Stefan Rousseau/AP
Stefan Rousseau/AP

Blair chama Saddam de 'monstro' e sugere ação contra Irã

Ex-primeiro-ministro considera política de Teerã perigosa e responsável por desestabilização

29 de janeiro de 2010 | 17h30

O ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair questionou nesta sexta-feira, 29, como seria o mundo se Saddam Hussein continuasse no poder em Bagdá, e sugeriu que uma operação militar como a desenvolvida para derrubar aquele regime há oito anos poderia ser conveniente agora contra o Governo do Irã.

 

Veja também:

linkBlair admite ter apoiado invasão dos EUA ao Iraque em 2003

 

Blair compareceu por mais de seis horas diante da comissão independente que investiga a Guerra do Iraque, em um depoimento no qual não houve espaço para a autocrítica nem para o arrependimento e no qual o ex-líder trabalhista optou por aplicar a estratégia de que "a melhor defesa é o melhor ataque".

 

O ex-primeiro-ministro respondeu às perguntas, mas também fez questionamentos para incitar a opinião pública a pensar o que estaria ocorrendo hoje se a coalizão dirigida pelos Estados Unidos, e apoiada pelo Reino Unido, não tivesse invadido Iraque em 2003.

 

"A pergunta não é tanto sobre março de 2003, mas sobre 2010", afirmou o ex-líder britânico, que argumentou que "Saddam ia continuar sendo uma ameaça. Era alguém que desafiava a ONU há 10 anos e não havia razões para pensar que fosse mudar".

 

Blair afirmou que o ex-presidente iraquiano tinha a intenção de voltar a formar um arsenal de destruição em massa e existia o risco que o utilizasse, como o fez contra os curdos, ou que entregasse essas armas a grupos terroristas; por isso, foi preciso usar a força.

 

"Se tivéssemos o deixado no poder e tivéssemos que enfrentá-lo hoje as condições seriam mais difíceis, assim como a obtenção de apoio. Se me perguntarem se estamos mais seguros e melhor sem Saddam e seus filhos, acredito que estamos", indicou.

 

Mas o ex-primeiro-ministro foi além e considerou que os atuais responsáveis políticos ocidentais deveriam ter a mesma preocupação ou maior ainda com relação ao Irã, que desenvolve um programa de armamento nuclear.

 

O hoje enviado especial do Quarteto para o Oriente Médio manifestou que as políticas do Irã produzem um temor maior que as geradas no Iraque de Saddam Hussein, diante do risco que Teerã forneça armas de destruição em massa a grupos terroristas.

 

"Minha opinião, e pode ser que muitos não compartilhem, é que os líderes de hoje têm de tomar suas decisões no sentido que não se devem assumir riscos sobre esse assunto", afirmou. "Hoje tenho um temor maior, pelo que o Irã está fazendo atualmente", declarou Blair.

 

"Obviamente passo muito tempo hoje na região e vejo a maneira a qual o Irã se vincula com grupos terroristas. Este é um assunto para outro dia, mas diria que boa parte da desestabilização do Oriente Médio no presente provém do Irã", disse.

 

Visivelmente nervoso no início do depoimento, Blair ficou mais à vontade à medida que avançou a declaração, na qual só titubeou quando um dos membros da comissão lembrou que a cada mês morrem no Iraque centenas de pessoas por causa da violência.

 

"Os números de mortos são terríveis, mas a pergunta é quem os está matando", questionou Blair, convencido que no Iraque "ninguém quer voltar aos tempos de quando não tinham liberdade".

 

O presidente da comissão, John Chilcott, terminou a sessão perguntando se Blair tinha "remorso" pelo ocorrido. Após uma breve pausa, Blair respondeu: "responsabilidade sim, não remorso por derrotá-lo. (Saddam Hussein) era um monstro que ameaçava não só à região, mas a todo o mundo".

 

Enquanto Blair declarava, dezenas de pessoas, entre elas familiares de soldados britânicos mortos no Iraque, se manifestaram do lado de fora do Queen Conference Center, pedindo a condenação do ex-primeiro-ministro como criminoso de guerra.

Tudo o que sabemos sobre:
Tony BlairIraqueIrãSaddam Hussein

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.