Bruno Marfinati/AE
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14 anos após massacre, Srebrenica tenta retomar a vida

Reportagem visita vilarejo na Bósnia em que mais de 8 mil foram executados durante conflito étnico

Bruno Marfinati, da Agência Estado,

28 de julho de 2009 | 10h21

Os muçulmanos da Bósnia-Herzegovina lembram neste mês as milhares de vítimas de um dos piores massacres da história ocorrido após a Segunda Guerra Mundial. Há 14 anos, o vilarejo de Srebrenica, no nordeste do país, sofreu um golpe cujas marcas perduram. Depois que o país declarou independência da ex-Iugoslávia, bósnio-muçulmanos e sérvio-bósnios travaram uma disputa étnica pelo território que provocou a morte e o ferimento de milhares de pessoas. Naquele julho de 1995, as forças bósnias lideradas pelos sérvios separaram de suas famílias e executaram 8.372 homens muçulmanos.

 

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A cidade tenta voltar vagarosamente a seu ritmo, já que a sombra das vítimas é uma lembrança trágica. É um vilarejo que, aos poucos, tenta buscar e identificar os restos de seus cidadãos mortos. Eles foram enterrados em valas comuns em várias partes do país e que agora estão sendo resgatados e identificados por meio de exames de DNA conduzidos pela Comissão Internacional de Pessoas Desaparecidas (ICMP na sigla em inglês). As amostras são retiradas dos ossos das vítimas e confrontadas com um banco de dados sanguíneo de familiares.

 

O Memorial Cemitério de Potocari, em Srebrenica, onde são feitos os sepultamentos, foi inaugurado em 2003 pelo ex-presidente americano Bill Clinton em homenagem às vítimas, que eram das cidades de Bratunac, Bijeljina, Foca, Han Pijesak, Rogatica, Sarajevo, Sokolac, Srebrenica, Srebrenik, Ugljevik, Visegrad, Vlasenica e Zvornik. Seus nomes foram talhados numa grande pedra de mármore na entrada do memorial.

 

Neste ano, o mês de julho foi celebrado com o funeral dos restos mortais de mais 534 muçulmanos, que se somaram aos 3.127 já sepultados no local. A ICMP já revelou a identidade de 6.186 vítimas, porém muitos familiares ainda não optaram pelo sepultamento na esperança de encontrar mais restos mortais. "Muitas famílias ainda esperam notícias de seus entes desaparecidos. O que nós desesperadamente precisamos é que as pessoas falem o que sabem sobre a localização de túmulos coletivos para que possamos encontrar e exumar os restos mortais de mais vítimas", disse a diretora-geral da comissão, Kathryne Bomberger. As famílias que visitam o memorial passam horas orando ao lado do túmulo de seus filhos, netos, sobrinhos e irmãos. Olham para cima, falam sozinhos, ora abaixam a cabeça, sussurram orações e conversam com seus mortos.

 

Pela primeira vez, o massacre foi lembrado pelos países da União Europeia (UE), depois de uma resolução ter sido aprovada em janeiro pelo Parlamento Europeu, que também recomendou aos países dos Bálcãs que fizessem o mesmo. Na Bósnia-Herzegovina, no entanto, a celebração ainda não é nacional, o que mostra a resistência de alguns grupos em reconhecer o genocídio.

 

Um caminho de montanhas e serras encantadoras levam a Srebrenica, que está a 150 quilômetros da capital Sarajevo. Mas conhecê-la vai além do interesse meramente turístico. É uma cidade que tem uma aura trágica que dificilmente será esquecida, assim como outros lugares em que se cometeram genocídios, como o dos nazistas contra os judeus em Treblinka e Dachau, na Alemanha, do Khmer Vermelho no Camboja, dos hutus contra os tutsis, em Ruanda, e de milícias contra os grupos não-árabes em Darfur, no Sudão. Ela não é um dos destinos mais procurados, mas sua importância histórica e política motivam a visita ao local - uma maneira de dar um pouco de atenção a uma comunidade que tanto perdeu no passado.

