Isabel Infantes / AFP
Isabel Infantes / AFP

Britânicos vão às ruas pedir novo plebiscito enquanto Parlamento decide futuro do Brexit

Premiê Boris Johnson pede aos deputados que aprovem o acordo de uma vez por todas e teme que a votação de hoje sofra um novo adiamento

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 08h34
Atualizado 19 de outubro de 2019 | 14h45

LONDRES - O Parlamento britânico se reúne neste sábado, 19, para definir o futuro do acordo do Brexit. Enquanto isso, milhares de pessoas estão nas ruas de Londres exigindo um novo plebiscito, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pede aos deputados que aprovem o tratado de uma vez por todas.

James McGrory, diretor da campanha People's Vote, que organizou a marcha, disse antes do início dos protestos que o governo deve prestar atenção à ira dos pró-europeus e realizar outro plebiscito, agora sobre a adesão à União Europeia (UE). Grupos a favor da saída do Reino Unido do bloco também estão nas ruas, mas em menor quantidade.

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Os manifestantes agitam bandeiras da UE e cartazes pedindo a suspensão do processo do Brexit, que começou com um plebiscito em 2016, no qual os eleitores britânicos apoiaram a saída do Reino Unido do bloco com 52% dos votos. 

Pedido do premiê

Johnson pediu aos deputados que aprovem o acordo do Brexit de uma vez por todas, temendo que a votação deste sábado, um momento histórico, sofra um adiamento, o que agravaria a incerteza a 12 dias da data programada para a saída do Reino Unido da UE.

Depois de retornar triunfante de Bruxelas com um novo acordo que todos consideravam impossível, Johnson deve submeter o texto à aprovação dos deputados para poder retirar o país da União Europeia, como prometeu, no dia 31.

Mas a votação que deve determinar o destino do país, depois de mais de três anos de caos e divisão, está ameaçada por uma emenda, apresentada pelo deputado independente Oliver Letwin, que em caso de aprovação adiaria a adoção do texto. Isto obrigaria ainda o governo a pedir um novo adiamento do Brexit, inicialmente previsto para março e já prorrogado duas vezes.

A política britânica está paralisada por esta "única questão que a Câmara parece incapaz de resolver", afirmou Johnson aos deputados, convocados para a primeira sessão em um sábado desde a Guerra das Malvinas, em 1982. Ele disse ainda que qualquer novo adiamento do Brexit seria "inútil, caro e destrutivo".

A emenda Letwin

A emenda apresentada por Letwin propõe que o acordo não seja adotado até a aprovação de toda a legislação necessária para sua implementação. O deputado afirma que deseja evitar uma armadilha dos eurofóbicos mais radicais: ele teme que estes votem a favor do texto neste sábado e contra a legislação nos próximos dias, o que levaria o país a um catastrófico Brexit sem acordo no fim do mês.

Isto, no entanto, ameaça provocar ainda mais confusão. A iniciativa de Letwin provocaria "mais incerteza, não menos", disse uma deputada.

Se a emenda for aprovada, o governo poderia seguir adiante com a votação do acordo, mas, mesmo no caso de aprovação, sua adoção ficaria suspensa e Johnson seria obrigado a solicitar um adiamento do Brexit.

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Mas o acordo também pode ser rejeitado, como aconteceu três vezes com o texto precedente negociado pela ex-primeira-ministra Theresa May, especialmente dada a oposição do Partido Unionista Democrático (DUP), aliado chave do governo.

Novo acordo

O novo acordo retoma o que foi negociado por May, mas modifica o ponto de maior discussão: como evitar uma fronteira física entre a província britânica da Irlanda do Norte e a República da Irlanda, país membro da UE, para preservar o frágil acordo de paz da Sexta-Feira Santa, que em 1998 encerrou três décadas de conflito violento na região entre unionistas protestantes e republicanos católicos.

O texto atual prevê uma solução técnica complexa, com a qual a província britânica continuaria a ser administrada por algumas regulamentações do Mercado Comum Europeu e permaneceria de fato em uma união alfandegária com a UE, embora permanecesse legalmente na mesma zona aduaneira que o resto do Reino Unido.

A ideia enfrenta uma forte oposição do DUP, que não deseja que seu território receba um tratamento diferente do resto do país. "Deve ser um Brexit para todo o Reino Unido", afirmou o deputado norte-irlandês Nigel Dodds.

Clima de incerteza

Depois de mais de três anos de debate tortuoso, ainda é incerto como, quando ou mesmo se o Brexit se concretizará. Defensores da saída dizem que realizar outra votação sobre o assunto seria aprofundar as divisões e minar a democracia no país. Um grupo de deputados do opositor Partido Trabalhista propôs uma emenda que pede que a aprovação de qualquer acordo seja submetida a um segundo plebiscito.

O desafio para as forças pró-votação é encontrar apoio suficiente no Parlamento. Em abril, quando o governo realizou uma série de discussões sobre as opções para o Brexit, um segundo plebiscito foi a saída mais votada, mas ficou aquém da maioria e perdeu por 292 votos a 280. Mesmo que outra votação fosse realizada, levaria meses para organizá-la e haveria disputas sobre a questão. / AFP, REUTERS e AP

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