Crise leva muitos restaurantes portugueses a fechar as portas

A última coisa que os portugueses deixariam de lado é uma refeição calorosa em um dos milhares de restaurantes do país onde podem desfrutar especialidades como leitão, robalo grelhado ou bacalhoada.

AXEL BUGGE, REUTERS

20 de janeiro de 2012 | 12h44

Isso pode estar prestes a mudar com Portugal afundado em sua pior recessão desde que restaurou a democracia nos anos 1970. O país está arcando com duras medidas de austeridade impostas por um resgate de 78 bilhões de euros da União Europeia e do FMI.

Os portugueses agora adotam medidas nunca imaginadas, como pular os tradicionais almoços familiares em restaurantes nos finais de semana e comer sanduíches em suas mesas no escritório, em vez de desfrutar de refeições quentes e completas em restaurantes, geralmente acompanhadas de vinho. O impacto das medidas de austeridade é visível em todo canto.

"Nunca vi nada assim tão ruim nos 18 anos em que estou aqui", disse Rogério Oliveira, cujo restaurante 'O Pote', da cidade Arruda dos Vinhos, tinha fregueses em apenas duas mesas no horário de almoço de um sábado deste mês.

O restaurante de Oliveira, no qual a mulher cozinha e o filho serve as mesas, é um estabelecimento típico português onde o ganha-pão de toda a família está em jogo.

"Tentarei fazer o possível para sobreviver. Isso é tudo o que eu tenho", disse Oliveira, de 59 anos, atrás do balcão do bar onde réstias de alho estão penduradas e vinhos locais enchem as prateleiras.

À primeira vista, os problemas dos pequenos restaurantes de Portugal podem parecer mínimos em comparação aos enormes desafios do país para superar suas enormes dívidas, que vão atingir 105 por cento da produção econômica do país neste ano.

Mas, considerando que restaurantes, cafeterias, bares e padarias, juntos, representam a quarta maior fonte de empregos de Portugal, os problemas nesta área implicam um risco significativo para a economia. Esses estabelecimentos representam 7 bilhões de euros em vendas por ano, o equivalente a cerca de 4 por cento do PIB.

AUMENTO DE IMPOSTO

Isso não impediu o governo de aumentar este mês o imposto agregado sobre restaurantes de 13 por cento para os atuais 23 por cento, jogando sal nas feridas de um setor que já testemunhou uma queda maciça no último ano.

"Não entendemos essa decisão. É simplesmente inexplicável", disse Ana Jacinto, vice-secretária-geral da AHRESP, grupo lobista que representa o setor de hotéis e restaurantes.

"Muitos restaurantes já estão sufocando ou estão tecnicamente falidos. O imposto maior de valor agregado será a gota d'água que os tirará do negócio", disse.

A AHRESP advertiu que 21.000 restaurantes podem ser obrigados a fechar as portas, deixando 45.000 pessoas desempregadas. Há cerca de 90.000 restaurantes em Portugal, empregando cerca de 350.000 pessoas em uma população de 10,5 milhões.

Isso já está acontecendo. Em Arruda dos Vinhos, quatro restaurantes fecharam as portas desde o início do ano e outros estabelecimentos começaram a demitir garçons ou a fechar em todo o país, à medida que os portugueses reduzem o costume de comer fora.

"Em vez de encomendar refeições, as pessoas simplesmente tomam uma sopa ou comem um sanduíche hoje em dia", disse Luis Esteves, gerente de "A Bela Ipanema" em Lisboa. Seu restaurante elevou os preços pela primeira vez em sete anos depois do aumento dos impostos.

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