Crise econômica na Espanha alimenta separatismo na Catalunha

A crise econômica da Espanha está expondo profundas diferenças regionais. Entre os catalães nas avenidas de Barcelona, a conversa é de independência, e o governo central espanhol em Madri está preocupado.

FIONA ORTIZ, Reuters

20 de setembro de 2012 | 14h25

Esta semana, o rei e o primeiro-ministro pediram a união nacional para que a Espanha enfrente sua pior recessão em década. O rei Juan Carlos recordou o espírito que construiu uma democracia após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975.

O ímpeto popular para a independência nunca foi tão forte na Catalunha, uma região rica no nordeste da Espanha, que gera um quinto da produção econômica do país e abriga 16 por cento dos espanhóis.

Mais da metade dos catalães dizem que querem um Estado separado, e centenas de milhares marcharam em Barcelona na semana passada -- na maior demonstração de tal fervor separatista.

Ainda assim, poucos veem uma estrada rápida para uma Catalunha independente, um sonho enraizado na Idade Média, quando Barcelona era um centro de comércio do Mediterrâneo com um Parlamento.

"Vai ser um processo longo e difícil... Para nós obtermos isso eles teriam de realizar um referendo, e eles não vão nos dar isso", disse José Maria Prats, um enfermeiro que se juntou à marcha.

O surto de separatismo catalão está fundamentado na convicção de que Madri está drenando a região financeiramente.

O governo central recolhe a maioria dos pagamentos de impostos, e em seguida, redistribui a 17 regiões autogovernadas da Espanha, que gerem suas próprias escolas e hospitais. Cada ano os catalães dizem que pagam 16 bilhões de euros a mais em impostos do que o governo regional gasta.

"A crise mostrou que o modelo de financiamento regional da Espanha não funciona. Não há dúvida de que precisamos avançar em direção a um sistema federal de tributação", disse José Ignacio Conde-Ruiz, vice-chefe do centro estudos Fedea.

A agitação na Catalunha acontece em um momento difícil para o primeiro-ministro Mariano Rajoy, que está lutando para colocar o déficit da Espanha sob controle e evitar seguir os passos de Grécia, Irlanda e Portugal, que precisaram de um resgate internacional.

DIFERENÇAS PROFUNDAS

Com uma economia do tamanho de Portugal, a Catalunha abriga empresas globais, incluindo a operadora de pedágios, telecomunicações e aeroportos Abertis e a empresa de saúde Grifols.

As crianças são educadas em catalão e o espanhol é tratado como língua estrangeira na região de origem de Joan Miró, Salvador Dalí e Antoni Gaudí. Catalães proibiram as touradas em um referendo em 2010, destacando sua diferença do resto da Espanha.

O presidente catalão, Artur Mas, do conservador Convergência e União, ou CiU, que até a semana passada era um defensor da autonomia, mas não da independência, acabou se alinhando com a opinião pública. Ele diz que vai trabalhar para um referendo assim como o que a Escócia pode realizar em 2014 sobre a quebra da sua união de 305 anos com a Inglaterra.

"Nós seguimos um caminho por 30 anos e agora há uma mudança de direção... A Catalunha precisa de instrumentos de Estado."

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