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Entenda o caso do austríaco que prendeu a filha por 24 anos

Homem que manteve Elisabeth no porão e teve sete filhos com ela tem estratégia para evitar prisão perpétua

Agências internacionais,

16 de março de 2009 | 11h15

Em abril de 2008, o engenheiro elétrico aposentado Josef Fritzl, de 73 anos, admitiu ter mantido sua filha Elisabeth, de 43, presa no porão de sua casa em Amstetten (130 quilômetros a oeste de Viena) durante 24 anos, sem nenhum contato com o mundo exterior. Fritzl admitiu ter abusado sexualmente da filha, com quem teve sete filhos - todos nascidos no cativeiro. O caso foi descoberto depois que Kerstin, a filha mais velha de Elisabeth, de 19 anos, foi internada em estado grave e a polícia recebeu uma ligação anônima denunciando os abusos, o que indicaria que alguém sabia - ou pelo menos suspeitava - de Fritzl.

 

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Segundo Elisabeth, seu pai iniciou os abusos quando ela tinha 11 anos. Aos 16 e aos 18 ela tentou fugir de casa. Após essa última tentativa, Fritzl enganou Elisabeth para que ela entrasse no porão, onde a algemou e a drogou. À família, o austríaco afirmava que a jovem havia fugido para viver com uma seita. Das sete crianças que Fritzl teve com Elisabeth, três viviam no cativeiro desde o nascimento e nunca viram a luz do dia: além de Kerstin, Stefan, de 18 anos, e Felix, de 5. Os outros - Lisa, de 15 anos, Monica, de 14, e Alexander, de 12 - viviam com Fritzl e sua mulher, Rosemarie, que não sabia dos abusos. O irmão gêmeo de Alexander morreu logo depois do parto e seu corpo foi incinerado por Fritzl. Para justificar a presença dos filhos de Elisabeth, Fritzl disse que a filha os havia abandonado recém-nascidos em sua porta (em 1993, 1994 e 1997), sempre acompanhados de uma carta na qual afirmava não poder cuidar das crianças.

 

O drama de Elisabeth começou a vir à tona quando Kerstin foi internada por Fritzl em estado grave, aparentemente sofrendo de uma doença degenerativa, consequência do incesto. Sem informações sobre a mãe da menina, as autoridades fizeram um apelo na TV. Elisabeth teria convencido então o pai a deixar que ela e os outros dois filhos saíssem do cativeiro, para conversar com os médicos. Elisabeth só revelou os abusos do pai após a polícia assegurar que ela e seus filhos nunca mais teriam contato com Fritzl. Segundo autoridades, Elisabeth, Stefan e Felix foram internados com "trauma profundo". Os dois meninos sofreriam de distúrbios visuais e de pele, resultado da falta de exposição à luz solar. Investigadores disseram que exames de DNA comprovaram que Fritzl é o pai das seis crianças que sobreviveram ao cativeiro.

 

A polícia divulgou imagens do cativeiro construído por Fritzl ao longo dos anos. A porta de acesso, revestida de concreto, ficava escondida atrás de uma estante no porão. Para abri-la era preciso acionar um mecanismo eletrônico com um código que só Fritzl conhecia. A mãe e os filhos viviam numa área de cerca de 60 metros quadrados, composta por um quarto, cozinha e um pequeno banheiro. O local era ventilado por meio de um duto. Em algumas partes do cativeiro, a altura máxima dos cômodos não passava de 1,70 m.

 

As crianças nunca foram à escola e jamais receberam tratamento médico. O único contato com o mundo exterior era por meio de uma TV. A comida era trazida todas as noites por Fritzl, que também dava roupas paras as crianças. Os outros três filhos de Elisabeth tinham uma vida completamente diferente dos irmãos. Iam à escola, eram considerados bons alunos e participavam de atividades em grupo. Fritzl, descrito pela polícia como "autoritário" e "inteligente", proibiu sua mulher e os seis irmãos de Elisabeth de chegarem perto do porão. Para assegurar-se de que não seria alvo de suspeitas, o engenheiro sempre reclamava da falta de empenho da polícia para encontrar sua filha.

 

Julgamento

 

Fritzl foi a julgamento num tribunal provinciano no dia 16 de março pela morte de um bebê que morreu pouco depois de nascer no porão, além de cinco outras acusações: cárcere privado, estupro, incesto, coerção e escravidão. Promotores dizem que Fritzl pode pegar de 10 a 15 anos de prisão ou prisão perpétua. O veredicto deverá sair no dia 20 de março.

 

Fritzl declarou-se culpado das acusações de incesto e cárcere privado, mas disse ser apenas parcialmente culpado de coerção e estupro. Ele declarou-se ainda inocente das acusações de homicídio e escravidão. A Justiça do país estipulou uma duração de cinco dias para o julgamento e um veredicto é esperado para a sexta-feira à tarde no horário local.

 

As deliberações serão feitas sem a presença da imprensa. Estima-se que 200 jornalistas tenham chegado à cidade para acompanhar o julgamento, mas eles terão acesso ao tribunal apenas durante a leitura das acusações, no início, e do veredicto, ao final do processo. Um porta-voz do tribunal dará declarações sobre o transcorrer do julgamento uma vez por dia.

 

As autoridades austríacas tomaram medidas para resguardar a privacidade de Elisabeth Fritzl e seus filhos durante esta semana, colocando-os sob a proteção de médicos e policiais na clínica de Amstetten-Mauer, com o objetivo de evitar o assédio dos paparazzi. Há alguns meses, Elisabeth vive com a família sob uma nova identidade na região da Áustria Alta, mas em dezembro um fotógrafo captou imagens de um passeio dela e as fotos foram publicadas num jornal inglês, causando indignação na opinião pública austríaca.

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