Reuters
Reuters

Assassinato de deputada ameniza tom da campanha e reduz risco de Brexit

Campanha para o referendo programado para quinta, 23, teve uma verdadeira escalada de discursos desagregadores e acusações mútuas nas últimas semanas

Fernando Nakagawa, correspondente, O Estado de S. Paulo

18 Junho 2016 | 16h30

LONDRES - O assassinato da deputada Jo Cox mudará a reta final da campanha eleitoral para o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE). Ainda consternados, políticos têm indicado que o tom dos próximos dias deverá ser mais agregador. O luto tem adiado análises sobre o impacto da tragédia na votação. As primeiras indicações, porém, parecem apontar para a queda da possibilidade de Brexit, como é chamada a possível saída.

A campanha para o referendo programado para quinta-feira, 23, teve uma verdadeira escalada de discursos desagregadores e acusações mútuas nas últimas semanas. No grupo favorável à saída do bloco europeu, pitadas de racismo e xenofobia não foram raras. Entre os defensores da UE, sobravam projeções econômicas alarmantes e talvez pouco precisas sobre o futuro pós-Brexit. Isso dividiu o eleitorado em dois grupos pouco permeáveis ao debate.

Com esse cenário ainda muito fresco na memória, a informação de que a deputada Jo Cox foi assassinada por um homem ligado a grupos de extrema direita acabou se transformando em um peso sobre as costas da própria classe política.

Para os britânicos, a foto tirada na sexta-feira do premiê David Cameron ao lado do líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, tem uma importância especial e mostra que o comportamento mudou. Desde o início da campanha eleitoral, essa foi a primeira vez em que Cameron e Corbyn apareceram juntos. Mesmo com a ameaça real de derrota, os dois líderes que pedem voto contra o Brexit não fizeram campanha juntos por algumas diferenças políticas.

Agora, as atenções devem se voltar para Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e uma das principais lideranças pró-Brexit. O carismático político teve uma forte atuação na campanha, sem medo do combate para defender a saída da UE. O político preferiu não se pronunciar nas últimas horas e há expectativa de que também retorne com um tom mais brando - especialmente porque, se o Brexit vencer, ele é cotado como possível primeiro-ministro e a manutenção do discurso belicoso poderia afastar deputados do próprio Partido Conservador em eventual governo.

O esforço das duas campanhas na reta final tem como principal objetivo convencer uma parcela nada desprezível - de um quinto do eleitorado - que admite que pode trocar o voto até o dia do referendo. Segundo pesquisa Ipsos Mori divulgada na semana passada, 20% dos entrevistados afirmam que podem mudar de opinião sobre o Brexit.

Projeções. Ainda não foram divulgadas pesquisas após o assassinato de Jo Cox, mas a primeira indicação vinda do mercado de apostas britânico mostra que diminuiu a chance de saída do Reino Unido.

Levantamento feito pelo Deutsche Bank nas diversas casas de aposta britânicas indica que a probabilidade de o Reino Unido permanecer na União Europeia subiu de 61% para 66% nas horas seguintes ao assassinato da parlamentar. Os números mostram interrupção da trajetória recente que registrava firme queda dessa possibilidade. O cenário é idêntico ao apresentado pela casa de apostas Ladbrokes. As apostas coletadas após a morte de Jo Cox mostravam uma possibilidade de 66% para a permanência na UE e 34% para o Brexit.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.