Estadão
Estadão

Calais vira 'nova selva' e abriga campo de migrantes no coração da Europa

Ponto de concentração de estrangeiros sem documentos nos últimos anos, porto francês é símbolo da explosão migratória vinda do Oriente Médio e da África; jovens sonham com eldorado, mas encontram miséria absoluta

Andre Netto, enviado especial, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 03h00

CALAIS - Escorado no guardrail de uma estrada nos arredores de Calais, Daniel Tekaly, de 20 anos, observava os movimentos da polícia na expectativa de que ainda na madrugada da sexta-feira pudesse tentar furar o bloqueio da segurança e alcançar o Eurotúnel, o canal subterrâneo que liga a França à Inglaterra. Nascido na Eritreia, o estudante deixou seu país há oito meses determinado a não retornar. 

Desde então, cruzou o Sudão, a Líbia, a Itália e a França avançando sobre o deserto, escapando de uma guerra civil, arriscando a vida em um barco de madeira pelo Mar Mediterrâneo, sempre com um objetivo: pisar no território britânico. Determinados a morrer se necessário, por considerarem que não têm nada a perder, jovens como Tekaly desafiaram na semana passada as forças de ordem e escancararam uma realidade: Calais, no extremo norte da França, é o novo símbolo da explosão migratória que desafia a Europa. 

A reportagem do Estado voltou à “new jungle”, um dos piores campos de refugiados do mundo instalado no coração da Europa , e acompanhou as tentativas desses adolescentes e jovens adultos de se infiltrarem na área do Eurotúnel para saber mais sobre esses estrangeiros que tentam todos os dias chegar à Inglaterra. 

A situação em Calais não é nova. Nos últimos 15 anos, o porto francês mais próximo da ilha da Grã-Bretanha é um ponto de passagem de estrangeiros sem documentos que tentam a sorte atravessando o Canal da Mancha. Até dois meses atrás, a via privilegiada era o cais, por onde embarcam e desembarcam centenas de caminhões de carga e de onde partem os navios que fazem a rota entre a França e a Inglaterra. Ao longo dos anos, a imagem de jovens tentando esconder-se dentro ou sob caminhões de grande porte se tornaram corriqueiras. 

A cerca de dois quilômetros dali, proliferaram campos de migrantes, não reconhecidos oficialmente como refugiados nem pela França, nem pela comunidade internacional. 

Sem esse status, os estrangeiros são considerados clandestinos e não contam com apoio da ONU, que estipula padrões sanitários mínimos para seus campos. O resultado é que a principal aglomeração de migrantes em Calais é uma favela com barracos de lona, com dois pontos de água potável, sem esgoto ou energia elétrica. Não por acaso a região ganhou o nome de “new jungle” – ou “nova selva”.

Em meio ao lixo, expostos à miséria e à intempérie e sem condições de trabalho, vivem entre 2 mil e 3 mil pessoas, entre jovens adolescentes, homens e mulheres. Em sua maioria, são oriundos de países como Eritreia, Sudão, Somália, Afeganistão, Paquistão e Síria, que enfrentam guerras, conflitos civis, ditaduras ferozes e a tirania de grupos religiosos ou ainda condições naturais extremas, como a seca, que leva à fome. 

Nos discursos de cada um, afloram as razões pelas quais migrar foi a última alternativa. “O governo da Eritreia é uma ditadura muito dura que impõe aos jovens o serviço militar em condições desumanas. Migrar é nossa melhor oportunidade na vida”, justifica Tekaly.

Para deixar seu país, o jovem já gastou US$ 5 mil acumulados por sua família. Deste valor, US$ 1,5 mil foram usados para cruzar o deserto entre o Sudão e a Líbia, e outros US$ 2 mil para pagar os traficantes de pessoas que exploram a rota entre o Norte da África e a costa da Itália, atravessando o Mediterrâneo. “Vim em um bote de madeira com mais 350 pessoas da Eritreia e da Somália. Queremos ir para Londres para trabalhar e completar nossos estudos.”

Para eles, a Grã-Bretanha é um oásis onde, acreditam, encontrarão empregos, moradias e liberdade. “Na Inglaterra respeitam nossos direitos. Podemos viver, completar os estudos e trazer nossas famílias”, diz o advogado sírio de origem curda William Ali. Aos 31 anos, ele deixou há dois meses a cidade de Kobani – invadida pelo grupo terrorista Estado Islâmico –, cruzou a Turquia, chegou à Grécia e desde então passou pela Macedônia, Sérvia, Hungria, Áustria e Alemanha até chegar à França. Em uma barraca coletiva que divide com até 70 outros compatriotas, Ali mantém a esperança de chegar à Grã-Bretanha e encontrar o eldorado. “Nessa barraca há médicos, farmacêuticos, professores, acadêmicos… Todos fugindo da guerra. Não temos comida, eletricidade e vivemos como animais. Estou cansado e doente, mas viver na Inglaterra é nosso sonho. Há pessoas que se matarão se não chegarem”, diz ele.

As mortes de fato já estão ocorrendo, mas não por suicídio. Em todo o ano de 2014, 15 estrangeiros perderam a vida em Calais tentando meios de cruzar o Canal da Mancha. Só nos últimos dois meses, dez já morreram. O aumento das fatalidades ocorreu porque a França encerrou os trabalhos de cercamento do porto. Desde então, a única opção é invadir o Eurotúnel na esperança de embarcar em um dos trens que levam à Inglaterra. Na semana passada, mais de 5 mil “intrusões” da área fechada de 650 hectares foram registradas. 

Um dos invasores foi Ali A., de 26 anos, sírio de Deraa que deixou seu país há oito meses e há um mês está em Calais. Estudante de literatura inglesa, fugiu porque vinha sendo ameaçado e obrigado a se alistar no Exército e lutar pelo regime de Bashar Assad, o que não aceita fazer. “Eu tenho medo da guerra”, confessa. “Vim para Calais, já tentei passar e vou continuar tentando todos os dias. Todos vamos passar um dia.”


Tudo o que sabemos sobre:
calaisimigração

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.