Segregação racial desafia Obama

Tentativa de senador democrata de transcender raça esbarra em histórica divisão entre negros e brancos

Patrícia Campos Mello, de O Estado de S. Paulo,

04 de maio de 2008 | 17h50

O senador democrata Barack Obama quer ser o primeiro presidente multirracial e multicultural dos EUA: ele é filho de mãe branca do Kansas e pai negro do Quênia e, durante a infância, viveu na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo.Obama não segue a cartilha dos velhos líderes do movimento dos direitos civis (1955-1968), que tinham o objetivo de abolir a discriminação racial. Ele não faz da raça uma questão central de sua plataforma de campanha. "Não existe a América dos brancos", costuma dizer. "Não existe a América dos negros. E nem a latinos ou asiáticos. A única coisa que existe são os Estados Unidos da América."Mas sua tentativa de transcender a raça esbarra em feridas profundas dos EUA, que há meros 40 anos eram um país onde a segregação racial tinha base legal. Negros não podiam freqüentar as mesmas escolas que os brancos, eram obrigados a ceder seus lugares nos ônibus para eles e usavam banheiros separados. Durante o movimento dos direitos civis, a Klu Klux Klan - organização que defendia a supremacia da raça branca - tinha quase 20 mil membros e foi responsável por vários assassinatos.Esse passado é difícil de apagar. Obama percebeu isso em março, quando foi obrigado a fazer um discurso contemporizador para refutar declarações controversas de seu ex-pastor Jeremiah Wright, para quem os EUA são um país fundamentalmente racista e seu governo, corrupto e assassino. Na época, Obama condenou as observações do reverendo "(por serem) divisoras quando precisamos de unidade". Na terça-feira, Obama viu-se obrigado a romper publicamente com Wright, após o religioso acusá-lo de só criticar suas afirmações por ser candidato à presidência."Episódios como o de Wright, que é o perfeito retrato do negro que busca reparação para as injustiças cometidas pelos brancos, trazem de volta a realidade racial", diz Vincent Hutchings, professor de ciência política da Universidade de Michigan, que pesquisa a influência da raça nas eleições.Segundo ele, o eleitor branco médio é muito conservador e foge de tudo o que lembra o radicalismo dos anos 60 e 70, como o dos Panteras Negras - que, além dos direitos civis, promoviam a autodefesa.Obama não é da "safra" da era Jesse Jackson e Al Sharpton, que queriam um governo de negros para negros, para corrigir as injustiças cometidas contra sua raça. Ele representa a geração pós-direitos civis, que se beneficiou do movimento e cursou faculdades de elite, como Columbia e Harvard. Mas sua relação de 20 anos com Wright - que realizou seu casamento e batizou suas filhas - deixa desconfortável o eleitor branco conservador."Mais do que a religião ou o gênero sexual, a raça ainda é o maior divisor do eleitorado americano", afirma Hutchings. "Isso porque, apesar de a segregação ter acabado oficialmente há 40 anos, ainda há enormes diferenças entre brancos e negros no país."A expectativa de vida dos negros - 73 anos - é cinco anos menor que a dos brancos. Bebês negros têm 2,5 vezes mais chance de morrer antes do primeiro ano de vida e cerca de metade dos 2,3 milhões de presos do país é negra.Em toda a história dos EUA, só houve três senadores e dois governadores negros. E apesar de os brancos liberais certamente terem sido essenciais na eleição desses políticos - como o ex-prefeito de Chicago Harold Washington (1983-87) e Deval Patrick, atual governador de Massachusetts -, o voto dos brancos ainda não é confiável.Na primária da Pensilvânia, as pesquisas de boca-de-urna davam a Hillary uma vantagem de apenas 3,6 pontos sobre Obama. Feita a contagem de votos, ela venceu por quase 10 pontos. Para alguns analistas, Obama foi vítima do chamado "efeito (Tom) Bradley", negro que disputou o governo da Califórnia em 1982. Apesar de liderar em todas as pesquisas, Bradley perdeu no dia da votação para George Deukmejian, que era branco. Especialistas em pesquisas apontam que os eleitores brancos não acham politicamente correto admitir que não vão votar em um negro, então mentem na boca-de-urna.Na primária da Pensilvânia, 12% dos eleitores brancos disseram que a raça era um fator essencial para sua decisão. Desses, 75% votaram em Hillary. "A idéia de que se pode ignorar a raça na política é um mito", diz Hutchings.Obama teve grande votação de eleitores brancos nas primárias do Kansas, Iowa, Idaho e Colorado. Na Pensilvânia, no Mississippi e em Ohio, porém, os eleitores se dividiram. Não se sabe como o eleitorado de Hillary - com menor nível educacional, mais velho, conservador e da classe operária branca - se comportará caso Obama seja indicado. Votarão em um negro ou optarão pelo republicano John McCain, que pode apelar para o discurso econômico populista que tanto lhes agrada? Eles podem, em última instância, decidir a eleição.var keywords = "";

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