 

Chegar até lá não é fácil, mas o repórter embarca no único ônibus do dia que parte de Sarajevo com destino à cidade. Não é um veículo novo, está um pouco sujo, com bancos duros, pouco confortáveis e janelas sem uma boa limpeza há algumas semanas. Na medida em que ele passa pelas cidades, mais pessoas entram. Os poucos quilômetros que a separam da capital do país são percorridos em pouco mais de quatro horas, pois é uma região muito montanhosa.

 

A viagem seguiria normal se na subida da serra o ônibus não quebrasse. Depois de quase duas horas, um técnico chega e resolve o problema no motor. Uns descem no caminho, outros sobem, mas o ônibus não está consertado. Mais duas horas de viagem e o mesmo problema volta a incomodar. Paramos outra vez, mas agora numa estrada sem acostamento, em meio a uma área de terra e mato. Há um pequeno mercado distante uns 300 metros.

 

O motorista desce e abre a tampa do motor e volta para dentro do ônibus com a correia nas mãos. Neste momento dá a entender que o problema é mesmo sério. Haris, o dono do mercado, se oferece para continuar a viagem até Srebrenica com o seu carro, se for acertado um valor para o combustível. São mais 20 quilômetros e não há outra opção. O homem fala inglês e diz ter aprendido sozinho o idioma, assistindo a filmes, escutando músicas e conversando com os amigos que fez durante um curso técnico de turismo. Sobre o Brasil, se refere à novela "O Rei do Gado", transmitida recentemente para todo o país. Aqui, as novelas brasileiras também fazem sucesso.

 

Um pouco mais à vontade, o homem de religião muçulmana comenta a história da região, do massacre e de sua vida durante a guerra, e propõe ir até o memorial, que fica na entrada de Srebrenica. Lá, ele caminha em meio às lápides brancas e conta as histórias de algumas das vítimas, pois conhece mais de cem pessoas sepultadas. No início da última curva, para, ergue as mãos para o céu, as repousa sobre o rosto e diz ser o túmulo de seu pai, ao lado de onde também está seu primo. "Eles foram mortos durante o massacre e encontrados recentemente. Foi uma alegria para minha família tê-los de novo. Ali, do outro lado, essas quatro lápides são da mesma família. O pai foi morto junto aos três filhos", disse.

 

Uma mulher mais velha, sentada em uma cadeira de dobrável, reza para o filho morto. Mais à frente, um homem arruma com as mãos a terra ao redor do túmulo de um provável familiar. As lápides brancas indicam que são mais antigas que as placas verdes, que marcam os sepultamentos mais recentes. Há um grande espaço para missas e solenidades. Em profundo silêncio, três mulheres com véus na cabeça e um homem encontram o nome de um familiar no muro de mármore e se posicionam para tirar uma foto. Várias rosas, umas murchas, outras úmidas com as gotas do sereno, dão vida e cor a este espaço tão cinza.

 

A Bósnia-Herzegovina continua dividida. A fronteira política é apenas imaginária, mas a cultural é visível nas placas, nas pessoas e no comportamento. Apesar de ser um país independente, ainda está internamente dividido em duas entidades políticas: uma federação administrada por bósnios e croatas, que abrange 51% do território, e uma república sérvia, liderada pelos bósnios ortodoxos de etnia sérvia, que ocupa os restantes 49%. As duas entidades fazem parte de um mesmo país, e essa divisão foi aceita como uma das condições para colocar fim à guerra civil, no fim de 1995.

 

Durante a Guerra da Bósnia, que durou de 1992 a 1995, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou Srebrenica, que havia sido sitiada pelas forças sérvias durante a guerra, uma área de segurança e muitas pessoas foram para a cidade em busca de proteção. Mas em julho de 1995, o líder Radovan Karadzic, presidente do Partido Democrático Sérvio e da República Sérvia, ordenou o cerco total à cidade, proibindo a entrada de qualquer ajuda e renovando a ordem de tomar a região. As tropas comandadas pelo general Ratko Mladic capturaram a suposta área de segurança da ONU e cometeram o genocídio. Após cair na clandestinidade, Karadzic foi preso em julho de 2008 pela Sérvia e enviado ao tribunal da ONU em Haia, na Holanda, onde responde por crimes de guerra, contra a humanidade e genocídio. Mladic está foragido. É difícil falar de Srebrenica.

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