Bento 16 enfrentará protestos em sua visita à Grã-Bretanha

O papa Bento 16 fará esta semana uma visita à Grã-Bretanha -- apenas a segunda de um papa na história do país -- que deve representar um desafio. A recepção que terá em um dos países mais seculares da Europa vai abranger desde cortesia até indiferença ou mesmo hostilidade.

PHILI, REUTERS

13 de setembro de 2010 | 12h50

Bento 16 chegará ao país após um escândalo explosivo em torno do abuso sexual de crianças por padres em várias nações europeias, das relações conturbadas com os anglicanos e da insatisfação com o fato de os contribuintes estarem pagando parte da conta da visita. Por isso, ele terá um trabalho difícil pela frente no país.

A visita papal de quatro dias, que começa na quinta-feira, vem sendo cercada de controvérsia, e a recepção que Bento terá não deve comparar-se às boas-vindas dadas ao carismático papa João Paulo em 1982.

"Sempre houve protestos em torno de visitas, mas desta vez a contestação parece ser mais ampla", disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi. "Isso faz parte do clima de um país como a Inglaterra, que é pluralista e não mede as palavras."

Os organizadores do Vaticano têm consciência de que o papa, que fará a viagem como chefe de Estado a convite da rainha Elizabeth, vai visitar um lugar onde a história praticamente imbuiu a psique nacional de desconfiança em relação ao papado.

Bento 16 é apenas o segundo papa a visitar o país desde que o rei Henrique 8o fundou a Igreja Anglicana, em 1534, depois da recusa do Vaticano de anular seu casamento com Catarina de Aragão.

Os católicos britânicos só voltaram a ter direito ao voto em 1829 e os membros da família real britânica que se casam com católicos ainda são obrigados a abrir mão do direito ao trono. Quando Bento 16 visitar Edimburgo e Glasgow, na Escócia, e Londres e Birmingham, na Inglaterra, é pouco provável que haja a impressão de um acontecimento histórico, como houve 28 anos atrás.

Embora tenha a mesma posição conservadora em relação a questões morais que tinha seu predecessor, Bento, homem reservado e formal, não possui o carisma que João Paulo usava com maestria para atrair mesmo aqueles que discordavam dele.

João Paulo era um polonês, e seu país, como a Grã-Bretanha, tinha sofrido nas mãos dos alemães na Segunda Guerra Mundial. Ele era um herói anticomunista mesmo entre muitos não católicos, e, quando visitou a Grã-Bretanha, estava na crista de uma onda de popularidade, depois de quase ter sido morto em um atentado em 1981.

Bento 16, que é alemão, não vai contar com essa predisposição em seu favor quando visitar o rebanho minoritário de apenas 5,3 milhões de católicos -- menos de 9 por cento da população britânica --, no momento em que críticas à Igreja e manchetes sobre o escândalo de abusos sexuais vêm chamando atenção indesejada para eles.

"Hoje em dia, na Grã-Bretanha, declarar-se publicamente católico pode ser um convite a críticas", escreveu no The Observer um ex-editor do Catholic Herald, Peter Stanford.

Bento vem sendo criticado por militantes ateus, alguns dos quais sugerem que ele deva ser preso e responsabilizado pelo escândalo de abusos sexuais na igreja.

Protestos estão sendo planejados por secularistas, grupos de defesa dos direitos dos gays e defensores da ordenação de mulheres. O grupo Ordenação de Mulheres Católicas pagou pela colocação de grandes cartazes nos famosos ônibus vermelhos de Londres dizendo "Papa Bento, Ordene Mulheres Agora!".

Pesquisas indicam que a maioria dos britânicos é contra o fato de os contribuintes estarem pagando metade dos custos da viagem, que podem chegar a mais de 20 milhões de libras (30,83 milhões de dólares).

(Reportagem adicional de Avril Ormsby em Londres)

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