AFP PHOTO / LLUIS GENE
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Depois da saída de empresas, Madri diz que turismo na Catalunha sofre com tensão política

Capital teme que impacto no setor afete o crescimento do país como um todo; banco central espanhol já cogita a hipótese de recessão na região

Célia Froufe, Madri

05 Novembro 2017 | 09h45

Responsável por cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) espanhol, a Catalunha passa por mais um baque econômico desde que foi iniciado o movimento separatista na região. Depois de várias empresas - a imprensa local fala em mais de 2 mil - terem anunciado a transferência de suas sedes da comunidade autônoma para outras partes do país, agora é o turismo o setor mais afetado na região. Madri, que tem feito de tudo para evitar a secessão, utiliza números desse mercado, obtidos com hotéis e agências de viagens, para evidenciar o impacto da corrida pela independência sobre a economia da região. O temor é o de que acabe por afetar o crescimento do país como um todo e o Banco da Espanha (o banco central do país) já cogita a hipótese de recessão na região. Alguns indicadores revelam que o setor de turismo teria começado a fraquejar.

Crise política causa ‘fratura social’ na Catalunha e afasta parentes e amigos

Depois de uma reunião ministerial neste final de semana, o ministro da Educação, Iñigo Méndez de Vigo, disse que a região se tornou a terceira comunidade autônoma com a menor ocupação hoteleira durante "las puentes de Pilar", o que, no Brasil, é conhecido como "emendar o feriado". Neste caso, o feriado seria em 12 de outubro (Virgem de Pilar) e a maior parte das escolas suspende as aulas. De 12 a 15 de outubro, a ocupação na Catalunha foi de 76%, de acordo com a pesquisa Occupatur, realizada pelo Ministério da Energia e Turismo, enquanto nos anos anteriores liderou as taxas de todo o país com lotação de cerca de 90%. A taxa registrada neste ano também ficou abaixo da média para toda a Espanha, de 84%.

Os dados revelam ainda que a ocupação hoteleira em Barcelona era de apenas 72%, enquanto a média das demais grandes cidades espanholas ficou em 85%. O governo catalão também apresentou números preocupantes na área, como o de que 57% dos hotéis da cidade afirmaram que suas atividades têm sido afetadas pela situação atual. A situação se deteriorou na região desde 1 de outubro, quando uma consulta pública, considerada ilegal pelo governo central, apontou que 90% dos cerca de 43% de eleitores que participaram do plebiscito votaram pela separação da Catalunha da Espanha. Na semana seguinte, 73,5% dos hotéis da região garantiram que suas operações foram afetadas pelo movimento.

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O processo de independência da Catalunha, que teve o status de comunidade autônoma suspenso pelo primeiro-ministro, Mariano Rajoy, já levou à prisão de membros do governo local, ao anúncio da antecipação de eleições para dezembro e a um mandado de prisão internacional para Carles Puigdemont, o presidente destituído da região e principal líder do movimento separatista, que foi para Bruxelas quando Madri decidiu atuar de forma firme contra a corrente de secessão.

A população local foi às ruas defender a independência e uma grande manifestação está marcada para o próximo domingo (12). Na capital Madri, no entanto, as fachadas dos prédios estão lotadas de bandeiras espanholas, o que mostra que a população é a favor da unidade do país. Enric Millo, delegado do governo da Catalunha (figura que representa o governo dentro de uma comunidade autônoma) avaliou que o processo tem afetado de forma mais significativa o turismo na região do que os ataques terroristas que mataram 16 em agosto em Barcelona e Cambrils, além de ter ferido centenas de outras pessoas. Logo após os atentados, 48% os hotéis reclamavam que o episódio havia influenciado em suas atividades. Estes dados são apurados todas as semanas pela Secretaria de Estado de Turismo.

A resposta do setor hoteleiro para atrair turistas tem sido a redução dos preços, que supera os 20%. A reação foi necessária, conforme relatam os gerentes dos estabelecimentos, porque uma a cada dez reservas tem sido cancelada. Habitualmente, a taxa não passa dos 6%.

Outro dado mostrado por Madri para evidenciar que o movimento prejudica a área turística é o do Ministério do Desenvolvimento. Até meados de agosto, as expectativas eram de que as reservas de voos internacionais cresceriam 10% de 1 de setembro a 30 de novembro. Desde então, no entanto, diminuíram ao ponto de ficarem negativas em 0,8%. 

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