Sergey Dolzhenko/EFE/EPA
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A noiva usava uniforme, o noivo capacete, e os convidados carregavam fuzis

Lesia Filimonova e Valeri Filimonov se casaram em Kiev, capital da Ucrânia, neste domingo, 6; 'a vida continua e as pessoas vivem, e seu amor ajuda a guerra', disse o prefeito da cidade, Vitali Klitschko

Siobhán O'Grady e Kostiantyn Khudov, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 15h00

KIEV — O noivo usava capacete. A noiva usava uniforme. O mesmo fizeram o padre e todos os convidados na festa de casamento, com camaradas das forças de defesa ucranianas que se alinharam para a procissão conjugal carregando granadas e mísseis antitanque no ombro.

Outros convidados incluíam o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, que usava um colete à prova de balas e tirou uma selfie com a noiva, e uma multidão de jornalistas convidados a assistir ao espetáculo de um casamento próximo a um posto de controle em meio à guerra da Rússia na Ucrânia.

Apesar da natureza surreal do casamento de Lesia Filimonova e Valeri Filimonov na capital ucraniana no domingo, 6, o momento de certa forma ofereceu um vislumbre de normalidade em meio ao conflito. Mostrou, disse o prefeito, que “a vida continua e as pessoas vivem, e seu amor ajuda a guerra”.

Há pouco mais de uma semana, o casal era de “pessoas normais” sem planos de carregar armas, observou ele. Agora, “eles querem defender nossa cidade juntos”.

O casamento ocorreu enquanto as tropas russas continuam a pressionar em direção à capital. No domingo, vários civis foram mortos em um ataque de morteiro enquanto tentavam fugir do subúrbio vizinho de Irpin. Com lojas e negócios fechados em toda a capital, os civis se juntaram à luta em massa. Muitos deles, como Filimonova e Filimonov, juntaram-se às Forças de Defesa Territoriais de cidadãos voluntários nas forças armadas ucranianas.

Antes da guerra, Filimonova trabalhou como chefe de uma organização de escoteiros. Filimonov tinha uma empresa de tecnologia da informação. Eles se juntaram à força, disse Filimonova, “porque aqui temos tudo o que amamos e temos que defender. Não temos intenção de entregá-lo ao inimigo.”

O casamento começou, como de costume, com a noiva andando pelo corredor. Nesse caso, o corredor era um pequeno pedaço de grama em uma estrada movimentada em Kiev, próximo a um posto de controle e uma garagem onde homens e mulheres uniformizados corriam para providenciar aperitivos de caviar e salmão.

Filimonova estava com um véu simples preso ao cabelo curto, que ela havia enrolado para a ocasião. O músico ucraniano Taras Kompanichenko, que toca lira, um instrumento folclórico tradicional, comandava a música ao vivo. Ele também estava de uniforme militar.

Quando Filimonova começou a caminhar em direção ao caramanchão improvisado, marcado por uma bandeira ucraniana erguida, os alto-falantes tocaram uma versão instrumental de “Here Comes the Bride”. Na manga estava a braçadeira amarela sinalizando que ela pertence às Forças de Defesa Territoriais.

Foi a primeira vez que o casal se viu desde que a guerra começou no final do mês passado. “É difícil chamar isso de felicidade incondicional nesta situação, mas certamente nos sentimos elevados”, disse Filimonova depois.

O Reverendo Dmitro Karan ajudou a presidir a cerimônia. Suas vestes e cruz estavam sobre seu uniforme militar. A filha do casal, Ruslana, de 18 anos, assistia por videochamada.

Os recém-casados seguravam uma vela fina enquanto Karan passava pelos ritos, que incluíam espalhar incenso e fazer o casal dar as mãos e andar em círculo juntos. Quando a cerimônia ortodoxa chegou ao momento em que uma coroa é tradicionalmente mantida acima da cabeça da noiva, um participante levantou um capacete militar acima dela.

“Como capelão não posso usar nenhuma arma. Então, fico com minhas palavras e orações”, disse Karan em entrevista. “Minhas armas são diferentes, liturgias, confissões, orações ou até cerimônias de casamento como esta.” Ele acrescentou: “Meu dever é estar com os soldados que estão lutando por nossa terra e fornecer apoio espiritual a eles”.

Antes da cerimônia, disse Karan, o casal fez suas confissões. “Eles tentaram purgar seus corações e mentes”, disse ele. “Na verdade, eles realmente queriam se casar.”

Como todo bom casamento, a ocasião também incluía presentes. Um convidado segurava uma chaleira elétrica Philips, um presente conveniente para um casal que trabalha em condições de congelamento na linha de frente. Na caixa, ele escreveu uma mensagem atacando o presidente russo, Vladimir Putin. Outro participante presenteou com uma panela de pressão.

A cerimônia também foi marcada por uma quantidade significativa de patriotismo. Logo após o beijo do casal, a multidão gritou em uníssono: “Glória à família! Glória à família! Glória à Ucrânia! Glória aos heróis! Glória à nação! Morte aos inimigos! Ucrânia acima de tudo!”

Então pétalas de flores começaram a cair de um drone que sobrevoava, e a multidão irrompeu no hino nacional. Os convidados seguravam armas em uma mão e rosas brancas na outra. Um por um, eles foram até Filimonova para parabenizá-la, cada um entregando-lhe uma flor até que ela estivesse segurando um buquê completo.

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