Voto negro cresce 30% por candidatura democrata

Estados considerador republicanos por tradição podem agora mudar de mãos para Barack Obama

Patrícia Campos Mello, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2008 | 16h32

    O primeiro candidato negro à presidência dos EUA deve levar um número recorde de eleitores negros às urnas - cerca de 24 milhões, um crescimento de 30% em relação à eleição de 2004, segundo especialistas.   Veja também:  Latinos decidem em quatro estados Militares admiram o 'herói republicano' Direita cristã se conforma com derrota Crise dá a Obama o voto de operários brancos   "Teremos o maior comparecimento de eleitores negros da história", disse Merle Black, professor de ciências políticas da Universidade de Emory, que é especialista em política da região sul dos EUA.   Por causa dessa mudança demográfica, está ocorrendo o impensável: alguns Estados, principalmente Virgínia, Carolina do Norte e Flórida, são agora competitivos para os democratas por causa da maior participação dos eleitores negros. Virgínia não vota em um candidato presidencial democrata desde Lyndon Johnson, em 1964.   Eleitores que nunca se importaram com política, como Tyrone Green, votarão este ano pela primeira vez por causa de Obama. "Muitos dos meus amigos votarão pela primeira vez porque se a gente não votar, McCain ganhará", disse Tyrone, que é pedreiro de Congress Heights, um bairro pobre de Washington que ficou conhecido como o centro do tráfico de crack há alguns anos.   Em Congress Heights, 97% da população é negra e 37% são pobres. "Nosso problema não é a execução de hipotecas porque ninguém aqui tem dinheiro para comprar uma casa e quase todo mundo mora em habitações do governo", explicou Tyrone.   Voto   A grande preocupação é o comparecimento dos negros - muitos estão entusiasmados e querem votar, mas grande parte não irá às urnas por algum motivo na terça-feira, disse Jennifer Hochschild, professora de governo e estudos afro-americanos da Universidade de Harvard. "Normalmente, a comunidade negra é a parcela da população menos instruída, mais pobre, mais difícil de alcançar", disse a pesquisadora. "Portanto, muitos deles não votarão. Não é por falta de entusiasmo, mas sim por falta de condições."   Segundo Jennifer, estudos mostram que quanto menos instrução uma pessoa tem, quanto mais jovem ela é e quanto mais pobre, menor a probabilidade de ela votar. "Outro problema é o excesso de confiança", disse a pesquisadora. "Todo o mundo acha que Obama vai ganhar. Então, se estiver frio, chovendo, ou as crianças estiverem chorando, muita gente pode simplesmente desistir de votar."   Tradicionalmente, o comparecimento entre os negros é menor do que entre brancos. Foram 14 milhões de eleitores negros em 2004, na última eleição presidencial (60% da população negra registrada votou). Em contrapartida, 67% dos brancos registrados votaram, 44% de asiáticos e 47% dos hispânicos.   No total dos votos, a participação dos negros é pequena, por isso não será suficiente para conquistar certos bastiões republicanos, como os Estados do Mississippi e da Carolina do Sul. "Na Geórgia ainda há possibilidade, mas precisaríamos de maior apoio dos brancos também, porque lá os negros são 30% dos eleitores", disse Black.   Nos EUA, os brancos representam 75% do eleitorado, seguidos de negros (12%), hispânicos (8%) e asiáticos (3%). Esse, porém, é o retrato da eleição de 2004 - este ano, a participação dos negros deve subir.   Os democratas apostam na maior participação dos negros para conquistar também mais vagas na Câmara e no Senado. O maior comparecimento pode ajudar o partido democrata a atingir o número de 60 senadores (entre 100), maioria que permitiria driblar obstruções dos republicanos - hoje, os democratas têm 49 senadores, mesmo número dos republicanos, o que torna difícil aprovar várias leis. Dois senadores são independentes.   Bush   Muitos negros afirmam que votarão em Obama não por causa da raça, mas por ele representar a mudança em relação ao impopular governo do presidente George W. Bush. "Não voto em Obama só porque ele é negro", disse a recepcionista Sherita Williams. "Precisamos de alguém que ofereça assistência de saúde universal e cuide do problema das hipotecas - minha família na Carolina do Norte não consegue pagar as prestações. Acho que Obama pode fazer isto."   Como disse Michael Eric Dyson, professor de sociologia da Universidade de Georgetown, "os negros não votam em candidatos só por eles serem negros". "Se Clarence Thomas, juiz da Suprema Corte, que é negro e extremamente conservador, se candidatasse à presidência, não teria mais do que cinco votos da comunidade negra."   Entretanto, os eleitores não escondem a emoção de votar naquele que pode se tornar o primeiro presidente negro dos EUA. Emoção e receio. Muitos temem que "alguma coisa possa acontecer" para impedir Obama de assumir o cargo. "Todos nós sabemos que alguém vai tentar alguma coisa contra ele. Eles se recusam a ser governados por um negro", disse Tyrone, ecoando uma teoria que circula entre muitos eleitores.

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