Ameaça de Berlusconi a Monti mostra divisões na Itália

A ameaça do ex-premiê Silvio Berlusconi de derrubar o governo da Itália ressalta profundas divisões no seu partido de centro-direita antes das eleições do ano que vem e arrisca sacudir os mercados, que veem o primeiro-ministro Mario Monti como o salvador da Itália.

PHILI, Reuters

28 de outubro de 2012 | 17h42

Berlusconi fez a ameaça inesperada no sábado, ainda furioso pela sua condenação, 24 horas mais cedo, por acusação de fraude fiscal e uma pena de prisão de quatro anos, que não deverá cumprir até que todos os recursos sejam esgotados.

Durante uma entrevista coletiva convocada às pressas, Berlusconi atacou os magistrados que o condenaram como parte de uma casta de "ditadores" de esquerda, uma acusação mordaz que ele já proferiu muitas vezes.

Mas depois ele apontou a mira contra a política econômica do primeiro-ministro Monti.

"Temos que reconhecer o fato que a iniciativa desse governo é a continuação de uma espiral de recessão da nossa economia. Junto com meus colaboradores, decidiremos nos próximos dias se é melhor retirar imediatamente a nossa confiança nesse governo, ou mantê-la, uma vez que as eleições já estão agendadas", disse.

Apenas três dias antes, quando anunciou que não seria candidato a primeiro-ministro nas próximas eleições, em abril, Berlusconi disse que o governo Monti havia "feito muito" e estava indo "quase sempre" na direção certa.

O governo Monti, composto de tecnocratas não eleitos, é apoiado pelos partidos de centro-esquerda, centro-direita e centro. Ele perderá sua maioria e terá que renunciar, se a maior parte do partido PDL de Berlusconi retirar o seu apoio.

A possibilidade de um colapso do governo antes das eleições marcadas para abril do ano que vem, assustou comentaristas financeiros e políticos, que se preocuparam com a reação do mercado.

"O estrago seria enorme", disse Stefano Folli, editor do principal jornal financeiro diário da Itália, Il Sole 24 Ore. "Estrago em termos de neurose política, ansiedade internacional, ameaças à lei da estabilidade (o orçamento anual), e um descrédito generalizado."

Monti aprovou dolorosos aumentos nos impostos, cortes de gastos e uma revisão das pensões, para reduzir a dívida pública que chega a cerca de 126 por cento do produto interno bruto, de acordo com o FMI.

O desemprego na Itália aumentou para 10,7 por cento, atingindo o seu maior nível desde que os registros mensais começaram, em 2004, e os sindicatos estão brigando com as empresas por causa do fechamento de fábricas e demissões.

Na sexta-feira, os títulos de 10 anos da Itália, estavam rendendo 336 pontos base mais do que o valor do seu similar, emitido pela Alemanha, amplamente visto pela Europa como o mais seguro. Quando Monti assumiu o posto de Berlusconi em novembro, o spread era de cerca 550, elevando os custos de empréstimos para 7,6 por cento.

Berlusconi, cujas festas com aspirantes a atrizes ganharam notoriedade mundial, assumiu um papel em grande parte secundário na política desde que foi forçado a renunciar, mas continua sendo a figura dominante dentro do PDL, do qual é presidente.

Alguns comentaristas políticos disseram que, ao ameaçar Monti, Berlusconi pode estar tentando consertar as relações entre seu partido e a Liga do Norte, de direita. A Liga, uma ex-aliada de Berlusconi, não apoia o governo Monti.

Uma importante indicação da força dos partidos italianos vai surgir na segunda-feira, quando começar a contagem dos votos de domingo na Sicília, para eleger um novo governo regional.

Tudo o que sabemos sobre:
ITALIABERLUSCONIAMEACAMONTI*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.