AP/ 2007
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'Burquini' é vetado em piscina francesa

Justificativa contra versão dos trajes muçulmanos é que lei proíbe banho de pessoas 'totalmente vestidas'

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2009 | 09h28

Um "burquini", a versão de banho dos trajes muçulmanos que cobrem todo o corpo da mulher, causou um novo embate entre a sociedade francesa e a comunidade islâmica do país. Uma mulher de 35 anos está impedida de usar uma piscina pública na cidade de Emerainville, a 30km de Paris, porque usa o "maiô de banho integral". O prefeito da cidade justifica que a medida foi tomada por respeito ao regulamento das piscinas, que proíbe o banho de pessoas "totalmente vestidas".

 

Muçulmana praticante, Carole - ela prefere não ter o sobrenome divulgado - diz ter decidido usar as piscinas públicas após ter encontrado um modelo de roupa de banho "adequado" às suas convicções religiosas em Dubai, nos Emirados Árabes. Munida do burquini, a mãe de dois filhos decidiu pedir autorização aos centros esportivos públicos para usar a roupa.

 

Em 27 de julho, depois de duas negativas, foi autorizada pela primeira vez em Emerainville. Carole inscreveu-se para 10 horas de curso. "Paguei, fui duas vezes e, na terceira, me disseram que não aceitariam mais o maiô integral."

 

A justificativa dada pelo professor de natação, a pedido da direção do centro, foi de que a vestimenta contraria as normas de higiene das piscinas públicas do país - onde bermudões de banho também são vetados. Julgando-se vítima de preconceito, Carole tentou prestar queixa em delegacias de polícia da região, mas o protesto não foi aceito. "Se (o traje) não estivesse de acordo com o regulamento, não teria sido autorizado desde o início", argumenta, descartando raízes político-religiosas em sua reivindicação. "Quero apenas tomar banho de piscina com meus filhos", diz. "Vou lutar para tentar mudar isso e, se for uma causa realmente perdida, não excluo a possibilidade de deixar a França."

 

Daniel Guillaume, vice-presidente do Sindicato Intermunicipal em Emerainville, defende a proibição: "Esta senhora estava quase que vestida. A direção da piscina aplicou o regulamento, que exige o uso de roupas de banho para homens e mulheres." O prefeito da cidade, Alain Kelyor (UMP, de direita), também disse ver viés político na questão. "Nem mesmo é um maiô de banho islâmico, porque este gênero de maiô não existe no Corão."

 

A polêmica ganhou destaque nacional porque a França discute a proibição do uso da burca, a roupa que recobre inteiramente o corpo das mulheres muçulmanas. A interdição vem sendo analisada na Assembleia Nacional desde 1º de julho. Um parecer deve ser divulgado em quatro meses. Intimado a se pronunciar sobre o assunto, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, mostrou-se favorável ao projeto e afirmou que a burca "não é bem-vinda no território francês".

 

A hostilidade contra as vestes islâmicas é forte na França porque, segundo seus opositores, reduziria a mulher a coadjuvante social, ofendendo a igualdade entre os gêneros. O uso do véu islâmico já é proibido nos estabelecimentos públicos do país há mais de três anos.

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