Banco Mundial cria nova linha internacional da pobreza

Instituição afirma que existe 1,4 bilhão de pessoas que vive com menos de US$ 1,25 por dia (cerca de R$ 2,05)

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2008 | 15h22

Um novo cálculo do Banco Mundial aponta que o número de miseráveis cresceu em quase todo o mundo. A nova linha da pobreza, de US$ 1,25, revela que em 1981 havia 1,9 bihão de pessoas vivendo com essa quantia diariamente, ao contrário da antiga margem, que considerava que 1,5 bilhão sobrevivia com US$ 1,00 por dia. De acordo com o novo cálculo, em 2004 havia 1,4 bilhões de pessoas vivendo com US$ 1,25 diários; com a margem antiga, 985 milhões viviam com US$ 1,00. Salvo a China que vem conseguindo resultados positivos no combate contra a pobreza, o mundo continua vendo um aumento no número de miseráveis nos últimos 25 anos, inclusive na América Latina. Até mesmo a Índia, que alegava ser um exemplo de crescimento, demonstra ter um número maior de pobres hoje que em 1981 em termos absolutos.   O recálculo da linha da pobreza foi feito a partir de novos dados obtidos pelos economistas do Banco e que chegaram à conclusão de que a antiga medida de pobreza - US$ 1,00 - não era adequada para avaliar a situação da humanidade. Para a entidade, a elevação da linha da pobreza para US$ 1,25 reflete de forma mais adequada a realidade das populações. A nova medida foi feita com base em estudos que há três anos estão sendo feitos pelos economistas do Banco Mundial. Um número maior de pessoas em 116 países foi entrevistado para que a entidade determinasse a nova linha da pobreza.   O resultado das condições de vida de cada população chocou até mesmo os especialistas. As conclusões são de um em cada quatro habitantes dos países em desenvolvimento devem ser considerados como pobres, vivendo com menos de US$ 1,25 por dia. "As estimativas sobre os preços e renda comprovaram que esses números de quantidade de pobres eram muito baixos", afirmou o banco em um comunicado. Segundo os especialistas, o novo cálculo é baseado na linha de pobreza dos 20 países mais miseráveis do mundo, entre eles Etiópia. "As novas estimativas representam um avanço importante na tentativa de medir a pobreza", afirmou Martin Ravallion, diretor do Grupo de Pesquisa do Banco Mundial.   As estimativas mostram que, em termos percentuais, há certos avanços no combate contra a pobreza. Pelas conclusões da entidade, o número de pobres caiu em 500 milhões de pessoas desde 1981. Naquele ano, a taxa de miseráveis era de 52% da população dos países em desenvolvimento. Hoje, seria de 26%. O problema é que quase a totalidade do avanço ocorre apenas na China. "Os novos dados confirmam que o mundo provavelmente conseguirá atingir a meta de reduzir pela metade o número de pobres entre 1990 e 2015 e que a pobreza vem caindo em 1% ao ano desde 1981", afirmou Justin Lin, economista chefe do Banco Mundial. "Mas a notícia ruim é de que a pobreza é maior que pensávamos significa que precisamos redobrar nossos esforços, principalmente na África", afirmou.   Pelas projeções, mesmo que a meta seja atingida, mais de 1 bilhão de pessoas continuariam ganhando menos de US$ 1,25 por dia. O pior é que, para os que deixaram essa classe social, a nova renda ainda não os permite sair da pobreza nos países de renda média, como o Brasil. No Leste da Ásia, a pobreza foi reduzida de forma profunda e é praticamente o único exemplo de grande sucesso. Em 1981, quase 80% viviam na região com menos de US$ 1,25 por dia.   Em 2005, essa taxa era de apenas 18% da população asiática e a região deixou de ser a mais pobre do planeta. Praticamente todo o avanço que o Banco Mundial aponta ocorreu na China nos últimos 25 anos. Em 1981, 835 milhões de pessoas viviam com menos de US$ 1,25 por dia na China. Hoje, são 207 milhões. Apesar da queda substancial de pobres na China, o Banco alerta que o número de miseráveis no país é maior do que se pensava. Baseado no cálculo antigo, apenas 130 milhões de pessoas na China viviam com menos de US$ 1,00 por dia.   Excluindo a China do cálculo, o número de pobres de fato não diminuiu no mundo. Em 1981, 40% da população vivia com menos de US$ 1,25 por dia. Em 2005, essa taxa era de 29%. "Mas diante do crescimento populacional, esse progresso percentual não foi suficiente para reduzir o número de pobres fora da China", alertou o Banco Mundial.   Entre 1981 e 2005, o número de miseráveis fora da China continuou sendo de cerca de 1,2 bilhão de pessoas. O problema é que, na África, a pobreza continua afetando 50% da população. A taxa é praticamente a mesma de 1981 e pouco progresso foi feito no continente para acabar com a miséria. Em termos absolutos, os números africanos mostram que a população miserável dobrou em 25 anos, passando de 200 milhões em 1981 para 380 milhões em 2005. "Se essa tendência continuar, um terço dos pobres do mundo viverão na África e 2015", afirma o Banco.   Segundo o estudo, o consumo médio de um pobre na África não chega a 70 centavos de dólar por dia. "Dado que a pobreza é tão profunda na África, um crescimento ainda maior será necessário das economias para que tenha algum impacto na pobreza", afirma. No sul da Ásia, os números absolutos também mostram que o total de pobres continua inalterado desde 1981, atingindo cerca de 600 milhões de pessoas. Em termos percentuais, a pobreza atinge 40% da população da região, contra uma taxa de 60% em 1981.   Na Índia, o número absoluto de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 por dia passou de 420 milhões em 1981 para 455 milhões em 2005. Em termos percentuais, porém, os indianos registraram uma queda na pobreza, que hoje atinge 42% da população, contra 60% em 1981.

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