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Barbárie foi além do front na Europa

Documentos enterram mito de que, ao destruir nazismo, Europa acabou com o genocídio

Jamil Chade, Correspondente

10 de maio de 2015 | 03h00

GENEBRA - Passadas as comemorações dos 70 anos do fim da 2.ª Guerra, documentos e historiadores recordam que a rendição alemã em 8 de maio de 1945 não acabou com a barbárie pelo continente e enterram o mito de que a destruição de Hitler pôs um fim definitivo ao terror do conflito.

“Por favor, por favor, ajudem.” A carta desesperada é de uma senhora que, em 1947, dois anos depois do fim da guerra, escreveria ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Genebra para pedir socorro na Polônia ocupada pelos soviéticos. Ela era uma das milhares de pessoas que foram perseguidas ou colocadas em campos de concentração pelo continente após o fim do conflito. 

Documentos obtidos pelo Estado nos arquivos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e em governos do Leste Europeu revelam que uma onda de ódio, violência se seguiu à vitória aliada em Berlim, com denúncias de ataques a vilarejos, retaliações contra inimigos e estupros de civis. Para muitos, a guerra não tinha terminado e o caos era a oportunidade de promover revoluções internas e ganhar acesso ao poder. 


Punição. Em 1945, no dia 27 de novembro, o CICV fazia um exame da situação dos campos de refugiados. “A população alemã foi despossuída, colocada em campos, expulsa por força e impedida de ter alimentos de forma sistemática”, dizia o informe. Nos campos, o jantar e o café da manhã oferecidos se limitavam a uma pequena taça de café para cada alemão. Essa situação se prolongaria por anos. 

Segundo os arquivos, as minorias étnicas em diversas regiões foram as mais afetadas quando a guerra terminou. Em um documento de junho de 1945 do Ministério de Políticas Sociais da então Iugoslávia, o governo ordenava que todos os húngaros e alemães fossem expulsos. Na Polônia, o CICV estimava que, entre 1.º de janeiro e outubro de 1946, 1,9 milhão de alemães saiu do país. Em 1949, eles já chegavam a 3 milhões.

Vários governos adotaram essa política de expulsão de minorias. Ucranianos deixaram a Polônia. A Itália expulsou os eslovenos, os gregos mandaram embora os albaneses e os romenos fugiram da Hungria. Além disso, 14 milhões de descendentes de alemães que viviam em diversos países receberam ordens para deixar os territórios.

Em 6 de fevereiro de 1947, um informe do CICV em Augsburg relata o que ocorreu com os alemães nas áreas ocupadas pelos americanos. “Depois de fichados, aqueles infelizes eram imediatamente expulsos dos campos e entregues às autoridades alemãs. Eles se transformaram, em alguns casos, em motivo de piada e, em outros, estrangeiros odiosos jogados dos campos pelas autoridades, como colaboradores ou como simpatizantes nazistas”, indicou o informe interno.

Numa carta de 21 de agosto de 1947, a CICV de Varsóvia revelava como poloneses estavam abrindo caixões de alemães nos cemitérios para roubar joias. “Custei para acreditar no que me contavam”, escreveu o funcionário da entidade na carta. Num dos cemitérios, centenas de tumbas foram deixadas abertas, com os corpos expostos, depois dos saques. 

Famílias. O caos no pós-guerra levaria anos para ser superado. Numa carta de 16 de setembro de 1948, uma sueca que na época tinha 68 anos, Maria Helsingius, relata ao CICV sua situação em um campo de detenção na Alemanha, na área ocupada pelos americanos. Ela pedia que as autoridades organizassem a transferência de pessoas de mais de 65 anos a outro país.

“Vocês não considerariam nos ajudar a encontrar refúgio na Suíça ou em qualquer outro país fora da Alemanha ou da Áustria?”, pede. “Tudo o que queremos é morrer sem sermos molestados, em um país livre.”

Num informe preparado pela União Internacional para o Bem Estar da Criança e enviado ao CICV, a situação das famílias em janeiro de 1950 ainda era bastante difícil. “Muitos prisioneiros de guerra, especialmente na Rússia, ainda não retornaram as suas famílias. O número dos que ainda não voltaram para suas casas chega a 6 milhões, mesmo depois de muito tempo do Dia da Vitória”, diz o texto. “A segregação contínua das famílias – o pai no front, a mãe na indústria de guerra e as crianças em campos de retirados – tornaram essas reuniões difíceis.” 

No mesmo informe, a entidade revelava que um acordo planejava transferir 6,6 milhões de alemães de países do Leste Europeu, em um movimento que equivalia a mover toda a população sueca. 

Cinzas. Em seu livro A Europa Bárbara, o historiador britânico Keith Lowe também argumenta que o armistício de 1945 não pôs um fim aos crimes de guerra cometidos em vários países europeus. 

“Nossa concepção da 2.ª Guerra não é correta. A ideia de que das cinzas nasceu uma Europa pacífica e unida não é exatamente certa. Não houve um ponto final em um determinado dia. Foi um processo”, disse Lowe ao Estado. “Houve muita revanche, contra vizinhos, contra colaboradores. Muitos países entraram em uma guerra civil não declarada. Comunistas e nacionalistas lutaram por semanas na Itália”, acrescentou. 

Segundo Lowe, apesar de a população estar exausta depois de seis anos de conflito, grupos armados acreditaram que aquela era a oportunidade de promover revoluções internas. 

O ódio contra os alemães, a sede de sangue, o desejo de vingança faziam parte de um contexto explosivo. Na Polônia, as milícias nacionalistas massacraram minorias ucranianas em locais que eram ocupados por essas populações durante séculos. Em resposta, os ucranianos massacraram a minoria polonesa em suas terras. 

“A Polônia foi um exemplo de um lugar onde não existia um governo em vastas áreas do país”, explicou Lowe. “Existia uma espécie de ‘oeste selvagem’, uma terra sem lei.”

Fabrice Virgili, historiador e pesquisador do Instituto de História da Atualidade, aponta que, com o fim da guerra, 20 mil franceses foram acusados de ser colaboracionistas. Milhares tiveram seus cabelos cortados, como forma de denunciá-los em público. Enquanto isso, tribunais populares foram criados em bairros, prevendo pena de morte para quem colaborou com os alemães.

Em Havre, na França, milhares de soldados americanos aguardavam para ser repatriados depois do fim do conflito. Mas o que foi encontrado nos arquivos da prefeitura revela estupros de dezenas de mulheres. “Trata-se de um regime do terror, imposto por bandidos de uniforme”, diz o texto. 

Apenas entre junho de 1944 e maio de 1945, o historiador americano Robert Lilly acredita que 3,5 mil estupros foram cometidos por soldados americanos. 

Cicatrizes. O caos, segundo os historiadores, levaria pelo menos dois anos para ser controlado. Mas, para chegar a esse resultado, todos concordam, o que pesou no final foi a força militar dos EUA na Europa Ocidental e da URSS no Leste. 

“As atitudes foram por vezes brutais”, afirmou Lowe. “Antes de termos uma Europa exemplar e com um sentimento de união, a realidade é que a força militar foi exigida para que houvesse um controle.” 

O processo de criação do embrião da UE, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço não apenas tornou uma nova guerra algo inviável economicamente como acelerou o fim do caos. 

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