família em uma ilha particular no Caribe, mas foi inocentado pela Comissão de Ética do Senado. Pessoas próximas ao senador afirmam que, para ele, o caso foi mais duro do que a prisão no Vietnã, pois colocou em dúvida a sua honestidade, algo que não ocorrera durante a guerra.   McCain chega na Flórida em 1973. Foto: APChamado de "senador cabeça quente", McCain é daqueles que perde a paciência facilmente, como na ocasião em que discutiu com o colega de bancada John Cornyn por conta de um projeto de imigração ilegal. "Vá ...! Sei mais disso do que qualquer um nesta sala", teria dito o republicano diante do Senado. Em uma brincadeira, McCain precisou se desculpar com a família Clinton após uma piada sobre a filha única do casal, Chelsea. Durante um jantar de arrecadação de fundos em 1998, o republicano perguntou aos convidados "por que Chelsea é tão feia?" O senador chegou a escrever uma carta para Bill Clinton se desculpando pelo incidente, mas o ex-presidente decidiu não dar importância para o fato. O "Fênix", como é chamado pelos agentes do serviço secreto que acompanham os candidatos à Presidência, está sempre acompanhado da mulher, Cindy, filha de um grande empresário da indústria da cerveja do Arizona. O republicano tem sete filhos: Douglas e Andrew (adotados durante o primeiro casamento, com Carol Shepp), Sydney (sua filha biológica com Carol), John IV, Meghan, James e Bridget (nascida em Bangladesh e adotada pelos McCain em 1993), frutos da segunda união, com Cindy. Durante a campanha presidencial, McCain chegou a brincar que colocará as músicas do seu grupo favorito, a banda sueca Abba, em todos os elevadores da Casa Branca. Além da mulher, a imprensa do mundo todo acompanha o candidato a bordo do Expresso Conversa Franca, ônibus que leva a campanha do republicano pelos EUA. No início da disputa das prévias republicanas, McCain tinha pouca popularidade entre os eleitores e desvantagem financeira em relação aos rivais, mas as longas entrevistas dadas aos jornalistas garantiram a recuperação do candidato ao longo da campanha. Foi assim que se descobriu que ele adora rosquinhas e carrega sempre uma moeda da sorte. Muitos afirmam que a idade de McCain pode lhe garantir apenas um mandato, já que tentaria a reeleição com mais de 75 anos. Além disso, McCain enfrentará em novembro um rival com quase a metade de sua idade. O republicano justifica que é mais experiente nas questões sociais, políticas e internacionais, enquanto Obama tem 47 anos e apenas um mandato no Senado.

Tudo o que sabemos sobre:
John McCaineleições nos EUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.