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Cidade siciliana 'renasce' com a ajuda de refugiados

Imigrantes vêm sendo importantes para evitar que Sutera se tornasse uma 'cidade fantasma'

O Estado de S. Paulo

19 Março 2018 | 10h12

A pequena cidade de Sutera, na região da Sicília, no sul da Itália, estava fadada ao encolhimento ou até mesmo ao desaparecimento. Com a maioria da população economicamente ativa se mudando para cidades maiores procurando trabalho, a idade média de Sutera cresceu, sendo ocupada - na maioria - por idosos, com diversas casas vazias e assolada pelo desemprego.

Segundo reportagem publicada pelo jornal inglês The Guardian, desde o naufrágio de um navio de refugiados em 2013, Sutera vem se tornando um verdadeiro símbolo de integração. Em 3 de outubro daquele ano, 368 pessoas morreram quando um barco que transportava mais de 500 imigrantes - em sua maioria da Eritreia, Gana e Somália, entre outros países africanos - afundou no Mar Mediterrâneo, perto da ilha italiana de Lampedusa. Mais de 360 pessoas morreram.

Com isso, Roma iniciou uma busca por possíveis locais para o enterro das vítimas. Porém, os cemitérios de Sutera já estavam todos cheios. "Como não podíamos fazer nada pelos mortos, decidimos fazer algo pelos vivos", diz o prefeito da cidade, Giuseppe Grizzanti, ao Guardian.

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“Nos anos 70, Sutera tinha mais de 5 mil habitantes” - prossegue o prefeito - “Nos anos 80, caiu para 4 mil e, na década de 90, 3 mil. Todo ano Sutera perdia 300 cidadãos devido ao desemprego. Casas vazias, lojas fechadas e estávamos sob o risco de virar uma cidade fantasma”, afirma Grizzanti. Atualmente, a cidade tem pouco mais de 1,500 habitantes.

Com isso, Sutera passou a integrar um programa de reassentamento e começou a servir de asilo para mais de 50 sobreviventes do naufrágio. Desde 2014, eles passaram a ocupar as casas vazias, movimentar o pequeno mercado da cidade e já estão começando a aumentar a taxa de natalidade no local. Em 2016, sete crianças nasceram em Sutera, sendo seis delas filhas de imigrantes, o que é um grande passo no objetivo de evitar que a cidade desapareça.

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Em 2012, autoridades já cogitavam fechar o complexo escolar da pequena cidade, que contava com mais de 1 mil m² para um corpo escolar de apenas 10 estudantes. Graças ao ingresso de crianças de países como Nigéria, Paquistão e Etiópia, a escola conseguiu sobreviver.

Deborah, 26, nigeriana e vítima de tráfico de pessoas, finalmente se encontrou em uma pequena casa de um andar no vilarejo: "Eu não podia acreditar no que via" - afirma ao Guardian - "No meu país eu não tinha sequer uma cama. Hoje eu tenho até assistência médica", celebra.

“Sutera mostra como o processo de integração não é feito apenas com propósitos éticos, mas também como oportunidade de trabalho para muitos jovens que, sem este projeto, teriam deixado a ilha", afirma Nunzio Vitellaro, coordenador da associação que ajuda a escolher candidatos ao programa.

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Etimologicamente, Sutera vem do grego "soter", que significa "salvação". A cidade, situada nas encostas de uma grande montanha, já havia servido de refúgio diversas vezes em tempos de guerra.

"Aqui lidamos com integração há mais de 2 mil anos" - relembra Gaetano Nicastro, filho de emigrantes sicilianos - "e se Sutera foi a 'salvação' para muitos estrangeiros, bem, adivinhe... Hoje, a verdadeira salvação de Sutera são os refugiados".

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