Barricadas de Maio de 1968 ainda dividem os franceses

Estudantes de 40 anos atrás protestaram por quebra de regras; hoje tentam impedir reformas de Sarkozy

Steven Erlanger, The New York Times

30 de abril de 2008 | 15h25

Há 40 anos, estudantes franceses engravatados atiraram pedras contra a polícia e exigiram que o duro sistema pós-guerra mudasse. Hoje, a classe estudantil, preocupada com a busca por empregos e a perda de benefícios estatais, marcha pelas ruas pedindo para que nada mude. Maio de 1968 foi um divisor de águas na vida da França, um momento sagrado de libertação para muitos, em que a juventude se uniu, os trabalhadores ouviram e o governo semi-real do general De Gaulle se assustou.   Porém, para outros, como o atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, que tinha apenas 13 anos na época, Maio de 1968 representa a anarquia e o relativismo moral, a destruição de valores sociais e patrióticos que, ditos a grosso modo, "devem ser liquidados". O feroz debate sobre o que aconteceu há 40 anos é algo muito francês. Chega a existir uma luta sobre rótulos - a direita chama o incidente de "evento", enquanto a esquerda afirma que foi um "movimento".   Enquanto a revolta da juventude se tornou generalizada no Ocidente - dos protestos anti-Vietnã nos Estados Unidos aos Rolling Stones em uma descontraída Londres e finalmente a organização terrorista alemã de extrema esquerda Baader-Meinhof - a França foi onde os protestos da geração do baby-boom se aproximaram mais de uma revolução política real, com mais de 10 milhões de trabalhadores em greve, e não só como uma reação contra as regras de opressão sociais, educacionais e de educação sexual.   Para o ator francês André Glucksmann, que ainda é um famoso intelectual, Maio de 1986 é um "monumento, tanto sublime como detestado, que nós queremos comemorar ou enterrar". "É um 'cadáver'", ele disse, "que todos querem roubar um pedaço". Glucksmann, que aos 71 anos ainda tem o cabelo no estilo dos Beatles, escreveu um livro que o seu filho cineasta, Raphael, de 28 anos, chamou de Maio 68 explicado por Nicolas Sarkozy (tradução livre)   Sarkozy, em um afiado discurso de campanha há um ano, enquanto ainda concorria à Presidência contra o candidato socialista, atacou o Maio de 1968 e "seus herdeiros esquerdistas", a quem ele culpou pela crise da "moralidade, da autoridade, do trabalho e da identidade nacional". Ele atacou ainda "o cinismo dos fracassados", os altos esquerdistas.   Em 1968, "A esperança era mudar o mundo, assim como a Revolução Bolchevique, porém foi inevitavelmente incompleta, e as instituições do Estado foram intocadas", disse Glucksmann. "Nós comemoramos, mas a direita está no poder". Como esquerdista, ele afirmou, "este é um Estado em coma mental".   Para Raphael Glucksmann, que liderou sua primeira greve ainda no colegial, em 1995, sua geração carrega a nostalgia por seus pais rebeldes, mas não tem estômago para lutar em tempos tão difíceis para a economia. "Os jovens estão marchando agora para recusar todas as reformas, para defender os direitos de seus professores", ele disse. "Nós não vemos alternativas. Somos uma geração sem atitude".   Os eventos ou movimentos de 40 anos atrás começaram em março, na Universidade de Nanterre, fora de Paris, onde um jovem franco-alemão Daniel Cohn-Bendit liderou as manifestações contra as regras que proibiam que homens e mulheres dividissem dormitórios. Quando a instituição foi fechada no início de maio, a revolta se espalhou pelo centro de Paris, até Sorbonne, onde os estudantes da elite protestaram contra regras antiquadas da universidade, e posteriormente os trabalhadores em grandes fábricas.   Os episódios da barricadas, os confrontos policiais e as bombas de gás lacrimogêneo são valorizadas pelos franceses, recapturadas em cada revista e em muitos livros, incluindo um do fotógrafo Marc Riboud, agora com 84 anos, chamado Under the Cobblestones, em referência ao famoso slogan da época "sob o pavimento, a praia".   Cohn-Bendit, conhecido como Danny le Rouge, pela cor de sua posição política e de seus cabelos, ainda é o responsável por outros slogans da época, como "é proibido proibir" e "viva sem limites e aproveite sem moderação" - com a palavra em francês para aproveitar com um duplo sentido de clímax sexual. A imposição foi especialmente influente em um país em que a pílula anticoncepcional tinha sido autorizada para venda a menos de um ano, lembrou Alain Geismar, outro líder do time.   Geismar, um cientista que passou 18 anos da cadeira - mas depois serviu como conselheiro de Ministérios do governo - escreveu em seu livro Meu Maio de 1968 (tradução livre). Agora com 69 anos, Geismar usa um iPhone, onde coloca o seu catálogo musical formado em grande parte por Mozart. O movimento teve sucesso como "uma revolução social, não política", afirmou. Enquanto o governo do general De Gaulle respondeu com a polícia e mobilizou tropas no caso de os estudantes marcharem até o palácio presidencial, Geismar disse que nunca ocorreu esta idéia entre os líderes estudantis, que falavam de revolução mas nunca tiveram a intenção de promover uma.   Mais significantemente, Geismar notou, o movimento foi "o começo do fim do Partido Comunista na França", que se opôs profundamente com a revolta dos ativistas esquerdistas jovens que não poderiam ser controlados. Os esquerdistas ainda conseguiram um importante caminho ao acabar com a autoridade do partido nos grandes sindicatos industriais. A sociedade de Maio de 1968 "era completamente obstruída", disse Geismar,   "Como um homem divorciado, Sarkozy não poderia ter sido convidado para jantar no Palácio do Eliseu, liderando sozinho e eleito presidente da França", Geismar afirmou. Tanto a vida pessoal e o sucesso político de Sarkozy, com estrangeiros e judeus, "são inimagináveis sem 1968", acrescentou. "Os neoconservadores são inimagináveis sem 1968".   André Glucksmann, que ainda apóia Sarkozy como a melhor opção para modernizar "o dourado museu da França", e reduzir o poder do "Estado sacramentado", está preocupado com o modo como a campanha do presidente atacou os eventos de Maio de 1968. "Sarkozy é o primeiro presidente pós-1968", disse Glucksmann. "Para liquidar 1968, ele teria que liquidar a si mesmo".

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