Sobrevivente das 'Marchas de Selma' relembra ato

Único remanescente de incidente chamado 'domingo sangrento', John Lewis diz que sem conquistas Obama não seria presidente

Cláudia Trevisan, correspondente/Washington, O Estado de S. Paulo

25 de janeiro de 2015 | 07h57

John Lewis carrega nas cicatrizes de seu corpo a memória das incontáveis agressões da polícia, da Ku Klux Klan e dos defensores da supremacia branca que tentavam manter a segregação racial no sul dos Estados Unidos nos anos 60, um século depois do fim da escravidão. Fiel aos princípios da não violência, ele não revidava os golpes nem reagia às prisões, que se repetiram mais de 40 vezes.

Em 7 de março de 1965, Lewis estava à frente das 600 pessoas que pretendiam caminhar 87 quilômetros entre as cidades de Selma e Montgomery para exigir o direito de voto para os negros – reconhecido formalmente, mas negado na prática pelas autoridades eleitorais dos Estados sulistas. Na ponte Edmund Pettus, nos primeiros passos da jornada, foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo e golpes de cassetete desferidos pela polícia do Alabama, em um episódio batizado de “domingo sangrento”.

Com uma mochila nas costas, Lewis foi agredido repetidas vezes e saiu da ponte com o rosto ensanguentado. A cena é revivida no recém-lançado Selma, dirigido pela negra Ava DuVernay e indicado ao Oscar de melhor filme, que estreia no Brasil em 5 de fevereiro. "Eu pensei que iria morrer", lembrou na quinta-feira.

O Lewis que exigia o direito de votar há meio século é desde 1986 integrante do Congresso dos EUA, onde exerce mandato de senador pela Geórgia. As imagens da brutalidade policial naquele 7 de março mobilizaram a opinião pública americana, levaram centenas de ativistas negros e brancos a Selma e criaram as condições políticas para o presidente Lyndon Johnson sancionar o Ato dos Direitos do Voto em 6 de agosto de 1965. “Se não houvesse a ponte, Barack Obama não seria presidente”, avaliou Lewis, no lançamento de um livro em quadrinhos sobre a marcha no National Press Club, em Washington.

Em 7 de março, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos estará em Selma para homenagear aqueles que arriscaram suas vidas para estender os direitos civis aos descendentes dos escravos americanos. A força motriz do movimento que mudou o país foi Martin Luther King Jr., em torno de quem Selma se desenrola.

Sobrevivente. Lewis é o único dos grandes líderes da época que ainda está vivo. Em agosto de 1963, ele foi o mais jovem orador da Marcha sobre Washington, liderada por King. No ano seguinte, Johnson assinaria o Ato dos Direitos Civis, que estendeu aos negros uma série de prerrogativas antes reservadas aos brancos.

O exercício do voto, no entanto, continuou a ser negado nos Estados do sul, onde os responsáveis por registrar eleitores submetiam os negros a exigências que não podiam ser atendidas por nenhum cidadão.

As perguntas que deveriam ser respondidas para o registro mudavam a cada tentativa e incluíam questões para as quais não havia respostas corretas, como 'quantas bolhas há em uma barra de sabão?'.

Selma, no Alabama, se transformou no símbolo da barreira racial entre negros e as eleições. No início dos anos 60, os afro-americanos eram 57% da população da cidade, mas apenas 1% deles podiam votar.

O hoje senador era presidente do Comitê de Coordenação de Estudantes Não Violentos quando foi a Selma, em 1963, participar de campanha pelo registro de eleitores negros. Sua iniciação à filosofia da desobediência civil havia ocorrido em Nashville, no Tennessee, para onde se mudou em 1957 para estudar no Seminário Teológico Batista Americano. Lewis e seus colegas desafiavam a separação entre negros e brancos com atos singelos, como entrar em um restaurante e permanecer sentados, mesmo que fossem ignorados pelos garçons. Ou entrar em filas de cinema e voltar ao fim delas cada vez que a venda do ingresso era negada.

Em 1961, ele foi a Washington pela primeira vez para se juntar aos "passageiros da liberdade", um grupo de seis negros e sete brancos que tomaram diferentes ônibus para o Sul com o objetivo de fiscalizar o respeito a uma decisão da Suprema Corte que determinou o fim da segregação no transporte público. Um dos ônibus foi incendiado e bandos da Ku Klux Klan protegidos pela polícia agrediram os ativistas nas paradas com tacos de beisebol e barras de ferro.

Quatro anos mais tarde, ele continuava a enfrentar a violência em Selma. Depois da primeira marcha frustrada, houve outra tentativa dois dias mais tarde, com 2,5 mil pessoas lideradas por Martin Luther King. Mas, quando a polícia abriu caminho para os manifestantes passarem, o reverendo decidiu recuar e pedir proteção federal.

Em 21 de março, milhares de pessoas deixaram Selma e marcharam protegidas por 2 mil soldados, 1,9 mil integrantes da Guarda Nacional e vários agentes do FBI. O protesto ganhou adesões ao longo do caminho e terminou com 25 mil pessoas em 25 de março, quando King discursou para a multidão na frente da Assembleia Legislativa do Alabama.

Tudo o que sabemos sobre:
Marchas de SelmaEstados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.