ANÁLISE-Rússia quer comércio, e não briga, no 'quintal' dos EUA

O envio de navios militares e bombardeiros russos à Venezuela são uma forma de promover a exportação de armas, e não uma tentativa de atrair aliados latino-americanos para uma nova Guerra Fria contra os EUA, afirmaram diplomatas e analistas. Encontrar novos mercados para suas armas tornou-se algo ainda mais importante para a Rússia em vista da crise financeira mundial que derrubou o preço de seu outro grande produto de exportação -- o petróleo. O valor do combustível caiu para cerca de metade do pico atingido neste ano. Nos últimos meses, os russos vêm cortejando intensamente os rivais dos EUA na América Latina. Delegações de alto escalão visitaram Cuba e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, viajou até a Rússia por duas vezes neste ano. O presidente russo, Dmitry Medvedev, visitará Caracas em novembro, mais ou menos na mesma época em que uma flotilha de navios da Rússia chegará ao Caribe para realizar a maior manobra do tipo, na área, desde a Guerra Fria. O interesse do Kremlin na região intensificou-se depois da guerra dos russos contra a Geórgia, em agosto, ter azedado ainda mais a relação do país com os EUA. Alguns consideram as manobras demonstrações de força por parte da Rússia, um sinal de que os russos retaliam pela suposta interferência norte-americana na Geórgia fincando pé no Caribe, algo que -- intencionalmente ou não -- reaviva a memória da crise dos mísseis cubanos. Analistas e diplomatas, no entanto, afirmam que a motivação da Rússia é mais prosaica. "As relações não são determinadas pela política, não há dúvida a esse respeito", afirmou Nikolai Zlobin, do Instituto Mundial de Segurança em Washington. "Quem quer que compre armas é amigo da Rússia." "A visita das embarcações e das aeronaves serve para exibir as armas russas à Venezuela e ao resto do mundo. Trata-se basicamente de uma campanha de propaganda", afirmou Zlobin. Opiniões do mesmo tipo foram repetidas por um importante diplomata do Ocidente lotado em Moscou. Esse diplomata, que mantêm estreitos laços com a América do Sul, discutiu a corrida armamentista com colegas daquela região. "Os países latino-americanos podem importar (armas) e fazer negócios vultosos com os fornecedores de equipamentos militares russos, de forma que Moscou vê ali um mercado atraente", afirmou. Em um encontro oficial realizado nesta semana, Medvedev disse que o valor total dos contratos firmados para a venda de armas russas totalizava hoje 30 bilhões de dólares. "Isso é algo especialmente importante quando uma crise financeira começa a ficar firme", afirmou o presidente. A Rússia vê na América Latina -- especialmente nos países que, como a Venezuela, se afastam da órbita dos EUA -- um mercado em expansão. Segundo um membro do governo russo, 12 contratos de armas avaliados em 4,4 bilhões de dólares haviam sido firmados entre a Rússia e a Venezuela nos últimos dois anos, e os russos forneceriam aos venezuelanos 1 bilhão de dólares em crédito para a realização de novas compras. Entre as armas vendidas aos venezuelanos incluem-se 24 caças a jato Sukhoi, dezenas de helicópteros e 100 mil fuzis de assalto AK-103 Kalashnikov. A Rússia tenta também entrar em outros mercados latino-americanos. A visita de Medvedev à região incluirá escalas no Brasil e no Peru.

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