Desgaste de líderes na Escócia torna imprevisível eleição britânica de 2015

David Cameron, Ed Miliband, Nick Clegg, chefes dos três maiores partidos britânicos, saem desacreditados das urnas escocesas, apesar da vitória dos unionistas; confiança em Londres cai entre eleitores e cresce perspectiva de novo triunfo sem maioria

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO

20 de setembro de 2014 | 16h40

A campanha que quase resultou na independência da Escócia na quinta-feira abalou o cenário político da Grã-Bretanha. Líderes dos dois maiores partidos do Parlamento, David Cameron, atual primeiro-ministro, e Ed Miliband, saíram contestados pela opinião pública e tanto conservadores quanto trabalhistas têm chance limitada de obter na eleição de maio de 2015 maioria absoluta para governar em Westminster.

Segundo cientistas políticos britânicos, o abalo causado pelo impasse até o fim do plebiscito escocês afetou os dois favoritos. Pressionado pela perspectiva de entrar para a história como o primeiro-ministro que perdeu a Escócia, Cameron foi obrigado a fazer campanha em cima de sua própria impopularidade.

“Se você não gosta de mim, eu não estarei aqui para sempre. Se você não gosta deste governo, ele não durará para sempre”, disse o premiê, na semana passada, ao eleitorado escocês, que em geral o detesta. Miliband foi perseguido e assediado por militantes favoráveis à independência enquanto fazia campanha pelo “não”, protagonizando uma cena constrangedora de fuga da multidão em um shopping center de Edimburgo.

“Cameron escapou de ser o primeiro-ministro que perdeu a Escócia e é quase matematicamente impossível que os conservadores conquistem uma maioria absoluta. Já Miliband perdeu o controle sobre os eleitores trabalhistas, que em mais de 70% apoiaram a independência”, disse ao Estado Daniel Kenealy, diretor adjunto do Departamento de Governança da Universidade de Edimburgo.

O resultado provável da perda de prestígio dos líderes, apontam analistas, deve ser a fragmentação do voto em 2015. Essa tendência cresce na Grã-Bretanha desde a eleição de 2010, a primeira desde 1974 a ter “hung Parliament”, quadro em que nenhum partido obtém maioria dos assentos para governar.

Cameron teve de negociar um inédito governo de coalizão com Nick Clegg, líder do Partido Liberal-Democrata, para bater o então premiê em busca de reeleição, Gordon Brown.

Projeções de John Curtice, cientista político da Universidade Strathclyde, com base em diferentes pesquisas de opinião, indicam que, se as eleições gerais fossem agora, Cameron perderia o cargo e Miliband assumiria como premiê. Os trabalhistas teriam 341 assentos em Westminster, contra 252 dos conservadores, 27 dos liberais e 30 de outros partidos. Essa hipótese daria a Miliband a possibilidade de formar um governo de maioria com pelo menos 32 deputados a mais do que o mínimo necessário.

“Pesquisas indicam que os trabalhistas seriam capazes de conquistar o governo com até 35 ou 36 cadeiras de vantagem em Westminster”, afirma Kenealy, que considera, porém, Miliband um dos grandes perdedores do plebiscito”. Isso porque Cameron costura uma proposta de reforma constitucional que aumenta os poderes do Parlamento da Escócia, agradando a opinião pública local, mas exige que os 47 deputados escoceses não votem mais no Parlamento britânico.

Na prática, o projeto tira da eventual base de sustentação de Miliband a bancada do Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês), que hoje tem 41 deputados em Londres aliados aos trabalhistas. No pior dos cenários, Miliband não alcançaria mais uma maioria absoluta, dependendo de um eventual acordo com os liberais - hoje aliados dos conservadores.

“Se os deputados escoceses puderem votar, os trabalhistas poderão compor uma maioria. Se não, faltarão deputados aos trabalhistas e haverá um ‘hung Parliament’ nas eleições de maio”, advertiu John Curtice ao jornal The Independent.

Para Patrick Dunleavy, cientista político da Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres (LSE), “há uma boa chance de o único resultado viável em 2015 ser um governo minoritário”, o que prolongaria a crise política britânica.

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