Em golpe contra a UE, Irlanda rejeita tratado

O governo irlandês admitiu nasexta-feira a vitória do "não" no referendo sobre o novotratado destinado a reformar a União Européia. O ministro da Justiça, Dermot Ahern, confirmou o resultadopouco depois das 12h (9h em Brasília), quando as totalizaçõesde todo o país já mostravam a derrota do Tratado de Lisboa emum amplo número de distritos do interior. Em Dublin, venceu o"sim". "Afinal de contas, por uma miríade de razões, o povofalou", disse Ahern à RTE, lamentando o resultado. A Irlanda é um dos países mais pró-UE dentro do bloco, efoi o único a submeter a referendo o tratado criado parasubstituir a Constituição Européia, rejeitada pelos eleitoresde França e Holanda em 2005. Dessa forma, um país com menos de 1 por cento da populaçãoda UE (490 milhões) pode jogar por terra um tratado a duraspenas negociado durante anos pelos líderes de todos os 27Estados membros -- e para o qual não existe um "plano B". Refletindo o resultado, o euro caiu para seu menor valorfrente ao dólar em mais de um mês. "Se o povo irlandês decide rejeitar o Tratado de Lisboa,naturalmente não haverá Tratado de Lisboa", disse oprimeiro-ministro francês, François Fillon, na noite dequinta-feira. Mas outras autoridades da França -- que presidirá a UE nosegundo semestre -- disseram que o trabalho continua, numaépoca em que já se deveria começar a implantação, para quevigorasse em 2009. O objetivo do Tratado de Lisboa era facilitar o processodecisório dentro do bloco, instituindo novos mecanismos dedefesa e relações exteriores, além de um mandato de longo prazopara um presidente do Conselho Europeu. Entidades de agricultores e empresários, sindicatos e ostrês maiores partidos da Irlanda davam apoio ao tratado. No diade votação, casas de apostas ainda indicavam um amplofavoritismo do "sim". Graças à prosperidade que experimentou como membro da UE, aIrlanda é um dos países mais "eurófilos", segundo as pesquisas.Mas adversários do Tratado de Lisboa dizem que a nova ordenaçãopolítica tiraria poder dos pequenos países e acabaria com ahistórica neutralidade irlandesa ao concentrar em Bruxelasnovos poderes de defesa e diplomacia. Não é a primeira vez que o eleitorado irlandês passa umarasteira na UE. Em 2001, a vitória do "não" ao Tratado de Nicequase impediu a ampliação do bloco para o Leste. O governorepetiu o referendo, e o "sim" prevaleceu. Desta vez, porém, o governo diz que não cogita repetir avotação. Na semana que vem, uma cúpula da UE em Bruxelas devereafirmar seu compromisso com o tratado e pedir à Irlanda queindique como pretende proceder. Já houve ratificação ao tratadoem 14 Parlamentos nacionais.

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