Atentados em série abrem crise na inteligência francesa

O primeiro-ministro da França rejeitou na sexta-feira as acusações de que lapsos dos serviços de inteligência teriam permitido que um jovem muçulmano com antecedentes criminais matasse sete pessoas neste mês agindo em nome da Al Qaeda.

DANIEL FLYNN, REUTERS

23 Março 2012 | 17h43

Acostumada a enfrentar militantes islâmicos oriundos da Argélia, ex-colônia francesa, os serviços de inteligência da França são tradicionalmente vistos como um dos mais eficazes da Europa. O país passou 15 anos sem sofrer atentados terroristas.

Mas políticos de oposição, inclusive a candidata presidencial direitista Marine Le Pen, sugeriram que erros ou negligências permitiram que Mohamed Merah, de 23 anos, cometesse seus crimes antes de ser identificado, localizado e morto.

Já o premiê François Fillon disse que as agências policiais e de inteligência realizaram um trabalho exemplar.

"Resolver um caso criminal dessa importância em dez dias, acho que é algo praticamente inédito na história do país", disse Fillon à rádio RTL.

Na quinta-feira, o chanceler Alain Juppé pareceu admitir que havia motivos para suspeitar de falhas na segurança. "Precisamos trazer alguma clareza para isso", afirmou.

Merah começou matando três soldados em dois ataques na semana passada, nas cidades de Montauban e Toulouse (sul). Na segunda-feira, ele voltou a agir, assassinando três crianças e um rabino em uma escola judaica.

Antes disso, ele já havia sido colocado sob vigilância pelo serviço de inteligência DCRI, e em novembro foi interrogado sobre duas viagens que fez ao Afeganistão.

"Como o DCRI estava seguindo Mohamed Merah havia um ano, como pode que tenham levado tanto tempo para localizá-lo (depois do primeiro atentado)", questionou François Rebsman, porta-voz de segurança do Partido Socialista, no site JDD.fr.

Abdelkader Merah, 29 anos, irmão do suspeito morto, está sendo interrogado pela polícia e também havia sido colocado previamente em uma lista de observação por ter ligação com a infiltração de militantes islâmicos no Iraque em 2007, segundo funcionários do governo.

Merah, cidadão francês de origem argelina, também conseguiu armazenar um arsenal com pelo menos oito pistolas sob os narizes do serviço de inteligência.

Em Washington, duas autoridades dos EUA disseram que Merah estava em uma lista de indivíduos proibidos de entrar em qualquer avião com destino ao território norte-americano.

SOB VIGILÂNCIA

Segundo Rebsamen, o nome de Merah apareceu no topo de uma lista de 20 suspeitos a serem observados pelo DCRI depois do atentado de 15 de março contra dois paraquedistas em Montauban, perto de Toulouse. Apesar disso, a agência parece ter perdido a pista dele, permitindo que agisse novamente.

Merah só seria identificado como sendo o atirador na terça-feira, um dia depois de matar um rabino e três alunos numa escola judaica de Toulouse. Mas o DCRI -uma "superagência" criada em 2008 pelo presidente Nicolas Sarkozy- já sabia desde 2010 da existência de Merah.

Havia a informação, por exemplo, de que ele havia visitado o Afeganistão naquele ano, quando teria sido barrado em um controle rodoviário da polícia afegã na província de Candahar e devolvido à França por forças dos EUA.

Na segunda visita, no ano passado, ele voltou à França depois de contrair hepatite, segundo o promotor encarregado do caso.

Em novembro, ele foi entrevistado por agentes do DCRI em Toulouse, a quem disse que havia ido passar férias no Afeganistão -chegando inclusive a mostrar fotos, segundo o promotor François Molins.

Já durante o cerco policial, na quarta-feira, Merah disse aos negociadores que havia sido treinado em um acampamento da Al Qaeda numa região tribal do Paquistão, durante a segunda viagem.

Merah foi morto por um franco-atirador durante tiroteio quando tentava fugir do seu apartamento, após 30 horas de cerco. A autopsia mostrou que ele levou vários tiros, inclusive dois letais na cabeça e abdome.

Christian Prouteau, que na década de 1980 criou a força policial especial GIGN, criticou os agentes da unidade Raid, responsáveis pela operação, por não terem sido capazes de capturar Merah com vida.

"Como pode que a principal unidade policial não consiga capturar um homem que está sozinho?", disse ele ao jornal regional Ouest France. "Eles deveriam ter jogado gás lacrimogêneo. Ele não teria durado cinco minutos (antes de se entregar)."

(Reportagem adicional de Thierry Leveque, Gerard Bon e Vicky Buffery)

Mais conteúdo sobre:
FRANCA INTELIGENCIA ATENTADOS*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.