Para analistas, Obama deve deixar América Latina em 2.º plano

Prioridade para os EUA deve ser problemas internos; maior simpatia pelo presidente pode melhorar relações

Daniela Milanese, da Agência Estado,

11 de novembro de 2008 | 18h06

O relacionamento com a América Latina deve ficar em segundo plano na agenda inicial do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Especialistas acreditam que a maior economia do mundo tende a olhar prioritariamente para seus relevantes problemas internos, fazendo com que o tema da crise financeira predomine inclusive nos primeiros contatos com a região vizinha. Há temores de que a turbulência torne os EUA mais defensivos em sua política comercial, mas prevalece a percepção de que o novo presidente será visto com mais simpatia, o que possibilita a melhora das relações com a Bolívia e a Venezuela. Veja também:70% dos americanos confiam em ObamaPrincipais desafios de ObamaNomes cotados para o gabinete de ObamaQuem são os eleitores de Obama   Trajetória de Obama  Cobertura completa das eleições nos EUA "Os norte-americanos elegeram Obama para a presidência dos Estados Unidos, e não para a presidência do mundo", afirmou o presidente da Inter-American Dialogue, centro de análise política baseado em Washington, Peter Hakim. "Ele terá de enfrentar grandes tensões internas, já que as pessoas estão perdendo seus empregos e suas casas". Como a crise já se espalhou pelos mercados emergentes, o tema deve dominar a agenda nos próximos meses. Para o editor de Américas da The Economist, Michael Reid, existe a possibilidade de que alguns países latino-americanos peçam suporte externo para enfrentar a turbulência. Ele avalia que a política norte-americana para a região, hoje desconhecida, deve ficar mais clara a partir de abril do próximo ano. "Obama nunca visitou a América Latina e a região não teve papel em sua campanha." Ele avalia que a prioridade do início do seu governo será evitar que a recessão seja muito severa, além da solução de outros desafios internos, como o sistema de saúde do país. Francisco Panizza, professor da London School of Economics, avalia que a crise pode levar os EUA a adotar uma política protecionista de comércio externo, com a adoção de barreiras para blindar a economia interna. "Espero que Obama se volte para outros países e mantenha o comércio aberto", disse Hakim, da Inter-American Dialogue. Hakim e Reid participaram nesta terça-feira, 11, de debate na Canning House, em Londres, sobre as conseqüências das eleições norte-americanas para a América Latina. Bolívia e Venezuela A eleição de Obama ainda ajuda a melhorar a imagem dos Estados Unidos na América Latina e abre a possibilidade de relações mais amigáveis com países como a Bolívia e a Venezuela, avaliam especialistas estrangeiros. "As pessoas na América Latina vão sentir que Obama representa uma nova geração na política", afirmou Panizza. "É o primeiro presidente negro, assim como Lula é o primeiro trabalhador e Evo Morales o primeiro indígena."  Para o professor da London University, Richard Bourne, o fato de Lula e Obama terem superado desafios semelhantes para chegar à presidência pode gerar simpatia entre eles. O editor para as Américas da The Economist, Michael Reid, avalia que esse clima poder amenizar o tom crítico aos Estados Unidos adotado pela Bolívia e Venezuela.  "Vai ficar mais difícil para Hugo Chavez demonizar os EUA", disse. "Obama já promoveu uma mudança de atmosfera na América Latina, restaurando a imagem de que os EUA são um país de oportunidades." No caso de nações como Brasil, Chile e Colômbia, que já possuíam boas relações com o país durante o governo de George W. Bush, a tendência é a de que a situação tenha continuidade.  Ainda assim, Hakim acredita que o Brasil, pelo fato de ter conseguido relevância internacional nos últimos anos, pode esbarrar com os EUA em alguns temas importantes para os dois países. Um exemplo seria na área nuclear. "Os Estados Unidos podem querer que o Brasil se torne mais ativo na luta contra a proliferação nuclear, e o País tem boas relações com o Irã", conclui.

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