Economia enfraquecida faz líderes no Reino Unido hesitarem em propostas

Preocupação fundamental é com déficit público britânico, que já chega a 12,3% do PIB

Nívea Terumi, do estadão.com.br

29 de abril de 2010 | 14h04

SÃO PAULO - A reviravolta que atinge as eleições gerais do Reino Unido, com a ascensão histórica de um terceiro partido com reais chances de competir com os tradicionais trabalhistas (do atual primeiro-ministro Gordon Brown e seu antecessor, Tony Blair) e conservadores (cujo líder e candidato à sucessão de Brown é David Cameron), reflete a situação delicada em que vive o país. A fragilidade da economia é o denominador comum da maioria das incertezas que pairam sobre o próximo governo.

 

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Os dois principais partidos têm se apresentado como os mais preparados a lidar com a recuperação da economia britânica, que sofre com o alto índice de desemprego e a estagnação da atividade. As principais discussões giram em torno da reforma fiscal necessária para combater o grande déficit público - ele já chega a 12,3% do PIB (número somente ultrapassado pelo déficit grego, que atingiu 13,6% do PIB em 2009), ou 170 bilhões de libras (cerca de R$ 470 bilhões) - e o sistema nacional de saúde, o qual os britânicos temem seja afetado pelo inevitável corte de gastos.

 

No entanto, como nota a revista britânica The Economist, o componente que mais deve pesar nessas eleições será a impressão de competência que os candidatos passarão ao eleitor. A capacidade de liderar a economia de forma habilidosa será crucial ao novo primeiro-ministro do país. E a sequência de três debates televisivos até a data das eleições, em 6 de maio, deverá consolidar a decisão dos britânicos na corrida eleitoral mais indefinida das últimas décadas.

 

Trabalhistas - em defesa do Estado na economia

 

Gordon Brown, atual primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista desde junho de 2007, tenta a continuidade no governo sob críticas de não ter enfrentado de forma contundente a deterioração das contas do governo. Além do déficit recorde, a dívida do Reino Unido, que em 2006 representava 42,9% do seu produto interno, está em 71,4% do PIB.

 

Os trabalhistas tem relutado em iniciar imediatamente a contenção das despesas. Segundo Brown, a manutenção do emprego e a recuperação da economia ainda titubeante motivam o início do plano de redução nos gastos públicos apenas no próximo governo (apesar de a taxa de desemprego ter atingido seu maior nível em 14 anos, a 8%).

 

Apresentado em março pelo ministro das Finanças, Alistair Darling, o plano pretende reduzir pela metade o déficit público em quatro anos. Darling propôs um corte de 11 bilhões de libras (cerca de R$ 30 bilhões) no setor público (11,9% do orçamento), sendo a Saúde a área mais afetada, com 4,35 bilhões de libras (aproximadamente R$ 12 bilhões).

 

Além disso, o Banco da Inglaterra (banco central do país) tem mantido sua taxa básica de juros no nível histórico de 0,5% ao ano desde março de 2009. Mesmo assim, a economia não tem dado sinais fortes de resposta ao estímulo monetário: em 2009, o PIB recuou 4,9%. No primeiro trimestre deste ano, a economia cresceu 0,2% sobre o trimestre anterior, número abaixo das expectativas do mercado.

 

No campo das promessas, os trabalhistas têm assumido um discurso de defesa dos serviços públicos cruciais, como o aumento real das despesas com educação até março de 2013, apesar dos esforços do governo para reduzir seu orçamento.

 

Conservadores - discurso radical

 

O conservador David Cameron entrou na disputa pelo cargo de premiê como favorito e prometeu uma "era de austeridade" em seu governo. Para tanto, o líder da oposição defende um corte radical nos gastos do governo, apesar de não dizer em números de quanto ele seria (após a divulgação do plano de corte no déficit público por Brown, os Conservadores propuseram um corte extra de 6 bilhões de libras - R$ 16 bilhões - no período fiscal 2010/2011).

 

Em posição antagônica aos trabalhistas, Cameron vê com ceticismo a interferência do Estado em questões como a política industrial. Para ele, o inchaço da máquina pública ao longo de três governos Trabalhistas é o maior motivo da atual estagnação da economia britânica.

 

Seu porta-voz para assuntos econômicos e provável ministro da economia num eventual governo conservador, George Osborne, defende o congelamento dos salários do funcionalismo público durante um ano, o adiamento da aposentadoria pública em também um ano e a redução do crédito tributário à classe média. Tais medidas combateriam a excessiva expansão do setor público, auxiliada pelos antigos funcionários dos bancos estatizados ao longo da crise financeira.

Autoproclamado candidato da mudança, Cameron tem redirecionado seu discurso para um tom menos duro, diante dos temores de uma reforma fiscal muito severa de um eventual governo conservador.

 

Liberais democratas surpreendem

 

O líder do Partido Liberal Democrata, Nick Clegg, apresenta-se como o candidato que "corre por fora". Ex-membro do Parlamento da União Europeia, Clegg defende, assim como seu partido, uma maior integração com os países do continente.

 

Apontado pelos candidatos opositores como líder econômico despreparado, Clegg tem como braço forte seu porta-voz do Tesouro, o ex-economista-chefe da Shell Vince Cable. Tido como racional e perspicaz, Cable desfruta de grande popularidade entre os britânicos. Seus discursos têm forte apelo populista, como a condenação inflamada contra os bônus e salários pagos no setor financeiro.

 

A respeito dos gastos públicos, os liberais democratas defendem que os cortes sejam feitos em todos os setores da sociedade, em contraposição ao que têm dito os Trabalhistas e os Conservadores. Apesar de dizer o contrário, assim como seus rivais políticos, Clegg não mostra como, de fato, irá cortar as despesas do inchado governo britânico.

 

A gravidade do déficit fiscal e a urgência em se fazer cortes no orçamento do governo são tão preocupantes no Reino Unido que o jornal britânico Financial Times publicou em seu site uma tabela que propõe ao leitor escolher quais setores deveriam ser atingidos pelos cortes. O exercício mostra a dificuldade em se definir quais segmentos da sociedade devem receber menos recursos, especialmente num período eleitoral.

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