DEPOIMENTO-Uma história da Áustria que eu não queria acreditar

Elisabeth Fritzl ficou em cativeiroem um cubículo sem janelas na Áustria pelo mesmo tempo que euestou viva. Quando ela escapou, contou à polícia sobre os 24 anos quepassou como prisioneira sob a casa da família, período no qualela deu à luz sete filhos de seu pai, Josef. Coube a mim viajar à pequena cidade de Amstetten, no norteda Áustria, para contar a história. Eu duvidava de que ela eraverídica. A construção cinza de concreto abaixo da qual Fritzl, de 73anos, escondia os seus abusos, fica a 10 minutos a pé da praçacentral da cidade, pavimentada com pedras claras e ornamentadacom flores. Sua fachada parda localiza-se em uma movimentadaestrada que leva às ricas colinas verdes. Na mesma via, a alguns quarteirões, crianças brincavam emum jardim aberto e adultos aqueciam-se em espreguiçadeiras sobo sol. Mas era os fundos da construção que todos queriam ver. "Éali. Um espetáculo sanguinário", indicou-me um cinegrafista,apontando para uma vistosa rua residencial com casasenfileiradas nas cores rosa, creme e branca. Um helicóptero sobrevoava o local e eu caminhei pela rualotada de vans de emissoras de televisão para transmissão viasatélite e jornalistas, cabos pretos e moradores pasmos olhandosobre os muros do jardim. Eu esperava que os residentes ficassem constrangidos aofalar comigo. Mas todos queriam pronunciar-se. A todo momento.Olhando meu notebook, as pessoas me abordavam até quando euestava na fila para ir ao banheiro ou ajoelhada na calçada. "Eu acho que devo tê-lo visto uma vez", sussurrou umasenhora elegantemente vestida. "Você já viu as crianças? Comoelas se parecem?", perguntou outro transeunte. Ao lado da casa, eles se enfileiravam para aparecer emfrente às câmeras. ESTRELAS DE PAPEL Conversei com pessoas na via onde ficava a casa de Fritzl,em uma rua cheia de bares, em uma floricultura e em um estúdiode tatuagens. Muitos foram amistosos, como uma gerente de hotel quedescobriu que eu não estava em Amstetten a passeio, mas simpara bagunçar o saguão do estabelecimento com minhas anotações. Durante três dias, entendemos como Fritzl queimou o corpode uma das crianças em um forno depois de ela ter morrido poucoapós o nascimento. Descobrimos como ele forçou sua filha aescrever uma carta pedindo que não a procurassem. Soubemos comoas paredes do porão foram decoradas com estrelas de papel. CONCRETO REFORÇADO No pequeno portão de metal nos fundos, um policial cansadode responder às mesmas perguntas desagradáveis me deu umaolhada repreensiva. Sim, o cubículo é lá embaixo por atrás, enão, eu não vou deixar você ver a entrada do local. Como todos, eu queria saber como Fritzl conseguiu escondersua filha e três das suas crianças por tanto tempo no porãoespecificamente construído. Ele tinha uma porta de concretoreforçado, escondida atrás de prateleiras. Em alguns lugares, ocubículo não tinha altura maior do que 1,70m. Nas disputadas coletivas de imprensa, feitas em pequenoshotéis familiares, as autoridades pareciam abaladas. Eu sentipena do médico da família, menos à vontade do que os outros aose inclinar e murmurar nos microfones. Ele parecia genuinamente satisfeito ao descrever a festa deaniversário improvisada para uma das crianças na clínica, e oespantoso primeiro encontro entre as duas famílias de Fritzl. Mas um comentário do investigador Franz Polzer foiinesperadamente revelador. Questionado sobre a relação dascrianças com os pais e a filha, ele fez uma pausa antes dedizer: "Você pode esclarecer sua pergunta?" Eu entendi o problema. Eu já tinha rabiscado a árvoregenealógica da família Fritzl em um pedaço de papel para não meconfundir mais. Josef não era apenas o pai e avô das crianças,como também Elisabeth era irmã de seus filhos. Quatro dias após chegar em Amstetten, eu estava aliviadapor voltar a Viena. Eu contei isso para o meu pai ao telefone echorei. * Sylvia Westall começou a trabalhar como correspondentetrainee para a Reuters em Londres, em 2006. Trabalhando emBerlim e Viena nos últimos oito meses, ela viajou a Amstettenpara cobrir a história de Josef Fritzl, que manteve a filha emcativeiro por 24 anos e teve sete filhos com ela.

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