PascalRossignol/REUTERS
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Disputa entre pai e filha ameaça extrema direita francesa

Com votação abaixo da esperada na última eleição, Frente Nacional se divide entre velhos ou novos preconceitos

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

25 de abril de 2015 | 17h36

Depois de obter escores abaixo do previsto por institutos de pesquisa nas eleições departamentais da França, a Frente Nacional (FN), partido de extrema direita capitaneado pela família Le Pen, está em meio a crises que podem até resultar na sua implosão. Além de um impasse ideológico em torno do euro e da União Europeia, o patriarca Jean-Marie Le Pen voltou a carga e fez declarações de cunho antissemita e racista, o que levou sua filha, Marine Le Pen, a anunciar o rompimento de relações. 

A crise política no interior do FN começou com as eleições locais de 22 e 29 de março, nas quais o partido, que alegava ser o “número 1 da França”, não venceu em nenhum dos 100 departamentos do país. O desempenho provocou críticas entre dirigentes sobre uma das maiores bandeiras econômicas da agremiação: a saída unilateral do euro, que tem a oposição da maioria esmagadora dos franceses. 

Depois de esquecer a promessa de abandonar a União Europeia em caso de conquista do Palácio do Eliseu, dirigentes do partido agora questionam a promessa de abandonar a zona do euro, deixando a moeda única. O problema: pesquisas indicam que há mais do que o dobro de apoiadores do euro do que detratores.

Reformas no partido parecem irritar o patriarca, Jean-Marie Le Pen, que tem concedido entrevistas nas quais volta às bandeiras antigas do partido extremista, reafirmando sua xenofobia e racismo e minimizando o Holocausto na 2.ª Guerra.

Em busca da ampliação de seu eleitorado, Marine Le Pen chegou a defender a saída de seu pai do partido. “Ninguém entenderia se houvesse no FN personalidades que possam expressar um pensamento que seja pessoal e contrário aos seus estatutos”, argumentou em entrevista à rede de TV TF1. 

A resposta não tardou. Jean-Marie acusou Marine de estar aderindo ao sistema político francês, dominado pelo Partido Socialista (PS, centro esquerda), do presidente François Hollande, e pela União por um Movimento Popular (UMP, centro direita), do ex-presidente Nicolas Sarkozy. “Marine Le Pen está dinamitando sua própria formação”, advertiu. “Uma Frente Nacional dócil não interessa a ninguém”, alegou Jean-Marie Le Pen em entrevista à rádio RTL, de Paris.

As declarações foram interpretadas por analistas políticos como prova de que o patriarca não pretende abandonar o FN, e, ao contrário, pretende disputar a hegemonia do partido. Uma divisão Frente Nacional em dois partidos, um radical de extrema direita, outro mais moderado, não é excluída por alguns especialistas.

Jean-Yves Camus, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), não acredita que o fundador será desfiliado, mas que perderá influência. Temas caros ao pai, como a 2.ª Guerra, o regime colaboracionista francês de Vichy – do qual ele é defensor – e o negacionismo do holocausto não fazem parte da narrativa política de hoje. “Marine Le Pen faz política em 2015, falando dos problemas dos franceses como o desemprego, a imigração e o poder de compra”, explica. 

Entre analistas políticos, a dúvida é se a crise entre pai e filha pode mesmo representar um fim ao FN ou, ao contrário, catapultá-lo nas eleições presidenciais de 2017, abrindo a possibilidade de conquista de novos eleitorados com o exílio da “ala dura” do partido.

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