Após polêmica, cidade francesa suspende spray antimendigo

Prefeito de Argenteuil usava produto para afastar sem-teto das áreas comerciais.

Daniela Fernandes, BBC

29 de agosto de 2007 | 07h21

A decisão de um prefeito na França de utilizar um spray para espantar moradores de rua chocou o país e criou uma polêmica em relação às "soluções" que vêm sendo adotadas para lidar com a fatia da população sem moradia. Georges Mothron, prefeito de Argenteuil, uma periferia pobre e problemática de Paris, determinou o uso de um spray com cheiro fétido, que provoca enjôos e irritações na garganta e nos olhos, para desalojar mendigos instalados nas áreas comerciais da cidade. Diante da indignação de entidades ligadas aos direitos humanos, o prefeito, que é do partido UMP, o mesmo do presidente Nicolas Sarkozy, decidiu suspender a utilização do produto, que tem o nome de ''Malodor''. A oposição socialista reagiu acusando o governo de fazer uma "caça aos pobres". O presidente Sarkozy não se pronunciou sobre o caso. A ministra da Habitação, Christine Boutin, declarou que a utilização do spray "representa um atentado à dignidade humana". A ministra, que afirma ter constatado "que estamos em uma sociedade que não aceita os que incomodam", irá se reunir em breve com os prefeitos que não sabem mais como lidar com o problema dos excluídos nas ruas de suas cidades. Nesta terça-feira, o prefeito de Argenteuil, representantes do governo, dos serviços sociais e comerciantes se reúnem novamente para discutir a questão. Foi também em Argenteuil que Sarkozy fez a polêmica declaração, em outubro de 2005, de que iria acabar com a "ralé", em referência a um grupo de jovens das periferias. A utilização do Malodor não foi a primeira tentativa das autoridades de Argenteuil para espantar os sem-teto. Em 2002, o governo municipal publicou um decreto proibindo mendigar, iniciativa que foi repetida por outras prefeituras. Além disso, várias municipalidades retiraram bancos das ruas, como ocorreu também em algumas áreas nobres de Paris. No metrô parisiense foram instaladas barras entre os bancos para impedir que as pessoas se deitem. O caso em Argenteuil ocorre pouco mais de um ano depois de Paris ter vivido o problema da proliferação de barracas de sem-teto pela cidade. Na época, as barracas foram distribuídas por ONGs para fornecer abrigo a essas pessoas e também como uma forma de alertar as autoridades sobre a precariedade do sistema de moradias populares no país. No ínicio, muitos parisienses apoiaram a iniciativa, mas, com o tempo, passaram a protestar contra a sujeira, o barulho e as brigas muitas vezes causadas por excesso de bebida nos "campings" instalados nas ruas da capital. O problema dos sem-teto está mobilizando os internautas franceses. Após o episódio do spray repulsivo em Argenteuil, surgiram vários blogs para discutir o assunto.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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