Ciro De Luca/Reuters
Ciro De Luca/Reuters

Capitão de navio italiano tem apoio em cidade natal

Schettino é acusado de homicídio culposo; ele está em prisão domiciliar perto de Nápoles

estadão.com.br,

20 de janeiro de 2012 | 18h12

Atualizado às 19h01

 

META DI SORRENTO, ITÁLIA - Francesco Schettino, o malfadado capitão do navio Costa Concordia, é talvez o homem mais ridicularizado e desprezado da Itália atualmente, alvo de editoriais angustiados dos jornais identificando-o com a crise nacional e motivo de piadas no mundo todo.

 

Veja também:

linkNavio afunda 7 milímetros por hora

linkCapitão disse que houve apagão a bordo do navio

som OUÇA: Capitão recebe ordens de voltar para o barco

tabela ESPECIAL: O naufrágio do Costa Concordia

Enclausurado na prisão domiciliar em sua cidade, Meta di Sorrento, perto de Nápoles, ele é acusado de homicídio culposo e de ter abandonado a embarcação antes de concluída a retirada dos 4,2 mil passageiros e tripulantes. Uma gravação de rádio feita na noite do naufrágio, em que um oficial da Guarda Costeira o mandava voltar ao navio, transformou esse oficial, Gregorio di Falco, em herói nacional, ao mesmo tempo em que consolidou a imagem de Schettino como um covarde.

 

Mas em Meta di Sorrento, pitoresca cidade com cerca de 8 mil habitantes, pendurada em um morro à beira-mar, e onde praticamente todo mundo tem ligação com o oceano, ele merece muito mais solidariedade. "Eu o conheço de vista e pela reputação. É sempre sério e capaz", disse o ortodontista Giovanni Barbato, de 27 anos, segundo quem muita gente na cidade se sentiu profundamente ofendida pela forma como a mídia retratou Schettino. "Sejamos claros, se ele for responsável, é correto que assuma sua responsabilidade, e, com base em como ele sempre se comportou, ele irá assumir. Mas somos contra essa caça às bruxas midiática", disse Barbato. "Nesta cidade, somos muito sensíveis a essa história, e estamos todos do lado do capitão".

 

Cartazes com os dizeres "Imprensa e televisão, que vergonha!" e "Capitão, não desista" foram colocados em toda a cidade, e parece haver um amplo ressentimento contra o tratamento dispensado a ele. Escondendo o rosto atrás de um guarda-chuva, a mulher de Schettino recusou-se a falar com a imprensa nesta sexta-feira. Muita gente na cidade reluta a dar entrevista revelando o nome, mas não há dúvidas sobre onde estão seus simpatizantes. "O coitado, todos estão contra ele, realmente contra ele. Lamento por ele", disse uma moradora, que pediu anonimato.

'Parte prejudicada'

 

Schettino foi suspenso do emprego, e a empresa Costa Cruzeiros, dona do navio naufragado, se declarou "parte prejudicada" no acidente, que segundo especialistas pode levar à maior indenização de um seguro marítimo na história.

 

O capitão entrou para a Costa Cruzeiros em 2002, como encarregado de segurança, e foi promovido a capitão em 2006, após servir como imediato. "Como todos os capitães na frota, ele participa de contínuos programas de treinamento e preparação, e passou por todos os testes quanto à sua adequação para a função", disse a Costa em nota.

Pelos termos da sua prisão domiciliar, Schettino não pode falar com ninguém, exceto seus advogados e parentes próximos, mas seu advogado disse nesta sexta-feira que ele está preparado para assumir sua parcela de culpa. A Costa Cruzeiros promete prestar assistência a Schettino, mas atribui o desastre integralmente ao capitão, por ter aproximado demais a embarcação da ilha de Giglio para "saudar" a população local.

Em entrevista ao jornal Corriere della Sera, o executivo-chefe da companhia, Pier Luigi Foschi, disse que Schettino já demonstrava "alguns probleminhas de caráter". "Ele era considerado um pouco duro com os colegas. Ele gostava de ser notado", afirmou.

 

'Pior momento da vida'

 

Segundo a Ansa, Foschi afirmou ainda que "este é o pior momento da minha vida depois da morte da minha mãe". Ele disse também que não dorme mais. Na entrevista ao jornal italiano, ele admitiu que houve uma "demora gravíssima" entre o aviso de naufrágio e a evacuação. "Não é normal, não se justifica", disse, negando que o problema tenha ocorrido para evitar o dever de reembolsar os passageiros. "Asseguro absolutamente a vocês que ninguém pensou em termos financeiros. Essa seria uma escolha que violaria nossa ética".

 

O empresário disse acreditar que o capitão estivesse "alterado emotivamente". Em uma crítica direta a Schettino, Foschi disse que "pessoalmente acredito que ele não tenha sido honesto conosco". "A razão pela qual Schettino desembarcou serão apuradas, não tenho elementos para dizer que estivesse lúcido", completou.

 

Com Reuters e Ansa 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.