Vickie Flores/EFE/EPA
Vickie Flores/EFE/EPA

Brexit: britânicos vão às ruas contra suspensão do Parlamento

Manifestantes afirmam que manobra do primeiro-ministro Boris Johnson é 'golpe'; líder da oposição afirma que premiê age com desconfiança em relação a parlamentares

Célia Froufe, correspondente

31 de agosto de 2019 | 09h35

LONDRES - Milhares de britânicos estão nas ruas neste sábado, 31, por todo o Reino Unido para protestar contra a decisão do primeiro-ministro, Boris Johnson, no último dia 21, de suspender o Parlamento em favorecimento do Brexit. "Vergonha de você, Boris Johnson", gritam manifestantes reunidos em Bristol, no Sudoeste da Inglaterra, onde estão cerca de 2 mil pessoas, conforme estimativas apresentadas por redes de televisão e jornais. Elas também exclamavam que o premiê precisa ir embora e jograis como: "O que nós queremos? Democracia! Quando queremos isso? Agora!".

De acordo com a imprensa local, são cerca de 30 pontos de protestos neste sábado e um total de 100 considerando também os previstos para ocorrerem ao longo da próxima semana. Um dos pontos de concentração é o portão de Downing Street, rua privada no centro de Londres, que é o endereço do premiê. Organizadores apoiam o uso da desobediência civil durante a onda de manifestações prevista para ocorrer em dezenas de cidades. 

No Twitter, a hashtag mais presente no Reino Unido é #DefendOurDemocracy (Defenda nossa democracia). Nesta e em outras redes sociais, Johnson vem sendo descrito pelos usuários contrários à sua decisão como ditador. Vários internautas também têm colocado fotos e filmes a partir dos lugares onde as manifestações vêm ocorrendo. "Esta é a nossa democracia e não permitiremos que um primeiro-ministro não eleito faça esse assalto ao poder", disse Laura Parker, coordenadora nacional do Momentum, instituição que organiza um dos movimentos, aos manifestantes.

"Ele quer desligar o sistema e se esconder... Nós sabemos onde você mora, Sr. Johnson", disse, em frente aos portões que tornam a rua inacessível à população. Até o momento não foi registrado nenhum incidente de alta gravidade, de acordo com a Scotland Yard.

A decisão de Johnson, que já tinha falado abertamente sobre essa possibilidade durante a campanha para o cargo, se deu um dia depois de o líder do principal partido de oposição ao governo, Jeremy Corbyn, escrever um artigo dizendo que sua estratégia era a de colocar um voto de desconfiança contra o primeiro-ministro na volta dos trabalhos parlamentares. Os deputados estão em recesso de verão.

​“A indignação pública por Boris Johnson ao fechar a democracia foi ensurdecedora. As pessoas estão certas em ir às ruas - e eu encorajo todos a participar das manifestações em Londres e em todo o país”, disse Corbyn na última sexta-feira.

A estratégia do líder da oposição, que acaba sendo esfacelada pela ação do primeiro-ministro levava em conta um processo que deveria desembocar em um novo nome para conduzir o Reino Unido - no caso de Johnson não obter o número mínimo de votos - e, no extremo, antecipar mais uma vez as eleições gerais britânicas.

Entre os vários grupos encontrados nas redes sociais para organizar manifestações, está um intitulado: "Pare o golpe, defenda a democracia”, que estimula a participação da população nesse momento histórico e definitivo para o Reino Unido.

Além de Londres, há protestos previstos em Birmingham, Manchester, Liverpool, Newcastle, Bristol, Glasgow e Swansea. Outros cerca de 100 movimentos são aguardados para ocorrerem ao longo da próxima semana.

Como já temiam uma ação nesse sentido, mesmo antes de Johnson ser escolhido pelo Partido Conservador como o substituto de Theresa May, os deputados votaram uma medida que impediria a suspensão do Parlamento pelo premiê.

Assim, o fechamento do Legislativo só poderia ser adotado se Johnson solicitasse a ação à rainha Elizabeth, que atendeu à demanda para não se colocar politicamente em cena em um ambiente conturbado em relação ao Brexit, como é chamada a saída do Reino Unido da União Europeia. Repelir o pedido seria algo inédito na história do país.

​Entenda o impasse do Brexit

O Brexit foi definido pelos britânicos em um plebiscito realizado em junho de 2016 e tinha data inicial marcada para 29 de março passado. Em meio às negociações de May com a UE, o prazo foi prorrogado por duas vezes e agora está marcado para 31 de outubro.

Ela deixou o cargo após ter sua proposta de acordo com o bloco comum rejeitada pelo Parlamento por três vezes. E, para evitar passar pelo mesmo processo, Johnson decidiu colocar os congressistas de lado.

Desde a campanha, ele diz que o divórcio ocorrerá no dia 31 "com ou sem acordo" entre as partes. Apesar de próximo, o processo do Brexit está altamente indefinido. Não há ainda certezas sobre como se darão os negócios, as transações financeiras e a permanência de cidadãos britânicos que moram no restante da Europa e no fluxo contrário. Principalmente, se a separação se der de forma mais radical, sem um acordo, no chamado "Brexit duro".

A democracia britânica é uma das mais tradicionais e longevas do mundo atual. A Scotland Yard informou que preparou um plano de policiamento "proporcional" às organizações e que "quaisquer incidentes de ordem pública serão tratados adequadamente".

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