Eleição na Alemanha deve manter Merkel no poder

Todas as pesquisas apontam para que o partido mais votado seja a União Democrata-Cristã

Gabriel Bueno da Costa e André Lachini, da Agência Estado

27 de setembro de 2009 | 05h23

Pessoas com traje típico bávaro se dirigem a um colégio eleitoral em Aschau im Chiemgau

 

Os eleitores da Alemanha escolhem neste domingo, 27, os novos membros do Parlamento federal. A chanceler Angela Merkel é apontada como ampla favorita para seguir liderando o país, mas os resultados podem trazer algumas mudanças importantes na política nacional. Os colégios eleitorais na Alemanha abriram suas portas para as eleições gerais, nas quais 62 milhões de eleitores foram convocados para votar. 

"Angela Merkel permanecerá como chanceler em todos os cenários", afirma o cientista político Gero Neugebauer, da Universidade Livre de Berlim, em entrevista por telefone à Agência Estado. A grande expectativa, porém, é sobre como será a formação do segundo governo Merkel.

 

Em 2005, o partido da chanceler, União Democrata Cristã (CDU), obteve uma vitória estreita. O resultado forçou uma "grande coalizão", entre o CDU e seus rivais do Partido Social-Democrata (SPD). Agora mais fortalecida, Merkel tenta formar uma nova coalizão, sem o SPD

 

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"A chance da manutenção da 'grande coalizão' é muito pequena", nota Neugebauer. O professor aponta que a tendência é haver uma maioria para a coalizão entre  conservadores e liberais, "mesmo que estreita". O parceiro preferencial para a CDU é o Partido Democrático-Liberal (FDP).

 

 

Já outro analista, Günther Maihold, do independente German Institute for International and Security Affairs, acredita que é possível ainda haver a manutenção da grande coalizão. Em entrevista por e-mail, ele justifica seu ponto de vista apontando para o alto número de indecisos: "Até o momento há ainda um terço dos eleitores que não decidiram seus votos, de maneira que pode haver surpresas de último momento”. Maihold lembra ainda que, em eleições anteriores, os social-democratas tiveram desempenho bastante superior ao previsto pelas pesquisas.

 

Mesmo que consiga melhorar na reta final, o SPD é apontado como o grande perdedor das eleições. O partido apresentou o atual ministro de Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, como sua opção para futuro chanceler. O professor de ciência  política Heinrich Oberreuter, da Universidade de Passau, prevê que a sigla perca 10% de sua representação no Parlamento. "O SPD é o perdedor, pois foi desafiado pelo Partido da Esquerda no campo da política de bem-estar social", nota ele, referindo-se a uma das bandeiras mais caras aos social-democratas.

 

Entre abril e junho, a economia da Alemanha cresceu 0,3%, tirando o país da recessão. Uma líder considerada discreta e com boa imagem pessoal, Merkel foi bem avaliada por boa parte da população por sua forma de conduzir o país na crise. Além disso, beneficia-se de uma oposição dividida. Merkel argumenta que ainda são necessárias reformas para haver mais crescimento, e a atual formação de governo não seria a ideal para avançar nesses pontos.

 

Apesar da melhoria no cenário, Neugebauer prevê um futuro difícil para o novo governo Merkel, independentemente da coalizão que assuma. Ele estima que o desemprego deve subir dos atuais 3,5 milhões de pessoas (oficialmente em 8,3% da força de trabalho em agosto, segundo a Agência Federal do Trabalho do governo alemão) para 4 milhões. O problema do desemprego é ainda mais grave no leste do país, antiga República Democrática da Alemanha (RDA), onde mesmo vinte anos após a reunificação a taxa de desemprego é o dobro da média nacional.

 

Neugebauer lembra que a crise reduziu os ganhos com os impostos, mas aumentou a necessidade de gastos em seguridade social. Os Liberais, porém, querem reduzir logo os impostos, enquanto a CDU acredita que não é o momento para isso, o que pode gerar atritos.

Outro desafio pela frente é comum a vários países europeus: o envelhecimento da população e, em consequência, da força de trabalho. Um estudo da consultoria McKinsey projeta que, em 2020, a Alemanha terá uma falta de 2,4 milhões de trabalhadores.

 

Segundo projeção da Divisão de População da Organização das Nações Unidas (ONU), a população de idosos com mais de 65 anos na Alemanha chegará a 20% do total dos alemães em 2010 e se aproximará de 25% da população total em 2020. É uma proporção de envelhecimento só superada pelo Japão, que segundo os dados da mesma divisão da ONU superou a marca de 20% em 2005. Os dados foram reproduzidos pela revista The Economist de 19 de setembro.

 

"Em algum momento, você começa a ter problemas com uma força de trabalho pequena para sustentar uma grande população de idosos aposentados. Você pode melhorar a tecnologia, mas precisa de uma grande quantidade de jovens no mercado de trabalho", comenta o economista Fábio Pina, da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP).

 

O economista acredita que esta eleição será mais polarizada que a de 2005. "A outra eleição foi uma de coalizões, a de centro-direita junto à de centro-esquerda. Agora a crise parece ter polarizado o processo eleitoral", diz Pina. Segundo ele, o novo governo, vença a centro-direita ou a centro-esquerda, precisará "fazer um ajuste na previdência e estimular um aumento na taxa de natalidade".

 

Maihold não espera nenhuma mudança importante na política externa alemã. Segundo o analista, o que deve ocorrer é um aumento da pressão dos EUA por mais tropas alemãs no Afeganistão.

 

Já a América Latina continua não sendo uma prioridade para a Alemanha. Segundo Maihold, apenas durante o exercício do próximo mandato poderá haver "novos  impulsos para esta relação".

 

 

Como funciona a votação

 

Os chamados mandatos adicionais são uma peculiaridade do sistema eleitoral alemão - os chamados mandatos adicionais - podem ser decisivos.

 

Seguindo o sistema misto alemão, a metade dos 598 deputados que deverá ter o próximo Parlamento Federal (Bundestag) serão eleitos por voto direto nas 299 circunscrições distribuídas em todo o território alemão enquanto a outra metade vai sair da lista dos partidos.

 

Cada eleitor tem um primeiro voto, que pode conceder a um dos candidatos que aspiram ao mandato direto de sua circunscrição, e um segundo voto que deve dar à lista de um dos partidos.

 

O segundo voto decide sobre a composição proporcional do Parlamento.

 

Pode acontecer de - quando surgem os mandatos adicionais - o número de mandatos diretos obtidos por um partido em um estado federado seja maior que o número de lugares que constam na lista regional.

Nesse caso, o número total de deputados do Parlamento aumenta para acomodar os deputados eleitos diretamente que não entrariam no Bundestag pela proporcionalidade.

 

Estes mandatos adicionais distorceriam em maior ou menor grau a composição do Parlamento favorecendo aos grande partidos, o Social Democrata e a União Democrata-Cristã, que dividem a grande maioria dos mandatos diretos.

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