ALBERTO PIZZOLI/AFP
ALBERTO PIZZOLI/AFP

Crise migratória reergue barreiras na Europa

Em 2014, 283 mil pessoas entraram no bloco de forma ilegal; em dois anos, 740 mil imigrantes ilegais tiveram ordem de expulsão

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA

25 de abril de 2015 | 17h17

No fim do ano passado, cruzes que simbolizavam as vítimas que por décadas tentaram saltar o muro de Berlim desapareceram da cidade alemã durante uma madrugada. Elas haviam sido roubadas por um grupo de ativistas que as colocaram espalhadas pelos novos muros que a Europa ergueu, desta vez contra a imigração clandestina, em suas novas fronteiras. 

O objetivo era o de denunciar o fato de que mais pessoas morreram tentando entrar na Europa desde os anos 90 do que durante toda a Guerra Fria. 

Diante de um fluxo de imigração sem precedentes desde a 2.ª Guerra, governos europeus têm se deparado com uma nova realidade. Enquanto o debate sobre a migração ganhou contornos eleitorais e partidos de extrema direita passaram a defender abertamente o fechamento das fronteiras, o que se viu foi o recurso a uma velha tática que remonta ao período medieval: a construção de muros. 

Em 2014, números da agência de fronteiras da Europa (Frontex) apontaram que 283 mil pessoas entraram no bloco de forma ilegal. Mas é a máquina de deportação que mais evoluiu, até mesmo com o uso de métodos militares, a adoção de dezenas de leis dificultando a permanência de estrangeiros e até programas para financiar a volta de imigrantes a seus países de origem, sob a condição de que prometam que não voltarão a tentar a sorte na Europa. Mesmo partidos que tradicionalmente apoiavam leis mais flexíveis de imigração foram obrigados a endurecer o discurso diante da perda de votos para grupos xenófobos que, com o discurso do medo, passaram a ganhar maior apoio político.

Apenas em três anos, dados oficiais apontam que a UE expulsou ou impediu a entrada de 1,1 milhão de estrangeiros e 367 mil barrados e proibidos de cruzar as fronteiras. Além disso, 740 mil imigrantes que estavam de forma irregular na Europa receberam ordens de expulsão entre 2012 e 2014. “A Europa construiu um forte para se proteger da imigração”, acusa o geógrafo francês Philippe Rekacewicz. 

Mas o temor dos europeus é de que entre 500 mil e 1 milhão de pessoas estejam aguardando um momento para cruzar o Mar Mediterrâneo. De fato, com o Norte da África e o Oriente Médio vivendo um caos – guerra na Síria, conflito no Iêmen, a situação dramática na Somália e a pobreza em vários países africanos –, a ONU não esconde: o fluxo de imigrantes não vai acabar tão cedo. “Vivemos uma crise de imigração e essa onda não vai ceder por enquanto”, disse Volker Turk, diretor da Divisão de Proteção do Alto-Comissariado da ONU para Refugiados. 

Vinte anos depois de desmontar a barreira que separava a Bulgária do Ocidente e retirar minas terrestres, o país está erguendo um novo muro. Desta vez, ele não serve para a impedir a saída de pessoas, como nos anos do comunismo. Mas para evitar a entrada de imigrantes em uma economia que, agora, passou a fazer parte da UE. Com um custo de 45 milhões, o muro marca a fronteira entre o bloco e a região de passagem para milhares de sírios, iraquianos, palestinos e até chineses. 

Mas o muro na Bulgária apenas passou a ser construído depois que as autoridades se deram conta de que uma outra barreira, construída na fronteira entre Grécia e Turquia em 2013, não havia impedido a entrada dos estrangeiros, que simplesmente mudaram de rota. 

O modelo usado pelos gregos era o da Espanha que, a partir de 2005, ampliou a cerca que existe na fronteira de Melilla. Hoje, 12 km de barreiras tentam impedir a entrada de estrangeiros no enclave espanhol. 

Sob pressão dos europeus, o governo do Marrocos também ergueu uma barreira, na esperança de conter o fluxo de imigrantes da África Subsaariana, que usam o território no Norte da África para chegar à Europa.

Outro exemplo é o da Ucrânia. Há cinco anos, a UE criou um de seus sistemas mais sofisticados de controles de fronteiras, em pontos de passagem entre a Eslováquia e a Ucrânia para evitar a entrada de estrangeiros. Hoje, é o governo de Kiev que usará os fundos europeus destinados ao desenvolvimento para erguer um novo muro, agora na fronteira com a Rússia. 

Em seu informe, a Frontex não esconde suas dificuldades: “Os 6 mil quilômetros de fronteira terrestre da UE com Bielo-Rússia, Moldávia, Ucrânia, Rússia e seus membros do Leste apresentam um desafio significativo para o controle fronteiriço”. Nos últimos anos, o orçamento da UE destinado ao controle das fronteiras se multiplicou. Em 2005, por exemplo, o investimento com a Frontex era de 6 milhões de euros. No fim de 2014, o volume foi de 90 milhões. No total, o orçamento atual da Europa para proteger suas fronteiras supera a marca de 340 milhões, até mesmo com uso de satélites e drones. “Esse não é mais um tema apenas de imigração. É de geopolítica”, indicou o diretor-geral da Frontex, Fabrice Leggeri. 

Para a entidade cultural alemã Centro para a Beleza Política, responsável pelo roubo das cruzes em Berlim, a realidade é que depois da Guerra Fria, os novos muros europeus já mataram mais que aquele que dividia o bloco comunista do capitalista. Segundo os ativistas, foram 30 mil mortos desde 1991 e 245 vítimas tentando saltar o Muro de Berlim entre os anos 60 e o fim da Guerra Fria. 

Para Cesy Leonard, representante dos ativistas, a Europa adota hoje uma atitude “cínica” diante do mortos que tentam entrar no bloco: “Apenas podemos homenagear os que morreram no Muro de Berlim se pensarmos também nas novas vítimas dos muros”. 

Na ONU, a preocupação vai além da questão simbólica. Para a entidade, os muros dificultam aqueles imigrantes que precisam de proteção e de um acesso para apresentar pedidos de asilo. Segundo o Acnur, dos 36 mil estrangeiros que chegaram à Europa pelo Mediterrâneo este ano, 8,8 mil eram refugiados sírios.

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